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26º Festival Mix Brasil: Eva + Candela
CINÉFILOS
04 dez 2018 | Por Jornalismo Júnior

Este filme faz parte do 26ª Festival Mix Brasil. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

“A ambição profissional de duas mulheres fortes e independentes as une, mas também irá, ao final, separá-las, conforme testemunhamos seu amor intenso se metamorfosear em meio a fases de paixão, sensualidade, amor, conforto e, finalmente, rotina.”

(Imagem: Reprodução)

Entre tantas histórias de amor no cinema, qual foi a última sobre o amor entre duas mulheres que você assistiu? (Carol não vale).

É difícil de encontrar. A temática LGBT vem ganhando destaque continuamente, mas certos tabus não foram totalmente quebrados. Quando a história gira em torno de relacionamentos lésbicos, o cenário piora – é raro escapar para o caminho das típicas cenas de sexo super fetichizadas (quem se decepcionou com Azul é a Cor Mais Quente sabe).

O colombiano Eva + Candela (Como Te Llamas?, 2018), da diretora Ruth Caudeli, traz a premissa de representar o relacionamento lésbico por ele mesmo. Elas são aceitas pela família e sociedade (o filme não é sobre o preconceito ou descobrimento de sua sexualidade), têm carreiras de sucesso e enfrentam desafios contemporâneos para manter a relação. Tudo isso em território latino: mais especificamente, em Bogotá.

Tudo inicia pelo começo. É uma frase óbvia, mas a maneira de descrever como se inicia qualquer relacionamento: pelo momento em que se encontram pela primeira vez. Eva é atriz estreante e, Candela, diretora. Elas se interessam uma pela outra e desenvolvem um relacionamento. Enquanto isso, suas carreiras passam pela ascensão. O problema é que esse avanço não é simultâneo. Aí começam os problemas.

Mulheres em busca da felicidade, do sucesso de suas carreiras e da conciliação entre todos esses sonhos que se embatem. E, como destacado no enredo, é esse sucesso profissional que as desafia. Estamos habituados com a velha história do amor vencendo barreiras. Do romance estrondoso acima de tudo e todos. Mas e quando a vida real bate à porta e distâncias são, de fato, um problema? Eva + Candela lida com situações conflituosas de forma verdadeira e que permitem o espectador se identificar. O amor persiste por anos. Mas os desafios também.

O enredo é simples em sua complexidade. Carrega as dramaticidades que fazem uma história ser produzida, mas ainda em torno de pessoas reais, palpáveis. As atrizes fazem bem seu papel e transmitem bem a sintonia inicial, assim como os altos e baixos das personagens.

(Imagem: Reprodução)

Mas o filme também apresenta seus próprios desafio de direção.

A condução do auge à queda do relacionamento não é harmônica. Não existem períodos neutros – é o ápice do amor ou da raiva. As cenas carregam certo extremismo: dos risos altos e momentos maravilhosos para uma briga dramática é questão de segundos. Falta a sutileza na mudança do modo com que lidam com os conflitos, principalmente em um casamento de anos.

Uma estratégia da diretora foi concentrar a narrativa apenas em Eva e Candela. Sabe-se pouquíssimo do redor das duas além do básico, o que traz superficialidade aos acontecimentos fora do microespaço de seu relacionamento. Os outros personagens – principalmente familiares – são “satélites”, realizando a função de válvulas de escape dos estresses dos relacionamentos na maioria das cenas. Só aparecem em momentos de conflito.

O passado e o presente são intercalados e separados visualmente por aquela conhecida estratégia de fotografia: o que passou, representado com cores quentes e tons mais escuros, é o ápice da vivência entre as duas. O presente, quando ocorre a noite decisiva, ganha iluminação branca, fria e figurinos de cores opacas.

Talvez a construção temporal te recorde Amnésia (Memento, 2000): as memórias e o atual são alternados até se tocarem nas últimas cenas, fechando a história e dando sentido à cena inicial. Talvez falte a sofisticação de Christopher Nolan para conduzir esse encontro de meios temporais, mas cumpre seu papel dentro do esperado.

Eva + Candela não é melhor filme que você verá. Mas a produção vence no momento em que é um filme sobre duas mulheres bem-sucedidas que convivem, amam e lutam. Quando o foco não é a estigmatização do relacionamento ou o preconceito da sociedade. Traz cenas naturais de sexo lésbico, conduzidas por uma mulher. É parte do progresso que acompanhamos aos poucos na produção cultural.

por Yasmin Oliveira
yasmin.oliveirac12@usp.br

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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