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Contra toda forma de caretice, Madonna
Escuta Aí
21 mar 2020 | Por João Mello (joaovictorm.mello@usp.br)

Louise Veronica Ciccone. Esta é uma mulher que as pessoas costumam não conhecer. O nome entrega suas origens italianas, cultivadas na pequena cidade de Bay City, no Michigan. Também não conhecem a pessoa que se mudou sozinha para Nova York e começou vendendo donuts. Porém, existe um nome que soa alto: o de sua mãe, falecida em decorrência de um câncer de mama quando a criança tinha apenas 5 anos. Para alguns, é a Rainha do Pop, para outros, simplesmente da Controvérsia. Para todos, Madonna. 

A cantora está na indústria fonográfica há 36 anos. Já assumiu diferentes personas nos seus 14 álbuns de estúdio e continua levantando discussões mesmo em 2019. Seu novo disco, Madame X, tem influências da música portuguesa, um reggae e até um funk – além das discussões políticas já tão típicas. Mais uma vez, a cantora lida com controvérsias e, agora, perguntam: “ela não está muito velha para isso?”, “seu tempo já não passou?”. A pergunta certa poderia ser: “qual é, afinal, o tempo de Madonna?”.

 

A Controvérsia

Talvez não seja possível dizer ao certo qual é o tempo de Madonna, mas certamente começou quando ela, na década de 80, já se mostrava ambiciosa e fez questão de criar polêmicas. Em Like a Prayer (1989), um de seus videoclipes mais famosos, ela dança em frente a crucifixos em chamas, critica o racismo institucional e sugere uma cena de sexo com um ator negro representando Jesus. Esse questionamento irônico da iconografia cristã foi considerado uma heresia em 1989 e a cantora perdeu um contrato milionário com a Pepsi. 

Madonna no clipe de 'Like a Prayer'. [Imagem: Reprodução]

Madonna no clipe de ‘Like a Prayer’. [Imagem: Reprodução]

Um ano depois de Like a Prayer, ela lança Vogue (1990) e representa o universo no qual viveu logo depois de se mudar para Nova York. Madonna costumava frequentar baladas de vogue dancing e aqueles que a acolhiam eram basicamente homens homossexuais. Ela foi influenciada por amigos artistas que, na época, ainda não eram referenciados tal qual são hoje, como Andy Warhol e Keith Haring. Chegou até a namorar o artista plástico Jean-Michel Basquiat. Ela, mulher heterossexual em um momento no qual o Movimento LGBTQ+ ainda tomava forma, criou controvérsia novamente. Em Vogue –  clipe em preto e branco que remetia à classe dos anos 20 de Hollywood – dançava com muitos homens gays e parecia dizer “estou com vocês enquanto ninguém mais está”.

“Desde os anos 1980, a cantora vem desbravando uma série de novos horizontes artísticos, estéticos, performáticos, simbólicos, sexuais e político-ideológicos dentro da indústria do entretenimento norte-americano e mundial.” É o que diz Leonardo Mozdzenski, doutor em Linguística e professor da Universidade Federal de Pernambuco. Para ele, muitos clipes da artista podem ser considerados “discursos fundantes” no campo das artes audiovisuais e da cultura pop. 

Um discurso fundante se refere a uma obra que tem a função de fundar outros discursos e não de serem fundados por outros. São, basicamente, uma matriz ou referência. “É indiscutível que clipes como Like a Prayer e Vogue já fazem parte do imaginário coletivo e, portanto, podem ser percebidos como constituintes dos discursos subsequentes.”

 Em outros casos, a cantora se utilizou de referências para fazer reflexões. Em Material Girl (1984), por exemplo, ela subverte a imagem da atriz Marilyn Monroe no filme  Gentlemen Prefer Blondes (Homens preferem as loiras), de 1953. No longa, a personagem de Monroe é retratada como superficial, uma mulher que quer conseguir um marido rico. Madonna faz uma sátira ao enredo do filme, já que na trama do videoclipe não é conquistada por presentes caros (como sugere a própria letra da música), mas sim por uma atitude romântica. 

