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Daytripper – Vida e Morte de Brás de Oliva Domingos
Na Estante
26 nov 2014 | Por Jornalismo Júnior

“A vida de Bras de Oliva Domingos começou 28 anos atrás e acabou em uma manhã de sexta-feira atropelado por uma van em seu caminho ao café da manhã. Ele sempre esteve lá quando seus amigos precisaram, era próximo da família, e ele, como todo o resto das pessoas, estava tentando encontrar seu lugar no meio do deserto, procurando por esse Oasis que gostamos de chamar de… amor.” Conheça Brás. O Personagem principal da história em quadrinhos Daytripper tem nome de personagem de livro de Machado de Assis e feições curiosamente semelhantes as de um dos maiores cantores da música brasileira, Chico Buarque. É brasileiro, assim como os criadores desta obra-prima, os gêmeos Fabio Moon e Gabriel Ba.

Com a HQ, os brasileiros ganharam os prêmios Eisner em 2011 – equivalente a um Oscar dos quadrinhos – e Eagle, além de ter ficado duas semanas entre as coletâneas em quadrinhos mais vendidas pelo The New York Times. Apesar disso, Moon e Ba ainda são conhecidos no Brasil apenas pelos afiados leitores de quadrinhos e alguns curiosos. Assim como não valorizamos a riqueza da música, da dança, da arte brasileira, não percebemos quando dois jovens promissores do Brasil despontam como revelações no exterior. Fábio e Gabriel já haviam publicado outras pequenas coletâneas e ganhado outros prêmios, como a série chamada 10 pãezinhos, mesmo nome do blog onde publicam semanalmente tirinhas.

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Para alcançar o lugar que chegaram, os cartunistas escreveram a história na primeira versão em inglês, lançada fora do Brasil, para depois ser traduzida ao português. Dois brasileiros sem espaço para escreverem sobre uma história brasileira encontraram um jeito para serem ouvidos. Mas ler “Iemanjá’s Day” ou “Sands of Salvador” causa certo estranhamento.

Sendo em inglês ou português, os irmãos criaram Daytripper com uma sensibilidade rara. No silêncio de sua casa na Vila Madalena escrevem, desenham, discutem, apagam e sonham um de frente para o outro durante dias e dias. A história é contada pelos traços de Fábio e pelas letras de Gabriel. A intimidade dos gêmeos permite trabalharem com sinceridade, cobrando um ao outro no dia a dia do estúdio em sua casa. E foi no meio dos pincéis e canetas, cercados por dezenas de HQs que os dois decidiram ser das mãos de Fábio que brotariam as feições de cada personagem. Uma escolha pela inclinação de Moon em um traço sensível, pensando em relacionamentos e sentimentos.

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Um conto sobre a vida ou sobre a morte… ou como diz Brás a seu filho: “Uma história sobre a morte… Na verdade é sobre a vida, mas a morte tem um papel importante.” A vida de Brás se movimenta entre os dez capítulos. Com sempre apenas mais um dia de vida, Brás pode ter 41 anos e ser pai, ter apenas 11 e encontrado o sentido de viver ou ter 28 e encontrado o amor de sua vida. Não podemos controlar nossos dias.
Filho de um escritor famoso, Brás escreve sobre a morte todos os dias. É o responsável pelos obituários do jornal em que trabalha, mas ao escrever sobre os falecidos, não estaria contando suas vidas? Ao lamentar sobre escrever apenas sobre morte, Jorge, seu melhor amigo, lembra que a morte é uma parte da vida. Em entrevista para o programa alemão Die Geek Show, Fábio reflete sobre ir a um funeral de um conhecido: “Você não para pra pensar em como ele morreu, você imediatamente começa a pensar em como ele viveu. Então isso foi um jeito que nós encontramos para fazer as pessoas pensarem sobre a vida.” Parecido com ler um obituário de alguém famoso.

Ainda na mesma entrevista, Bá conta que o objetivo da história era fazer com que os leitores percebessem que há coisas na vida, pequenos detalhes, que já estão tão enlaçados com nosso cotidiano, que passam despercebidos. Detalhes que podem definir nossos pensamentos, nossa personalidade. Uma troca de olhares em uma padaria, um sonho, uma paisagem em algum lugar deserto na Bahia ou apenas um recado pendurado na geladeira pode mudar o rumo de nossas vidas.

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Fábio Moon e Gabriel Bá são grandes contadores de Histórias. De amor ou de amizade, Daytripper é uma experiência de vida e de morte. Como diz em um dos obituários da morte do próprio Brás, “há muitas coisas nessa vida que são difíceis de entender, e maior ainda é o desafio de colocá-las em palavras.” São imagens que valem por sentimentos, desenhadas com a mesma genialidade que a prosa do texto. Diante de sua vida, Brás é um assíduo aluno e Jorge um dos maiores professores. Em uma de suas ricas conversas, Jorge o ensina:

Jorge: Tente viver a vida um dia por vez e espere pra ver o que virá em seguida.
Brás: Mas nós temos que voltar algum momento.
Jorge: Errado novamente. Nós temos que ir para frente. O futuro está prestes a acontecer e nós temos todo tempo do mundo.

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Por Daniel Tubone
daniel.tubone17@gmail.com

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