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Paixão represada: pessoas com deficiência visual no cinema

A falta de acessibilidade restringe mas não diminui o amor pela sétima arte de pessoas que não enxergam

CINÉFILOS
25 set 2021 | Por Matheus Nistal (matheus.nistal@usp.br)

Ir ao cinema, comprar o ingresso, a pipoca, se dirigir ao seu assento. Para muitos, assistir a um filme é uma atividade simples. O espectador senta na poltrona confortável e absorve o áudio e a imagem planejados pela direção ou produção do filme, proporcionados por uma distribuidora e uma exibidora. Contudo outros elementos e procedimentos são necessários para que essa experiência seja realmente acessível a todos, principalmente a quem tem algum tipo de deficiência. 

No último Censo Demográfico do país, feito há mais de 11 anos, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) identificou que aproximadamente 46 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência visual, auditiva, locomotiva ou mental. Surdos necessitam de legenda descritiva, que indica efeitos sonoros, além de identificar o personagem de cada parte do diálogo. Pessoas com mobilidade reduzida precisam de acesso a lugares bem localizados no cinema, rampa e espaço para acompanhantes. Para autistas, são necessárias sessões adaptadas com luzes acesas e som mais baixo.

Já pessoas com deficiência visual dependem de audiodescrição, ferramenta auditiva que descreve elementos da cena e da atuação em peças audiovisuais. Maioria entre as pessoas com deficiência, esse público ainda encontra muitas dificuldades para acessar os filmes pelos quais são apaixonados. 

 

“É sobre a gente, mas sem a gente.”

 

Foto de Lúcia Helena, uma mulher branca com cabelos loiros escuros. Ela veste uma blusa preta, utiliza um cordão no pescoço e óculos. Ela é uma pessoa com deficiência visual.

Lúcia Helena, pessoa com deficiência visual. [Reprodução: Arquivo Pessoal]

Nos anos 1970, um surto de meningite, acobertado pela ditadura civil-militar, se espalhou pelo Brasil. “Quem não morreu ficou com sequela, no meu caso foi a visão”, relata Lúcia Helena. Com um ano de idade ela foi levada ao hospital gritando de dor e apontando para a cabeça. A desinformação impediu que a meningite fosse diagnosticada imediatamente e fez com que os médicos achassem que Lúcia devesse ser encaminhada para uma instituição psiquiátrica. Contudo os pais, cortadores de cana, impediram a transferência e numa segunda consulta foi diagnosticada a meningite. 

Depois do tratamento, já fora de perigo de vida, Lúcia foi perdendo a visão aos poucos, passou toda a infância e a adolescência com baixa visão. Mas isso não a impediu de se apaixonar pelo cinema. Em uma excursão da escola, a prefeitura levou ela e seus colegas para o cinema pela primeira vez para assistir A Branca de Neve e os Sete Anões (1937). “Eu lembro da tela enorme”, ela conta com emoção. 

Sua relação com o cinema só se estreitou desde então. Moradora de São Bernardo do Campo, ela frequentava os Estúdios Vera Cruz, onde, ainda na infância, atuava como figurante nas produções cinematográficas feitas ali. “Participei da novela Redenção, de filmes do Mazzaropi, me lembro de Francisco Cuoco me pegar no colo.”

Mesmo com pouca visão, Lúcia Helena frequentava os cinemas, mas sempre precisava de algum acompanhante, na maioria das vezes suas primas, que sussurrasse explicações das imagens que apareciam na tela. Aos 19 anos, mesmo após quatro cirurgias, ela perdeu permanentemente toda a visão. 

Isso não fez com que parasse de frequentar o cinema. Seu filme favorito é Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980), com Christopher Reeve. “Eu acho o tema interessante, eu gosto muito de coisas que mexem com a mente da pessoa. Ele se auto-hipnotiza para voltar ao passado. E é um romance, que eu adoro.” 

Hoje ela trabalha como consultora, faz aula de dança, aula de roteiro, participa de lives no youtube e é voluntária ajudando adultos que acabaram de perder a visão. Ela ensina desde escovar os dentes a mexer no celular. Também faz parte do grupo Reclame Acessibilidade e contesta as condições dos cinemas brasileiros. 

“O problema das pessoas é que elas acham que estão fazendo uma adaptação, mas elas não consultam a gente. É sobre a gente, mas sem a gente.” Lúcia cita a falta de sinalização tátil no chão: “Um degrau para nós faz diferença.” Mas a principal crítica é a falta de sessões com audiodescrição. É um sistema relativamente barato, já que hoje existem aplicativos de celular que substituem um aparelho dedicado a isso que seria propriedade do cinema, cabendo ao exibidor disponibilizar a faixa de áudio via wi-fi.

