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Em terra de cego, vai ter teatro sim!
Em Cena
11 set 2017 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Bruna Caetano/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

O artigo 58 do Estatuto da Pessoa com Deficiência garante que a pessoa com deficiência tem direito à cultura, esporte, turismo e lazer em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, sendo-lhe garantido o acesso a bens culturais, programas de televisão, cinema, teatro e outras atividades culturais e desportivas, além do acesso a locais que ofereçam serviços ou eventos culturais e esportivos, assim como a monumentos e outros locais de importância cultural nacional. Contudo, o atual cenário artístico brasileiro apresenta-se muito longe do que afirma o estatuto, estando ainda muito distante da pessoa com deficiência. E no caso do deficiente visual essa distância se mostra cada vez maior, tanto por falta de investimentos em acessibilidade, quanto no pensamento da própria indústria cultural, que, por motivos mercadológicos, se distancia tanto do artista cego quanto do público com esse tipo de deficiência. Partindo desse contexto, o Sala33 foi averiguar o real estado do deficiente visual dentro do ambiente teatral, e convida o leitor a ver a realidade não vista dentro das grandes produções.

O senso comum, muitas vezes, nos leva a idealizar o deficiente visual como um ser humano frágil, e que constantemente precisa de ajuda no dia a dia, além de nunca imaginarmos o cego como um ser humano produtivo e atuante em sociedade, não é mesmo?

Bem, esse com certeza não é o perfil da maioria dos deficientes visuais, e, principalmente, o de Waldir Domingues Lopes, de 68 anos. Depois de ficar cego aos 50 anos, o carioca, foi buscar na arte um lugar ao sol, e, além de ator, se tornou também músico, compositor e ceramista.

Waldir é um exemplo nato de como a arte pode atuar e transformar um indivíduo: “Quando perdi a visão, entrei no desespero. Já estava desacreditado da vida e acabei entrando no Instituto Benjamin Constant. Quando vi os outros cegos correndo e vivendo normalmente percebi que o cego tem uma vida normal”, conta.  E a partir desse ponto uma série de mudanças ocorreram na vida de Waldir, entre elas, o teatro: “E quando entrou um professor de teatro, logo me inscrevi, e trabalhei minha timidez. O teatro é uma coisa muito boa, você aprende a falar e a projetar a voz”, afirma.

E realmente a arte foi um meio de transformação na vida de Waldir, já que possibilitou que ele, mesmo já com 50 anos, ganhasse concursos de samba e de cerâmica, além de fazer teatro, tanto no Rio, sua cidade natal, quanto em Porto Alegre. Possibilidades essas que não viriam, senão, pela arte: “Na época eu tinha 50 anos e procurei diversos tipos de trabalho. E diziam que, além de ser cego, eu já tinha muita idade. Então eu parti para a arte. Eu nem sabia que tinha tanta arte dentro de mim, desenvolvi o lado teatral, o lado artístico, e acabou dando certo. Eu optei pela arte”.

Além de comentar sobre seus projetos, Waldir também falou dos preconceitos sofridos após se tornar deficiente: “No começo eu sofri muito preconceito. Minha ex-mulher tinha muito preconceito, e minha família , até aceitar a minha cegueira, foi muito difícil. Eu era o provedor da minha casa e depois que eu fiquei cego eles queriam que eu ficasse lá no quartinho comendo, bebendo e fazendo nada, e eu disse não, não quero essa vida pra mim”.

Sobre o que ainda falta na inclusão de deficientes no meio artístico, ele aponta falta de patrocínio e incentivo, além do pouco interesse em contratar atores cegos: “Acho que falta alguém com coragem para dirigir uma peça com pessoas cegas”, comenta.