À esquerda, Madonna no clipe de 'Material Girl'; à direita, Marilyn Monroe em 'Gentlemen Prefer Blondes'. [Imagem: Reprodução]

À esquerda, Madonna no clipe de ‘Material Girl’; à direita, Marilyn Monroe em ‘Gentlemen Prefer Blondes’. [Imagem: Reprodução]

Mozdzenski dá, ainda, um relato pessoal de quando assistiu ao clipe de Like a Prayer pela primeira vez. Os videoclipes nos anos 80 eram lançados em programas dominicais – como o Fantástico e o Domingo Espetacular – e as famílias se reuniam para jantar e assistí-los. Os temas iriam ser discutidos durante toda a semana seguinte nas salas de aula, no trabalho, nas mesas de bar. Os clipes de Madonna seguiam esse mesmo ritual: a cada nova polêmica, mais se falava sobre os escândalos da cantora. “Assisti ao vídeo de Like a Prayer na sala de TV, junto com meus pais e minha avó, todos bem religiosos. A reação do pessoal foi um misto de perplexidade, repulsa e indignação.”

 

“Ambição Loira”

Alguns ainda podem dizer que Madonna também causou “perplexidade, repulsa e indignação” quando tratou de temas feministas. Uma das primeiras polêmicas que a envolviam foi quando, em 1984, ela disse ao mundo inteiro que era uma mulher solteira e não mais virgem. O que para quem escuta Like a Virgin hoje seria uma afirmação normal, na época causou grande reboliço e a lançou oficialmente no mundo pop.

Mundo esse que ela novamente chocou ao lançar o disco Erotica. O álbum inteiro é voltado para tratar de questões sexuais: expõe seus desejos, fantasias e delírios. No clipe da música homônima ao álbum, ela trata de questões sexuais de maneira explícita até para os dias atuais, mas faz isso no começo da década de 90. Cria seu pseudônimo Dita – em homenagem à atriz Dita Parlo em L’Atalante – e interpreta uma dominatrix. O clipe era exibido na TV apenas depois da meia-noite e a rendeu discussões com o Vaticano. 

A professora da PUC-Rio e doutora em Antropologia Cultural, Claudia da Silva Pereira, destaca como Madonna foi importante para questões feministas. “Ela promoveu o diálogo com o mercado e a mídia com questões tabu, para além do feminismo, como religião, sexualidade e objetificação do corpo. Podemos considerá-la a pioneira do movimento que hoje entendemos por ‘meu corpo, minhas regras’.” 

A antropóloga comenta ainda sobre como Madonna contribuiu  para a “emancipação feminina”. Segundo ela, sua influência na geração de mulheres que hoje têm 50 ou 60 anos foi muito forte e “se não se fez presente na juventude, certamente se expressa na maturidade, com a legitimidade conquistada por meio de diferentes atores sociais e culturais, entre eles, a cantora.”
Um dos momentos em que a popstar mais representa essa emancipação é na turnê Blonde Ambition, de 1991. “Madonna, no início dos anos 90, trouxe para o feminismo uma espécie de glamour, de feminilidade, que eram, de certo modo, rejeitados pelas feministas naquele momento histórico.” Ela começava o show usando um terno e seu clássico sutiã de cone desenhados por Jean-Paul Gaultier e cantava Express Yourself, quase berrando para que a plateia feminina se expressasse e não aceitasse ser a segunda melhor. 

Madonna performando 'Express Yourself' na turnê 'Blonde Ambition'. [Imagem: Reprodução]

Madonna performando ‘Express Yourself’ na turnê ‘Blonde Ambition’. [Imagem: Reprodução]

Essa “ambição loira” talvez seja um dos aspectos mais controversos de sua vida. Ela nunca fez questão de esconder sua vontade de se tornar famosa, mas havia pessoas próximas à ela que não enxergavam esse aspecto tão positivamente. Christopher Ciccone, em seu livro A Vida Com Minha Irmã Madonna, retrata sua irmã como alguém fria, calculista, caprichosa e cujos desejos não poderiam ser impedidos por absolutamente nada ou ninguém.

 

O Pop

Independentemente de quais são os fatores envolvidos em sua ambição, isso a fez ser consagrada na grande mídia como “Rainha” na época da Blonde. Mas sua carreira apenas cresceria. Depois que teve sua primeira filha, Lourdes Maria, ela lançou seu álbum mais bem comentado na crítica especializada: Ray of Light (1998). Nele, explora batidas eletrônicas e trata de temas espirituais por influência da Cabala, vertente filosófica esotérica do Judaísmo, que Madonna estudava. Sua fase mais introspectiva rendeu à cantora 4 Grammys

Em 2003, Madonna continua a contestar. Em seu auge das críticas políticas, lança American Life (2003). Além de percorrer caminhos introspectivos da cantora, critica a cultura do espetáculo em Hollywood (2003) e a política externa dos Estados Unidos com relação ao Iraque no clipe da música homônima ao álbum. Por esse último fator, o disco sofreu um boicote no país e vendeu muito pouco. 

