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De geração X para milleniuns: “Isso também vai passar”
Na Estante
17 dez 2016 | Por Jornalismo Júnior

“Retrato de uma geração”, Le Monde. O escrito na capa de “Isso também vai passar” (Companhia das Letras, 2016) não poderia ter sido mais acertado. Milena Busquets escolheu como protagonista de seu romance uma mulher da geração X. A alternância de gerações é caracterizada pela subserversão e inversão de valores, desde os veteranos até nós, os odiados milleniuns. A geração X, sobre a qual se debruça a trama, é formada pelas crias dos babybommers, dá mais importância para relações interpessoais do que para o trabalho, gosta da informalidade e tem um quê de alienação política. Blanca, a protagonista, é isso e um pouco mais.

A interlocutora da narração está morta. Aos 40 anos, Blanca perdeu sua mãe para o Alzeheimer, precisa passar pelo luto e conversa com ela pelas linhas da história. O livro começa no enterro, mas não nos deixa no escuro sobre o caminho até ali. Blanca fala sobre a convivência com a mãe, contrastando com os momentos sem a presença da doença. Percebemos aos poucos como quase tudo de sua personalidade é uma contradição em relação à mãe, repetindo a lógica das gerações. A morta, uma babybommer, empurrou a filha para o mundo. Blanca é independente, divorciou-se 3 vezes. Mas, bem resolvida, mantém uma boa relação com os 3 ex-maridos. Com seus 2 filhos, os ex-maridos, amigas e agregados (quase todos por questões sexuais e amorosas), Blanca decide passar um final de semana em Cadaqués.

Começa aqui o retrato de uma geração. Blanca bebe, ama os filhos incondicionalmente, usa o sexo como meio para superar o luto e não nutre nenhum tipo de relação com a palavra “rotina”. Além de seus ex-maridos, um amante encontrava-se em Cadaqués com a família. Blanca o encontra esporadicamente, entre um vinho, um abraço nos filhos e mil pensamentos sobre a mãe. Milena passou longe do luto vendido nas livrarias, superado através da reclusão, do elevamento espiritual e de outras bobagens. Por isso o livro é tão bom.

Existiram momentos que a autora me enlaçou e, de repente, me fez ter vontade de fechar o livro e chorar. As reflexões sobre a mãe levam Blanca a atender seus comportamentos e me levaram a entender os meus. “Você culpa seus pais por tudo, isso é um absurdo. São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer.” Minha mãe segue viva e bem. Tenho tempo para distinguir o que em mim é uma contradição forçada, fruto da lógica de gerações e o que de fato faz parte de minha personalidade. Espero que você, futura(o) leitora ou leitor de Milena, tenha a mesma oportunidade.

O livro melhora a cada página e, se começamos amando Blanca e querendo ser filha dela e não de sua mãe, no final entendemos, por meio da delicadeza de Milena, que as pessoas são exatamente aquilo que elas poderiam ser. Encontrei “Isso também vai passar” enquanto tentava dar continuidade a minha empreitada de ler mais mulheres e o nome me chamou a atenção, apesar de eu já saber a história por trás da frase. Encerro o texto com a explicação do título, que por si só já é um bom motivo para ler Milena Busquets:

“Um dia, um poderoso imperador convoca os sábios do reino e pede uma frase que sirva a todas as situações possíveis. Depois de meses de deliberação, os sábios aparecem com uma proposta: “Isso também vai passar”. A dor de o pesar passam, assim como a euforia e a felicidade.”

Por Natália Belizario Silva 
nabelizarios@gmail.com

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