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Colecionando gerações: O raio X dos álbuns da Copa
ARQUIBANCADA
12 jul 2018 | Por Jornalismo Júnior

Por Gabriela Teixeira e Maria Carolina Soares

Coleção de figurinhas (Imagem: Michel Rodrigues)

Para participar da Copa do Mundo é preciso preparação – seja para jogar ou torcer. Enquanto os atletas treinam, a população retoma velhos costumes, tirando as camisetas verde e amarela do armário e recolorindo as cidades. Mas, se a tradição de pintar as ruas parece ter enfraquecido nos últimos anos, a de colecionar os álbuns da copa se mantém cada vez mais forte.

Os álbuns, como são conhecidos hoje, surgiram em 1970 no Brasil quando a Panini, atual fabricante, firmou uma parceria com a FIFA para formalizar uma paixão que já era de vários brasileiros. Entretanto, o primeiro foi produzido já em 1950 para a primeira Copa sediada no Brasil. Nessa época, as figurinhas eram vendidas junto com balas e vinham dentro de pacotes, sendo mais um brinde do que um produto em si. A partir da copa de 1970, no México, isso mudou. Coincidência ou não, é interessante ver como a seleção brasileira teve influência nesse processo: o primeiro álbum foi produzido para uma copa no Brasil e a parceria com a FIFA veio no ano em que a seleção conquistou o tricampeonato mundial.

Página do Brasil no álbum de 1982, copa da Espanha. (Imagem: Marcos Roque da Luz)

Marcos Roque da Luz, de Niterói (RJ), coleciona figurinhas desde 1982, ano da copa sediada na Espanha e que teve a Itália como campeã. Motivado por sua paixão pelo futebol, ele tem os álbuns de cada edição do torneio realizada desde então. Esta, aliás, é a razão por trás de muitas coleções, além do próprio “clima de Copa do Mundo”, contagiante para muita gente.

Não à toa, o grupo “Troca de Figurinhas do Álbum da Copa do Mundo 2018” no Facebook, possui quase 31 mil membros. São pessoas do Brasil inteiro procurando completar seus álbuns, vender suas coleções ou comprar exemplares raros do mundial. Com estudos indicando que os gastos para preencher um álbum podem ultrapassar a casa dos mil reais, os grupos de troca se tornam, então, uma boa maneira de economizar dinheiro e agilizar o ato de colecionar.

Um dos participantes é Michel Rodrigues, um estudante de engenharia, que coleciona desde 2006. Ele contou que demora, em média, dois meses para completar um álbum e que o gosto pelas figurinhas tem um motivo. “Acho legal porque é uma forma de lembrar quais jogadores estavam jogando em cada ano e, futuramente, mostrar para os meus filhos”, diz.

Assim como ele, a pedagoga Tatiana Millar Polydoro é aficionada pela sua coleção. Ela revelou que compra álbuns desde os oito anos de idade, e que o primeiro exemplar da Copa do Mundo foi o de 1990. “Tenho o álbum até hoje em casa e só queria guardar as figurinhas do Taffarel. Foi a primeira Copa que Taffarel jogou”. Ela ainda adicionou que considera uma conquista completar o livro ilustrado.

Sendo as bancas de jornais os pontos oficiais de compra das figurinhas, seus proprietários também aproveitam um pouco do entusiasmo pelos álbuns da Copa. Dono de uma banca em Taubaté (SP), Vincenzo Romano explicou que o período de maior venda se concentra no mês do lançamento do álbum, mas que diminui drasticamente conforme o passar das semanas. Neste ano, segundo ele, o aumento no preço dos pacotinhos foi um fator de grande influência nas vendas, que poderiam ter sido melhores.“Há quatro anos o envelope era R$ 1,00, agora custou R$ 2,00. Por causa desse aumento do custo e devido a situação do próprio brasileiro hoje, houve uma queda muito grande em relação à última Copa. Esse preço que foi utilizado esse ano, ao meu ver, foi alto”.

Opinião semelhante é compartilhada entre os colecionadores e que, somada ao fato dos primeiros álbuns serem lançados com a escalação ainda não oficial, acaba por desmotivar alguns. Contudo, mesmo insatisfeitos por precisarem desembolsar mais dinheiro, a maioria não desiste do hobby.

O gerente de vendas Vinicius Baia, por exemplo, já gastou bastante por conta disso. Ele contou que, em 2018, completou 3 álbuns da Copa do Mundo e, neles, desembolsou em torno de mil reais. “Sou afoito, logo comprei o álbum cortesia vindo em um jornal, não demorei muito e completei. Depois a Panini lançou um capa dura e eu quis comprar também. Por fim no terceiro álbum, recebi um lote de 400 figurinhas de um amigo e acabei de finalizar, essas ainda estão sem colar,” diz ele. Baia completa que os grupos de troca são bons não só para trocar os cromos, mas servem para desenvolver habilidades de negociação nas crianças.

Para outros, porém, tais situações tiram totalmente o brilho do que deveria ser uma atividade recreativa. É o caso do Marcos, que começou a vender seus álbuns para conseguir uma renda extra e por ter perdido um pouco o interesse pela coleção e pelo futebol em si.

Colecionador desde os anos 80, Marcos Luz hoje tenta passar adiante suas edições. (Imagem: Marcos Luz)

Ele não é o único. Tomaz Silberschimidt, representante comercial, apesar de ainda gostar de completar os álbuns do mundial, precisou vender dois de sua coleção para ajudar em sua mudança. “Sempre coleciono para guardar e ter de recordação, mas estou me mudando para um apartamento menor e mobiliando, então acabei me desfazendo de algumas coisas”, afirmou. Questionado sobre a possibilidade da venda de álbuns completos se tornar um mercado rentável, ele disse acreditar que “para época, está sendo lucrativo. No futuro, provavelmente ganharia mais, mas, para meu momento atual, está bom”.

Outro problema enfrentado é a falsificação de figurinhas. Com o aumento do preço, muitos colecionadores procuram os grupos de troca e venda não oficiais, abrindo espaço para a criação de exemplares falsificados. Dos entrevistados nesta reportagem, todos disseram que nunca passaram por essa situação, mas conseguiriam facilmente diferenciar as figurinhas falsas das oficiais. Além disso, Talita Polydoro ressaltou que, em sua cidade Maricá (RJ), os pacotinhos verdadeiros estão frequentemente em falta nas bancas e, quando aparecem, possuem as mesmas figurinhas. “As brilhantes e as lendárias não vêm quase nunca”, completa.

Entre começos e abandonos, o hábito de colecionar figurinhas, no geral, se mantém estável, atraindo pessoas de todas as gerações, mesmo com as mudanças de preço, falsificações e problemas na distribuição. Isso, além de um hobby, ajuda a criar o clima para o evento mais importante para os brasileiros aficionados por futebol.

Em breve, os álbuns irão mudar. Na Copa de 2026, ao invés das atuais 32 seleções, serão 48 países a disputar a taça. O novo formato preocupa alguns colecionadores, que já imaginam o aumento do custo dos exemplares. Por enquanto, porém, a pergunta que fica é: estará no volume de 2022 a seleção que nos trará o hexa?

 

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