A televisão também eventualmente oferece audiodescrição, mas Lúcia diz que deveria ser sempre. “Eu quero assistir ao Encontro com Fátima Bernardes de manhã e saber que roupa ela está usando.”

 

“Eu confesso que eu tenho assistido a muito mais filmes agora do que eu assistia antes”

 

Foto de Nathalie Beccaro, uma mulher branca com cabelos castanhos. Ela usa uma roupa preta e brincos de argola. Ela possui uma deficiência visual e aparece sorrindo com árvores desfocadas ao fundo.

Nathalie Beccaro, pessoa com deficiência visual. [Reprodução: Arquivo Pessoal]

Uma das colegas de turma de Lúcia Helena nas aulas de roteiro é Nathalie Beccaro. Ela não esquece a data que perdeu a visão: 31 de maio de 2014. Com diabetes desde os 2 anos de idade, ela trabalhava em uma empresa de tecnologia da informação quando aconteceu. Aposentada por incapacidade permanente, tem como filme favorito As Branquelas (White Chicks, 2004), procurou novas ocupações e encontrou nos filmes uma nova vida.

“Eu confesso que eu tenho assistido a muito mais filmes agora do que eu assistia antes”, a maioria através de serviços de streaming como Netflix e Amazon Prime Time. Essas plataformas oferecem bom catálogo de audiodescrição em línguas estrangeiras. ”Eu tenho o privilégio de saber falar inglês”, conta Nathalie. Ela relata que também se incomoda com a falta de acessibilidade no Brasil. “Eu fico chateada, quem não tem essa vivência não entende as dificuldades. Tem gente que quer ajudar e mais atrapalha.” Para ela, falta treinamento para funcionários de cinemas, além dos equipamentos de acessibilidade.

A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência foi aprovada em 2015, mas ainda vem sendo regulamentada. A lei diz que todas as salas de exibição comercial deverão dispor de tecnologia assistiva voltada à fruição dos recursos de legendagem, legendagem descritiva, audiodescrição e LIBRAS — Língua Brasileira de Sinais. Inicialmente, o prazo para que todas as salas de cinema do Brasil cumprissem essa determinação seria janeiro de 2020, mas houve uma prorrogação em decorrência da pandemia. Nathalie conhece a lei, mas acha que é insuficiente por não especificar a quantidade de equipamentos para cada sessão.

 

“Eu acho que a gente montou a primeira sala de roteiro de pessoas cegas do mundo”

 

Foto de Daniel Maciel, um homem branco com cabelos castanhos escuros e barba e bigode grandes. Ele usa uma camiseta estampada preta e branca.

Daniel Macial, professor e roteirista. [Reprodução: Adrieene Nogarotto]

Já para o professor de cinema e roteirista Daniel Maciel, que dá aulas de roteiro para Nathalie e Lúcia Helena, a audiodescrição é apenas mais um passo na direção de conteúdos mais acessíveis, e o caminho passa por derivações das histórias contadas no cinema em podcasts e áudio séries dramáticas. “É um processo em desenvolvimento.”

Além de baixa visão e audição, recentemente, após um deslocamento de retina, Daniel tem encarado a possibilidade de deixar de enxergar por completo. “Lidar com essa possibilidade é bem sombrio, eu entrei em uma situação bem difícil.” Amante dos filmes de David Fincher, diretor de Clube da Luta (Fight Club, 1999), Daniel conta que a sua relação com cinema vem desde a infância, quando a sua mãe lhe levava no Cine São Luiz em Poços de Caldas. 

Desde então, Daniel fez do cinema a sua vida. E enquanto se pergunta como prosseguir com sua profissão se, possivelmente, perder a visão, criou junto com Adrieene Nogarotto um projeto financiado pela Lei Aldir Blanc. Eles realizam cursos e oficinas de roteiro para pessoas com deficiência visual chamado Audiodramaturgias, onde defendem que essas pessoas tenham espaço também na cadeia produtiva do audiovisual. 

Para o professor, “não é o enquadramento que é importante no roteiro, é o que os personagens querem”. Também atenta para o pioneirismo de seu projeto. “Eu acho que a gente montou a primeira sala de roteiro de pessoas cegas do mundo.” 

Sobre a acessibilidade no cinema, Daniel diz que “o mercado exibidor precisa entender que as políticas de acessibilidade só tendem a aumentar o público do cinema, uma vez que ele está em crise”. As milhões de pessoas com algum tipo de deficiência correspondem a mais de 20% da população brasileira e tomar ações para incluí-las, tanto no cinema quanto na cadeia produtiva e social, não é caridade.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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