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Como as animações ensinam a lidar com a frustração
CINÉFILOS
21 fev 2020 | Por Kaynã de Oliveira (kaynadeoliveira@usp.br)

Kung Fu Panda (2008), Procurando Nemo (Finding Nemo, 2003), Sing – Quem Canta Seus Males Espanta (Sing, 2016) e Up – Altas Aventuras (Up, 2009) são filmes populares que integram o imaginário das pessoas e despertam as mais diversas sensações. Os famigerados cartoons fazem parte da vida contemporânea. Desde a infância, o colorido dos filmes e o contorno dos personagens fascinam qualquer criança mas, além dos pequeninos, os adultos também ficam encantados. Esta reportagem busca compreender a influência psicológica que este gênero cinematográfico possui nos indivíduos, relacionando as animações com a gerência da frustração humana. Já se emocionou, se sentiu feliz e motivado ao assistir uma animação? Talvez este texto seja dedicado a você.

O panda Po (Jack Black) sonha em aprender kung fu, já Mr. Moon (Matthew McConaughey) quer trazer os tempos de glória para o teatro deixado como herança pelo seu pai, o Sr. Fredricksen (Edward Asner) busca viver a aventura de sua vida, e Nemo (Alexander Gould) anseia por voltar para casa. Todos estes personagens, por mais diferentes que sejam, têm um aspecto importante em comum: a gestão da frustração.

Cada personagem lida com seus conflitos de maneira única. Po não quer permanecer infeliz na loja de macarrão de seu pai e é obrigado a lidar com o obstáculo de acreditar em si mesmo para se tornar um profissional do kung fu e o dragão guerreiro.

Mr. Moon, um coala otimista, deseja realizar o show de talentos, recuperar o teatro e alcançar o esplendor, mas quando vê o sonho ir literalmente por água abaixo, é o suporte dos amigos que o faz administrar os fatos.

Carl Fredricksen é frustrado pela morte da esposa, Ellie, por não ter realizado o sonho que possuíam desde a infância e por ter sido processado e obrigado a ir para um lar de idosos. Após todos os ocorridos, ele decide colocar em prática o plano da casa voadora e junto ao companheiro Russel (Jordan Nagai) encontra uma dose de felicidade juvenil novamente durante a aventura.

Nemo precisa voltar para casa, porém o aquário em que se encontra é um empecilho; o plano de fuga é ligeiramente simples, mas falha. Marlin (Albert Brooks), seu pai, não desiste da busca pelo filho e junto a Dory (Ellen DeGeneres) enfrenta a imensidão do oceano e sua periculosidade até chegar na cidade de Sidney, onde Nemo está. Lá, o peixinho é notificado da presença do pai e a saudade o faz incorporar a coragem que precisa para fazer o plano de fuga do aquário funcionar.

Nota-se em ambos filmes que os personagens têm seus momentos de decepção e tristeza nos quais nada parece dar certo e que desistir se apresenta como possível opção. No entanto, sempre há algum aspecto ou algum pequeno detalhe que os faz acreditar novamente e voltar para a rota em direção ao objetivo final. É como a Dory canta em plenos pulmões: continue a nadar, continue a nadar, para achar a solução continue a nadar.

Daniela Cipriano, analista de atendimento, 28 anos, fala que assistiu às animações quando pequena e comenta: “são filmes que inspiram a não desistir do objetivo, do que se acredita, mesmo com tudo falando que não consegue. Esses filmes me inspiraram e isso se mantém em mim até hoje”.

Luiza Cordeiro, estudante de veterinária, 19 anos,  diz que são filmes incríveis e com diversas lições de moral para as crianças, o que ela gosta bastante. Assistiu aos longas listados pela primeira vez quando tinha apenas 7 anos. “Tem algumas lições que carrego até hoje e tento levar as mensagens para a minha vida”, comenta. “Em Up vejo que nunca se pode desistir daquilo que almeja. Ele [Carl] tinha um sonho junto com a esposa de viajar e conseguiu realizá-lo. Não se pode deixar que os obstáculos te façam parar.” 

A lições de vida estão presentes em todos os filmes comentados até agora. O mestre Oogway (Randall Duk Kim), de Kung Fu Panda, diz frases marcantes como: “o ontem é história, o amanhã é um mistério, mas o hoje é uma dádiva e por isso se chama presente” e “sua mente é como a água, quando fica agitada não consegue ver claramente, mas se permitir que se acalme, a resposta fica clara”. Em Sing –  Quem Canta Seus Males Espanta, Mr. Moon também não deixa a desejar no quesito frases de impacto: “não deixe o medo te impedir de fazer o que você ama” ou “o bom de se chegar no fundo do poço é que só tem uma direção para seguir: para cima”. São palavras que se destacam na cena, se prendem nos ouvidos do espectador e impactam tanto o público infantil quanto adulto.

