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Diretores de Cinema: quem são? Onde habitam? De onde vieram?
CINÉFILOS
17 dez 2018 | Por Cinéfilos

Ao apreciarmos algum filme, raramente nos lembramos de todo o processo para que ele seja feito. A história e as dificuldades dos diretores passam despercebidas. Qual a realidade, de fato, de quem faz Cinema? No Brasil, pouco incentivo é dado aos jovens diretores. No estrangeiro, a profissão é mais valorizada, apesar de semelhantemente restrita.

Ricardo Sutillo, jovem e com experiência em algumas produções independentes como câmera e diretor de fotografia, pontuou alguns aspectos de por que é penoso trabalhar com a sétima arte em nosso país. “Com certeza, em primeiro lugar, está a falta de incentivo financeiro, tanto do governo, quanto de empresas”, afirma. “Sem dinheiro não tem como realizar a produção, pois é necessário pagar os atores, a equipe, transporte, ou seja, tudo”.

Já o segundo tópico reflete um problema mais amplo e estrutural: a restrição de lugares para ensinar. “Faltam lugares de aperfeiçoamento e de conhecimento de estudo da área do Cinema aqui, são poucas Escolas de Cinema”. Ele aponta também como isso é um retrato do Ensino Básico. “No Ensino Fundamental e Médio, temos pouco contato com isso. Esse contato só vem se buscarmos no Ensino Superior, e mesmo assim existem poucos locais com muita qualidade para aprender, principalmente fora das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro”.

Formação acadêmica e a elite do cinema nacional

Muitos diretores brasileiros sequer são acadêmicos do curso. Os mais famosos, na verdade, são provenientes das camadas mais ricas e fazem longas para essas classes.

Ricardo vê essa fragilidade da graduação para cinematografia como um dos principais empecilhos do desenvolvimento de um cinema essencialmente nacional. “O que deixa toda a área do Cinema um pouco precária é o pensamento de que não precisa estudá-lo para virar um diretor, que só com a experiência é possível fazer isso. Não é bem assim, Cinema tem muita teoria e cada área tem um aprofundamento muito grande”, diz. “Estamos caminhando nessa profissão ainda, somos adolescentes”.

Já a questão das classes sociais é ainda mais grave, pois aqueles que sonham em ser diretores, e não possuem capital para isso, não conseguem se inspirar nos mais conhecidos. Os principais são pessoas mais abastadas: Hector Babenco, que fez Carandiru, já era mais rico; José Padilha, classe média; Fernando Meirelles, também; Walter Salles, do Central do Brasil, pertence a uma família milionária. Ainda, soma-se às camadas populares que não se veem nas telas, além de mero experimento sociológico de exibir a miséria que eles já conhecem.

Imagem do longa “Central do Brasil”, de Walter Salles. (Foto: Divulgação)

Apesar dos problemas, há certo otimismo no cenário atual devido aos serviços de streaming. “A Netflix também está abrindo espaço para vários países além dos Estados Unidos, como o Japão, Índia e também o Brasil, este também está crescendo bastante assim”. O nacional tem ganhado lugar e interesse. Desse modo, as pessoas têm procurado mais e o mercado vai se adaptando a isso.

Panorama internacional: de onde vieram os bons diretores?

A direção nas produções internacionais também é um cargo que em sua história não veio de ascensão social. A ressalva a ser feita é que existem escolas de qualidade para se graduar em Cinema. No exterior, ser diretor é realmente uma profissão como qualquer outra.

Uma pergunta a ser feita é: onde eles estudaram?

Mike Leigh – Graduado na Royal Academy of Dramatic Art (RADA), uma das melhores do mundo;

Jafar Panahi – Estudou Cinema na Universidade de Cinema e Televisão de Teerã;

Werner Herzog – Roubou uma câmera 35mm da Munich Film School. Recebeu seu diploma superior na Universidade de Munique. Ganhou uma bolsa para a Duquesne University em Pittsburgh, mas abandonou a faculdade em poucos dias. Herzog trabalhou em uma fábrica para financiar seu primeiro filme;

Christopher Nolan – Graduado em Literatura Inglesa na University College London;

Tim BurtonGanhou uma bolsa da Disney para estudar no Instituto das Artes da Califórnia;

Steven Spielberg – Após não conseguir uma vaga em Cinema na Universidade da Califórnia, estudou Literatura Inglesa em outro lugar. Posteriormente, não foi aceito no departamento de filmes da University of Southern California. Acabou a estudar na Universidade Estadual da Califórnia, fazendo 5 filmes lá;

Guillermo del Toro – Estudou Cinema na Universidad de Guadalajara;

Pedro Almodóvar – Ponto fora da curva. O diretor espanhol nunca estudou Cinema por não ter condições financeiras para isso.

Pedro Almodóvar ao receber o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1999. (Foto: El Confidencial)

Democratizar a sétima arte, seja na poltrona, seja atrás da câmera, talvez seja um desafio mundial. Por isso, a existência de pessoas como Adélia Sampaio, a primeira mulher negra a dirigir um longa no Brasil, é algo tão importante e inspirador, traz a esperança de que fazer cinema possa ser para todos.

Por Tainah Ramos
tainahramos@usp.br

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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