Waldir dançando no baile “Vem dançar no escuro”, Rio de Janeiro. Imagem: Arquivo Pessoal

Mas o que Waldir não sabia é que, em São Paulo, algumas produtoras e companhias de teatro vêm combatendo esse cenário em grande estilo e com cada vez mais força, como é o caso da Caleidoscópio Comunicação & Cultura, que, por meio do projeto “Teatro Cego”, trouxe para o palco, além de um elenco repleto de pessoas com deficiência visual, um formato teatral completamente diferente do modelo convencional, pois os espetáculos desse projeto são feitos completamente no escuro e a plateia é guiada tanto pela voz dos personagens e trilha sonora, quanto por aromas, de acordo com o ambiente que os personagens se encontram, convidando o público a vivenciar na pele como é perceber o mundo sem nenhum estímulo visual.

Um dos fundadores do projeto é Luiz Mel: “Por volta de 2010 e 2011, meu irmão Paulo Palado foi pra Argentina a passeio e conheceu o teatro cego de lá, e a gente nunca tinha ouvido falar de teatro cego, não tínhamos a menor ideia de que isso existia. E quando ele voltou falou comigo, me explicou e eu achei muito bacana, porque é uma coisa diferente, mas a princípio eu tinha na cabeça que só era diferente porque ele acontecia no escuro, eu não imaginava onde ele poderia chegar posteriormente”.

E foi assim que, em 2012, surgiu o Teatro Cego, estreando um texto de Nelson Rodrigues chamado “O grande viúvo”. Porém, captar e capacitar o elenco para tal iniciativa foi um grande desafio: “Foi muito difícil, porque não existia praticamente um mercado de atores cegos no Brasil, até a vinda do Teatro Cego” , afirma. A solução foi buscar artistas cegos, ou seja, cantores, músicos e até artistas circenses, os quais já tinham sensibilidade artística, e a partir disso, criou-se um método para transformar essas pessoas em atores.

E as dificuldades surgiram não só no que diz respeito ao elenco, mas no que diz respeito ao patrocínio também houveram intempéries como conta Luiz: “No início foi muito difícil, porque eu levava a ideia aos empresários e eles pensavam ‘Como eu vou ligar a minha imagem a uma coisa que é no escuro?’. Tudo que é novo encontra uma certa resistência, era difícil para ele entender que a imagem do produto não precisava ser apenas visual”.

Contudo, essas adversidades não impediram que o espetáculo fosse um sucesso e que esse novo formato teatral se tornasse um dos carros chefes da produtora, que nos últimos 5 anos produziu mais dois espetáculos chamados “Acorda Amor!” e “Clarear” e levou o projeto para  diversas capitais como Brasília, Rio de Janeiro e Curitiba, além de, em parceria com o Banco de Olhos de Sorocaba, ter incentivado uma campanha em prol da doação de córneas, na qual ao fim do espetáculo, depois da experiência de viver no escuro, o público tinha a possibilidade de fazer uma carteirinha de doador de córneas logo no saguão do teatro:  “Foi uma loucura, as pessoas saíram do espetáculo e foram direto para fila fazer a carteirinha de intenção. Jamais eu ia imaginar que um espetáculo ia incentivar as pessoas a tornarem-se doadores de órgãos, então o espetáculo me surpreendeu muito, muito além das minhas expectativas”, comenta.

E uma das engrenagens participantes desse projeto inovador é Sara Bentes, que é mais um exemplo de como a arte pode ser um meio muito eficaz de inserção do deficiente visual no mercado de trabalho. Ela é atriz, cantora, compositora, escritora, além de ter certa experiência no circo e na dança, e fez parte de todos os espetáculos apresentados pelo Teatro Cego: “Na época eu achei a ideia sensacional, muito interessante. É muito bom trazer as pessoas que enxergam pro meu universo, para que eles vivam um pouco do que eu vivo, se sensibilizem e vejam o lado do outro”, conta.