Animações podem ser  pensadas para todas as faixas etárias. “Os discursos afetam as pessoas no sentido de reforçarem aquilo que está envolto da sociedade. Sempre há o encontro com as coisas que estão acontecendo”, comenta Aurélio Melo, doutor em psicologia do desenvolvimento pelo Instituto de Psicologia da USP (IPUSP). Estes aspectos, considerados até generalistas, afetam o indivíduo que experimenta o cinema. Num adulto, há identificação com os personagens e o acesso às memórias, levando-o a se emocionar, se empolgar ou sentir um misto de sentimentos.

As crianças tendem a viver o presente, estão conectadas ao mundo da fantasia e são acessadas pelo momento de vida no qual se encontram. Enquanto o adulto, como afirma Aurélio, é acessado, geralmente, por sua história de vida e se desloca no tempo. “Dificilmente se vê um adulto com o espírito infantil de viver o presente, porque fica muito mais envolvido com as memórias”, diz ele.

“Quando somos pequenos nos importamos mais com o desenho, mas depois que crescemos e começamos a entender a vida, passamos a tomar as lições para nós mesmos. Quando eu era criança não percebia as mensagens que os filmes passavam, só agora com o olhar de adulto”, relata Luiza.

De acordo com Aurélio, hoje as personagens estão muito ligadas a um discurso de superação e motivação. As pessoas se identificam quando uma história de sucesso é alcançada após um obstáculo superado. “O cinema romântico, do final feliz, deu lugar aos filmes de superação. O Nemo, por exemplo, tem um aspecto mais universal, como um indivíduo que vence, atravessa os perigos, supera e se encontra”, comenta.

O consumo de animações e do cinema, de forma geral, está relacionado ao momento de vida de cada espectador. Ligado a isso, a junção de imagem e som são essenciais para a amplitude das sensações e para o encanto. Aurélio explica que “a emoção evade do campo da racionalidade e afeta o indivíduo. A imagem é potencializada quando junta do som”.

De acordo com Aurélio, pensando no aspecto psicodinâmico, o filme possui uma função catártica, serve para descarregar a emoção, diminui a tensão e faz com que os espectadores vivam uma fantasia de maneira segura, sem sair do lugar. A experiência estética de ver um filme é uma vivência emocional. Portanto quando se está no cinema, vive-se um momento que, do ponto de vista psicológico, é feita uma parada no tempo. Após sair do cinema, nada aconteceu na vida, no entanto, emocionalmente muita coisa se sucedeu e muito provavelmente o indivíduo se torna outra pessoa depois da experiência cinematográfica. “Um filme é uma experiência estética capaz de te modificar. É um processo chamado de subjetivação, que consiste em colocar para dentro uma experiência externa que modifica o indivíduo, mudando sua subjetividade e seu mundo interno.”

Em todos os longas comentados, nota-se a importância do outro para que os protagonistas atinjam seus objetivos. Claro, a força interior está presente, mas amigos ou parentes são essenciais para que Nemo, Carl Fredricksen, Buster Moon e o panda Po alcancem o que tanto almejam. As problemáticas são populares, o que faz a narrativa atingir um grande público que se identifica com os aspectos traçados pelas obras. Porém, quando se pensa na superação, na maneira de lidar com as frustrações, Aurélio faz uma advertência sobre a retratação desses temas nas telonas: é comum os filmes abordarem temas considerados em alta na sociedade. Histórias de superação nas quais por si só, pela crença em si mesmo, o personagem supera seus conflitos. Este fato beira ao individualismo, já que há o apreço pelas ações tomadas por si mesmo, sem um coletivo. “A maioria das pessoas são coletivas, então os problemas são coletivos, mas as soluções são sempre oferecidas individualmente. Surge uma fantasia do sucesso individual”, afirma.

A verdade é que, além de fofas, as animações têm uma significância que ultrapassa as linhas dos desenhos e atingem o psicológico humano. Definitivamente não são nada bobas. As histórias são essenciais para a criação de uma conexão consigo mesmo no momento da experiência e para a criação fantasiosa infantil, que incentiva também a criatividade. O cinema permite a viagem interna, seja numa casa voadora com bexigas, nas correntes marítimas australianas, ou numa cadeira cheia de fogos de artifício chineses. Quando a vida decepciona qual é a solução? Falar baleiês? Talvez. Mas, segundo a Dory, é “continue a nadar”.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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