Comentários sobre a idade de Madonna já eram recorrentes quando ela criou Confessions on a Dancefloor, em 2005. O álbum explora os ritmos da música disco que a  colocariam de volta ao topo das paradas musicais. Alguns meses antes do lançamento, ela sofreu uma queda de cavalo e quebrou três costelas, a clavícula e uma das mãos. Mesmo assim, Madonna faz o vídeoclipe de Hung Up (2005), em que incorpora uma dancing queen, e inicia a Confessions Tour.

O primeiro ato da Confessions começa com um globo de discoteca descendo ao palco, que se abre e revela Madonna usando roupas equestres, como se tirasse sarro do seu acidente e dissesse que nada poderia pará-la. Nem sua queda, nem as críticas, nem sua idade. Ela passa o show inteiro dançando e a turnê lucrou 194 milhões de dólares. Essa seria a primeira de uma série de suas turnês mais bem-sucedidas. 

Seu ápice de lucro em turnês viria com a seguinte: a Sticky and Sweet Tour (2008) faturou 407 milhões e é, até hoje, a turnê mais lucrativa de uma artista solo feminina. A MDNA Tour, de 2012, rendeu 305 milhões. A Rebel Heart Tour adiciona 170 milhões à fortuna da cantora e a consolida como artista que mais arrecadou com shows na história. A Madame X Tour estreou em setembro com uma proposta mais intimista, para ser vista em teatros, menos megalomaníaca. Isso faz questionar: “quem é esta nova Madonna? Seu tempo efetivamente passou?”.

 

Madame X

A primeira coisa que me impressionou foi a resiliência de Madonna. Desde muito cedo, as portas nunca foram tão abertas para ela, mas ela insistiu, tentou, acertou, errou, e acima de tudo: continuou.” Foi o que disse Rafael Froner, dono do Café com Rafa, canal do YouTube que fala de cultura pop, mas que, principalmente, dedica-se a falar sobre a Madonna, discutir sua importância e seus passos nos últimos tempos. 

Rafa comenta sobre como, desde 2012, ela parece ter sido deixada de lado por grande parte da mídia e sobre a discrepância entre seu desempenho nas paradas no auge de sua carreira e atualmente, quando a Billboard é dominada, basicamente, por menores de 30 anos. “O que acredito que irá acontecer é que artistas que estão chegando aos 40, como Lady Gaga, Britney e Beyoncé, irão sofrer o mesmo e entender a porta que Madonna ainda está abrindo para elas.”

A cantora compôs o Madame X (2019) depois de se mudar para Portugal inspirada nas sessões de fado, onde as músicas são criadas por pessoas unidas em pequenas salas, produzindo um som organicamente. “A artista teve o privilégio de conhecer o mundo inteiro e nos presenteou com uma era repleta de mensagens sinceras”, disse Rafa.

O CD conta com músicas bastante diferentes entre si. Médellin e Bitch I´m Loca são reggaetons. Batuka entra no ritmo das batucadeiras de Cabo Verde, criado por mulheres negras no começo da escravidão no país. Faz Gostoso se insere na onda de funks-pop e tem a participação de Anitta. God Control critica a política de controle de armas dos Estados Unidos em meio a um ritmo disco. Em Future, é explorado o reggae jamaicano. Dark Ballet é como uma ópera-pop na qual Madonna novamente critica a Igreja, dessa vez com uma linguagem mais poética interpretada pelo corpo de Mykki Blanco, uma Joana D’Arc trans e negra.

Em seu aniversário de 61 anos, a equipe da recém estreada Madame X Tour preparou uma festa surpresa com muitos donuts. Madonna então teve um encontro com seu passado e seu presente: o da mulher que mais vendeu discos no mundo e que estava começando a sua 10ª turnê e a da garota que vendia donuts em Nova York e fazia backing vocal. Irônica como sempre, seu discurso não poderia ser outro que não “tudo começa com donuts, pesquise aí”. 

Colocando esses dois momentos em comparação, a antropóloga Claudia Pereira apontou que a cantora “nunca obedeceu nenhuma instituição, não seria agora que o faria”. O que a professora questiona é se o que Madonna faz hoje – ao continuar dançando, fazendo shows e comandando sua vida – é resistência ou contestação. “Acho que é simplesmente ser Madonna, como ela sempre foi: resistência e contestação. E Madonna ainda foi, é, e sempre será uma ameaça à caretice.”

Madonna em sua festa de aniversário de 61 anos. [Imagem: Reprodução/Instagram]

Madonna em sua festa de aniversário de 61 anos. [Imagem: Reprodução/Instagram]

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