Ela também relata um pouco da sua experiência com o Teatro Cego: “É divertido que quando a gente está montando o espetáculo são os atores que enxergam que se perdem, é divertido ajudá-los porque a gente é muito ajudado o tempo todo e de repente quando a situação se inverte e a gente pode ajudá-los, é muito bom”.

Além disso, ela também contou ao Sala 33 um pouco do preconceito sofrido dentro do meio artístico e as dificuldades enfrentadas tanto pela falta de interesse em contratar pessoas com deficiência visual, quanto pelo modo que a indústria cultural administra as produções artísticas: “Hoje vende-se muito não só a voz do cantor, mas a imagem do cantor, a identificação do público com esse cantor, então eu tenho muita dificuldade de encontrar um produtor que queira comprar essa briga comigo”, afirma.

Mas mesmo com todas essas dificuldades, Sara acredita muito na arte como um meio de transformação e acredita que o meio artístico foi fundamental na sua reabilitação após perder por completo a visão há sete anos. E justamente nessa época, com apenas dois meses de deficiência total, ela entrou na Oficina dos Menestréis, outra companhia teatral que abrange os deficientes visuais, e conta que tal experiência acelerou o seu processo de reabilitação: “Toda aquela arte que eu passei a viver ali, a intensidade de coisas, todo mundo compartilhando suas histórias e se ajudando.Eu era obrigada a correr pelo palco, e fazer coisas ali que nem na reabilitação eu estava fazendo ainda, mas ali eu tinha um propósito muito maior de fazer, era pela arte, então aquilo tinha muito mais sentido pra mim”

Apesar da arte ter esse papel tão engrandecedor em sua vida, Sara também tece críticas a respeito da questão da acessibilidade no Brasil e a falta de recursos como áudio descrição em peças, filmes e programas de televisão, além da péssima acessibilidade nas ruas da cidade e as dificuldades em tornar acessíveis suas próprias produções: “Falta o básico ainda. Não só para deficiência visual, mas para deficiência física, auditiva e etc. O próprio material que eu produzo como artista eu não consigo tornar totalmente acessível, e isso é muito frustrante porque acessibilidade é um direito de todos, mas é uma coisa que custa dinheiro”, critica.

Grupo do espetáculo “Acorda Amor”, São Paulo. Imagem: Arquivo Pessoal da Caleidoscópio

Waldir e Sara são só alguns dos exemplos do potencial transformador da arte na vida de uma pessoa com deficiência, já que, segundo o último censo do IBGE, aproximadamente 18% da população sofre com a deficiência visual — desde perda parcial até total da visão. Entretanto, o potencial artístico dessas pessoas não é explorado, e além do assunto não ter representatividade na mídia, o acesso do deficiente visual aos ambientes culturais ainda é muito limitado, tanto por falta de incentivo às produções culturais voltadas para esse público, quanto pela infraestrutura precária das cidades brasileiras, no que diz respeito à inclusão do deficiente visual em todos os ambientes.

Em suma, ainda falta muito para que o ambiente artístico, no Brasil, tenha contato com todas as pessoas, seja deficiente ou não, e que o  Estatuto da Pessoa com Deficiência seja cumprido. Porém, enquanto ainda não há igualdade, é importante que a sociedade apoie iniciativas como a do Caleidoscópio, e artistas como Sara e Waldir, que batalham diariamente, não só para fazer arte sem ver, mas para que sua arte seja vista por todos, como conta o próprio Waldir no trecho do samba “Síndrome de Avestruz”, de sua autoria:

“Olha lá o Pão de Açúcar

De longe todo mundo vê

(…)

Ao lado do Pão de Açúcar

No carnaval quero brincar

Benjamin é logo ali

Onde o cego aprende a sorrir

Você passa sem olhar

Da minha parte eu faço arte

Eu arraso

Mas você com seu descaso

Nunca pôde me enxergar

Você diz que vê

Mas não quer ver

(…)

Francamente acho que o cego é você” .

Por Vinícius Lucena
viniciusolucena@gmail.com

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
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