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Em “Irmandade”, o certo depende de quem julga
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27 nov 2019 | Por Karina Tarasiuk (karinatarasiuk@usp.br)

A nova série brasileira da Netflix, Irmandade, que estreou no dia 25 de outubro, retrata o sistema carcerário brasileiro e seus problemas internos e externos. Ambientada em 1994, a produção traz uma narrativa a partir da perspectiva de Cristina (Naruna Costa), advogada cujo irmão foi preso por tráfico de drogas há 20 anos, quando ela ainda era uma criança e não entendia a realidade do contrabando. 

Cristina trabalha no Ministério Público e descobre que haverá um julgamento de Edson (Seu Jorge), seu irmão que não via desde que ele fora preso. Dentro da cadeia, Edson se tornou, junto com Carniça (Pedro Wagner), líder da Irmandade, facção criminosa semelhante ao PCC (Primeiro Comando da Capital). No julgamento, Cristina conhece Darlene (Hermila Guedes), esposa de Edson, que pede sua ajuda: o marido está sendo torturado na prisão, mas a informação não é divulgada.

Cristina procura maneiras de acabar com a tortura de seu irmão, mas só consegue resolver o problema a partir da falsificação de uma assinatura que a permitiria visitar a cadeia e conferir a acusação. A série reproduz a revista feita a visitantes das prisões para conferir se não portam drogas ou armas. Cristina consegue impedir a continuidade da tortura de Edson mas, quando descobrem que a advogada utilizou métodos ilegais para acabar com a tortura feita no irmão, é presa.

É nesse momento que surge Andrade (Danilo Grangheia), um policial corrupto que procura chantageá-la: para conseguir sua liberdade, Cristina deveria ajudá-lo a conseguir informações sobre o paradeiro de Carniça, que estava fora da prisão. Para isso, ela deve se envolver com a Irmandade para ganhar sua confiança. À medida que conhece a realidade da facção e as injustiças presentes na Lei brasileira, começa a questionar seu lado, e se vê diante de um conflito de interesses. É a partir dessa dualidade que a trama se desenvolve.

Cristina tenta convencer Edson a aceitá-la na Irmandade [Imagem: Reprodução]

Tortura e outras questões pouco transparentes do sistema carcerário são mostradas no enredo. É o caso da maneira preconceituosa como detidos são tratados por guardas e a violência entre os próprios prisioneiros, que se torna evidente diante da ruptura na Irmandade, que origina uma nova facção, a Seita, liderada por Carniça. Ao ser denunciado por um “cagueta”, termo usado para traidores do movimento, o então líder da Seita procura uma maneira de destruir Edson e a Irmandade.

A corrupção policial vai além de apenas realizar chantagens, e apresenta-se na sua brutalidade ao lidar com situações delicadas. Durante perseguições a bandidos, a série aponta que a polícia não pensa duas vezes antes de usar a violência: os criminosos são, muitas vezes, mortos ou gravemente feridos, o que nem sempre é necessário – afinal, em teoria, já existem as prisões para cuidar dos transgressores, o que dispensaria o uso da violência. Ao observar cenas de injustiça como essa, questiona-se sobre quem é o real criminoso. A polícia mostra-se mais assassina do que os que estão atrás das grades.

A série aborda outras pautas relevantes, e traz discussões sobre feminismo e racismo. Cristina, no início, tem sua credibilidade como advogada reduzida por ser mulher e negra. Ela se torna advogada de um dos membros da Irmandade e, diante da surpresa de seu cliente ao vê-la, comenta: “O que esperava? Que eu fosse um homem branco?”

Cristina mostra-se como uma personagem resistente diante do conflito de interesses a que se submete [Imagem: Reprodução]

O empoderamento feminino também é retratado a partir de Darlene, que tem um papel além de “esposa do chefe”. Por estar fora da cadeia, ela é uma personagem importante pois é quem ajuda nas negociações externas da facção. Sua força também é mostrada a partir dos sacrifícios que precisa fazer para conseguir cuidar da filha que tem com Edson. Deve estar sempre atenta para não ser pega pela polícia, pois, se isso ocorrer, não terá com quem deixar a garota.

É inevitável o questionamento sobre quem é o real criminoso: o jovem negro que mora na favela  e vende drogas ou o dono do presídio que autoriza tortura em seus presidiários? A resposta torna-se cada vez mais clara com o decorrer da narrativa e, consequentemente, a eficácia do sistema carcerário é posta em cheque. Atualmente, há mais de 800 mil presos no país, dos quais 41,5% são provisórios. O racismo também influencia no ambiente: cerca de dois terços dos presos são negros.

Edson lidera um grupo de presidiários que não aguentam mais a injustiça do sistema [Imagem: Reprodução]

A época é muito bem retratada, o que confere maior credibilidade à veracidade dos fatos. Acontecimentos marcantes de 1994 são retratados partir de rádio e noticiários televisivos: a eleição de Nelson Mandela, a morte de Ayrton Senna, a entrada de FHC nas eleições e a vitória do Brasil na Copa do Mundo, tornando-se o primeiro time tetracampeão.

Outro ponto que confirma a qualidade da produção audiovisual é a forma de retratar o psicológico de Cristina. Diante de um conflito de interesses e de uma crise de identidade, ela começa a se questionar sobre o que é o certo, uma questão importante inclusive para a sua profissão. Essas angústias são demonstradas a partir de seus pesadelos que, a princípio, parecem reais. Ao mostrar medo e insegurança de uma mulher aparentemente persistente e forte, é possível desenvolver uma empatia cada vez maior pela protagonista. Suas ações não podem ser julgadas de maneira maniqueísta: deve-se analisar a profundidade de seu pensamento.

Irmandade mostra o cárcere e a “Justiça” brasileira de 25 anos atrás, mas essa realidade não foi muito alterada. Os oito episódios da primeira temporada são atraentes e, ao mesmo tempo, angustiantes, pois dói saber a verdade por trás da (in)Justiça. Recomendada para maiores de 18 anos, em razão das cenas fortes de violência, é uma série de utilidade pública. Mas, com a ameaça de corte de verbas pelo governo no audiovisual, produções como esta ficarão restritas. Além de serem responsáveis por gerar empregos e movimentar a economia, séries e filmes são essenciais para o entendimento do próprio país, e se constituem em uma maneira mais acessível de ver a realidade e refletir sobre ela.

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