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Fast Fashion x Slow Fashion
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08 set 2016 | Por Jornalismo Júnior

Vivemos em um mundo cada vez mais imediatista e consumista, do “See now, buy now” (veja agora, compre agora). Aqui o filme Os Delírios de Consumo de Becky Bloom é realmente vivido, vídeos de compras no Youtube fazem sucesso e pessoas acampam em frente às lojas para a Black Friday, o maior evento de compras do ano. Ao mesmo tempo, existe uma parcela da população que se preocupa com a origem dos produtos, os impactos no ambiente e as condições de trabalho se torna maior. Ativistas do mundo inteiro se mobilizam contra o trabalho escravo e a favor de um consumo consciente, conceito que vem ganhando mais adeptos.

Duas correntes na moda ilustram bem essas situações opostas: Fast Fashion e Slow Fashion. O primeiro não é nada novo e já dita a indústria de roupas há algum tempo. Já a segunda surgiu para refutar esse mercado ansioso e sedento por novidades a todo momento.

Fast Fashion: Democratização?

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Roupas baratas e araras lotadas são os atrativos das lojas que trabalham com a moda rápida. Fonte: Kathy Willens

A indústria da moda sempre se baseou na produção de duas coleções por ano: primavera/verão e outono/inverno. No entanto, na década de 1990 teve início uma verdadeira revolução. Acompanhando a aceleração do cotidiano dos consumidores, surgiram as lojas especializadas em fast fashion, que em tradução literal significa moda rápida. Com um período de produção bem menor, cerca de 3 semanas, as peças do momento chegavam nas lojas rapidamente. O modelo se popularizou e nos anos seguintes lojas como Zara,  Forever21, Renner e Riachuelo se espalharam pelo Brasil e pelo mundo.

O modo de consumir e produzir moda se modificou. Além do ritmo, outra novidade foram os preços, que diminuíram consideravelmente. As pessoas começaram a consumir mais, a moda em massa se tornou algo real e o mercado cresceu. Como se originou nos polos do capitalismo, Estados Unidos e Europa, aos poucos as grandes lojas se espalharam para os países em desenvolvimento e subdesenvolvidos.

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Exploração de mão de obra e matéria prima são comuns na busca pelo maior lucro. Foto: Movimento The Made in America

Os preços acessíveis permitiram que pessoas das classes menos privilegiadas tivessem acesso às tendências e o fato de trabalharem com mini coleções ao longo do ano possibilitou uma maior variedade de produtos. Mas essa gama de mercadorias e a democratização não atingem, por exemplo, pessoas que fogem dos tamanhos padrões das roupas (P, M e G). Resumindo, não engloba todos. A qualidade das peças também fica comprometida com a aceleração e o uso de tecidos inferiores, favorecendo a ideia de roupa descartável, já que muitas vão para o lixo rapidamente.

Além disso, muitas lojas deixam de produzir as roupas em seus próprios países e recorrem a terceirização, em busca de preços cada vez mais baixos e uma produção mais intensa. Se instalam em lugares onde a legislação ambiental e trabalhista não é tão rígida e o custo da mão de obra e matéria prima é extremamente baixo, como Índia, China e Bangladesh. Trabalho escravo, desastres e prejuízos ao meio ambiente são as consequências das chamadas “fábricas de suor”, parte de uma cadeia de produção interessada apenas no lucro.

Slow Fashion: é possível?

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Produção humanizada, consumo consciente e moda transparente são defendidos pelo slow fashion. Fonte: Pinterest/bbvaopenmind

O slow fashion surgiu recentemente em contraposição ao fast fashion. Como o próprio nome diz, se trata da desaceleração da produção e consumo da moda. Defende um processo de produção mais humanizado e justo, que inclui respeito à mão de obra e ao meio ambiente, uso de recursos sustentáveis e matéria prima natural. Também sustentam a ideia de consumo consciente, de refletir antes de comprar alguma peça de roupa, levando em consideração qualidade, origem, duração e necessidade. E, por fim, prezam por uma moda transparente, na qual os consumidores saibam o real processo de fabricação.

A qualidade dos produtos produzidos com esse conceito geralmente é superior e são também mais duráveis. Mas o processo de fabricação é lento e gera um produto mais caro, impossibilitando que muitas pessoas tenham acesso a esse tipo de roupa por conta do preço.

No Brasil, alguns estilistas como Ronaldo Fraga e Paula Raia apostam neste tipo produção. Assim como algumas marcas menores, que acreditam em uma cadeia de produção mais justa e consciente. O Sala 33 conversou com Carolina Biaggi, uma das fundadores da marca Terra da Garoa, que aplica o slow fashion em sua confecção.

1. Em um mundo cada vez mais imediato, quais são os benefícios que traz o slow fashion?

O slow fashion incentiva uma produção de qualidade, que dá valor ao produto e contempla a conexão e interação com o meio ambiente.  Incentiva que possamos reconhecer como os impactos de nossas escolhas (de consumo, principalmente) afetam o ambiente e as pessoas, incentiva também um modo de pensar, agir e consumir com os clássicos “qualidade sobre quantidade” e “menos é mais”, além de resgatar o valor das roupas deixando de lado a imagem da moda como algo descartável e o consumo como uma fonte infinita.

2. Quais são as desvantagens de trabalhar e produzir com esse conceito?

Os métodos para se produzir ainda são mais caros que os “convencionais”, portanto o principal ponto negativo é que o produto final acaba ficando mais caro e muitas vezes o consumidor não entende o motivo, e as vezes nem tem interesse em saber mais sobre o assunto, ou porque a peça custa X.

3. Um dos pontos positivos das lojas fast fashion é o custo menor das peças de roupa, você acredita que o slow fashion pode atingir as camadas sociais menos privilegiadas?

Acreditamos que sim. As classes mais baixas consomem muitos produtos caros, geralmente de marcas bem conhecidas e consagradas, a maior dificuldade na verdade é mostrar que vale mais a pena comprar de uma marca menor e menos conhecida, mas com o conceito slow fashion, do que consumir de uma marca super famosa, mas que não respeita nem aspectos sociais muito menos ambientais. A população precisa enxergar que o preço da roupa reflete seu custo real, os preços são maiores, porque incorporam recursos sustentáveis e salários justos.

4. Atualmente as pessoas estão se preocupando mais com a origem e o processo das roupas, principalmente por causa da questão do trabalho escravo. Isso pode influenciar no jeito que, hoje, se consome moda?

Com certeza, daqui um tempo a marca que não se enquadrar em processos ecologicamente corretos, respeitar aspectos sociais e ambientais e não tiver um processo transparente de produção, perderão clientes. Muitas de nossas clientes, por exemplo, deixaram de comprar em marcas mais conhecidas por não saberem do real processo de produção.

Já se observa um movimento grande em torno do slow fashion, principalmente por conta de constantes notícias envolvendo o trabalho escravo e das críticas ao processo de produção do fast fashion. Sendo este, inclusive, muito bem retratado no documentário The True Cost, que mostra a triste realidade do consumo frenético e da roupa barata. No entanto, ainda é preciso avançar bastante. Além de muitas pessoas não terem a opção de parar de comprar em lojas fast fashion, é preciso de uma mudança no mercado e na mentalidade da sociedade. Por isso é importante que o real processo de produção seja mostrado e o assunto, discutido.

Por Beatriz Arruda
beatriz.arruda12@gmail.com

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