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Filmes sensoriais: 10 poesias do audiovisual
CINÉFILOS
30 mar 2019 | Por Cinéfilos

Imagem: Beatriz Crivelari/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Filmes sensoriais são como poesia. Às vezes, não é preciso entendê-los completamente, e sim, senti-los. Em sua maioria, demandam atenção e certo esforço para que sejam compreendidos. São filmes feitos de sensações, e para absorvê-los, o público deve atentar-se à história e mergulhar na atmosfera ali criada. É preciso sentir a obra, sendo necessária uma boa dose de sensibilidade por parte do espectador, para que todas as nuances e aspectos carregados possam ser percebidos.

Em geral, os filmes sensoriais são aqueles que mexem com os nossos sentidos. São aqueles que sentimos em carne viva. A construção dessas obras é feita com o objetivo de penetrar nosso ser, causando um milhão de sentimentos e sensações.

Seja através da fotografia, da atuação dos atores, ou da trilha sonora da obra, que entre sussurros e músicas também preenche o roteiro, os filmes sensoriais se utilizam de todos os recursos cinematográficos possíveis para contar uma história. Nem todos são totalmente compreendidos, mesmo quando assistidos com afinco. Mas sem dúvidas, assim como poemas, filmes sensoriais são um prato cheio para os amantes da arte apreciarem e se deliciarem.

Para os apaixonados pela sétima arte, aqui estão dez poesias do audiovisual:

Elena (2012)

O longa de 2012 tem direção e roteiro assinado por Petra Costa, mas a mineira também está nas telas, como indivíduo e personagem. Premiado como Melhor Documentário no Festival de Brasília, o filme é uma obra documental e íntima. Conta a história de Elena Andrade, irmã de Petra, uma jovem atriz que mudou-se para Nova York nos anos 1980 para estudar teatro, cinema, dança e canto.

A obra mescla imagens reais, de antigos vídeos caseiros filmados por Elena, com filmagens atuais, gravadas por Petra, que, quando já crescida, voltou a Nova York à procura de Elena, decidida a filmar a saudade. Vivendo na mesma cidade que foi palco das vivências da irmã, Petra vaga com a câmera na mão em uma Nova York onírica, à procura dos detalhes que traduzem o que a cidade foi para Elena: nuances de tons em tecidos, folhas e flores, luzes e paisagens desfocadas. Detalhes que constituem a memória distante de quem já se foi. A voz de Petra narra o filme e nos embala em sussurros dolorosamente honestos. Dessa forma, a diretora nos introduz ao universo da família que tem arte nas veias, e o espectador é imerso no universo de Elena, artista, mulher, sensível. Nos perdemos no amor dessas duas irmãs, que mesmo distantes em tempo e espaço, parecem fundir-se num único a ser a medida que Petra tenta se aproximar das memórias de Elena.

A obra fala de sonhos. Fala do cotidiano árduo, decepcionante e frustrante que encontram aqueles que querem viver da arte. De memórias. Explora todas as possíveis camadas de emoções. A experiência de ser mulher e sentir as dores dessas personagens invade o corpo. Elena nos inunda de sensibilidade. A obra fala de saudade.

[Reprodução]

Sentidos do Amor (Perfect Sense, 2011)

O longa é sobre uma misteriosa doença que se torna uma epidemia no planeta: pouco a pouco, as pessoas estão perdendo os sentidos humanos. Primeiro, a humanidade precisa lidar com a perda do olfato. Quando não mais conseguem sentir sabores, a preocupação se agrava. Os personagens buscam novas formas de explorar os sentidos restantes, assim que perdem um outro. Durante todo o longa somos instigados como espectadores, através das imagens e do som. A voz de Eva Green, que interpreta uma epidemiologista que pesquisa sobre a doença, narra o filme e nos entrelaça na angústia daqueles que não sabem o que serão capazes de sentir amanhã.

É importante ressaltar que o filme não tenta  explicar os aspectos científicos da doença. A obra se compromete apenas a desenhar sobre os aspectos emocionais, e nesse compromisso, não decepciona. O filme brinca com nossos sentidos e nossa percepção do cotidiano. Nos submerge pouco a pouco numa melancolia cruel. A reflexão é intensa. Qual seria a maior perda? Como a vida continua? Ao fim do longa, o que sentimos é um nó na garganta, um amargo na boca, e uma vontade enorme de abraçar alguém (em especial).

[Reprodução]

A Liberdade É Azul (Trois Couleurs: Bleu, 1993)

O primeiro filme da trilogia das cores do diretor polonês Krzysztof Kieślowski conta a história de Julie (Juliette Binoche), uma famosa modelo que acaba de perder o marido e a filha num acidente de carro. A protagonista decide se desfazer de sua antiga vida, mudando-se para um apartamento longe de qualquer conhecido ou lembrança, e começa a se envolver com uma obra inacabada de seu marido, um músico famoso internacionalmente. Porém, quem compunha grande parte de suas músicas era Julie, que não parecia sentir incômodo por não ter seu nome nas canções. Kieślowski utiliza com sensibilidade os tons frios para ilustrar a agonia, vazio e desespero de sua protagonista através de elementos como o espaço, a música – que tem papel importante no aspecto sensorial do longa –  e, claro, o azul, em suas mais diversas formas, tonalidades e texturas.

[Reprodução]

Dançando no Escuro (Danser i Mørket, 2000)

O filme de Lars Von Trier conta a história de Selma (Björk), uma imigrante tcheca que trabalha numa fábrica nos Estados Unidos e cria seu filho sozinha. Ao mesmo tempo, Selma carrega um drama doloroso: é portadora de uma doença hereditária na visão, e pouco a pouco, está ficando cega. Para impedir que o mesmo destino cruel chegue até seu filho, Selma trabalha incansavelmente para poder custear sua operação na vista.

É um filme que dói na alma. As injustiças e maldades da humanidade são escancaradas nos contornos sociais da saga de uma estrangeira vivendo nos Estados Unidos. Na obra, sofrimento é retratado em delicadeza. A trilha sonora, composta por Björk, tem papel essencial na construção da história. Atuando e cantando, Björk se mostra uma artista única. Ela sente e nos emociona nesse filme angustiante e cru, tecido numa sublime teia poética.

[Reprodução]

Réquiem Para Um Sonho (Requiem for a Dream, 2000)

Em Réquiem Para Um Sonho, o cineasta Darren Aronofsky explora a montagem e edição do filme para aproximar o espectador do que está acontecendo em cena. A técnica de montagem rápida e frenética, conhecida como “Hip Hop Montage”, é fator decisivo para que o público seja engolido pela história. A trama de Réquiem Para Um Sonho explora a temática do vício em diversos aspectos. Os personagens Harry Goldfarb (Jared Leto) e Marion Silver (Jennifer Connelly), um casal apaixonado viciado em heroína. A obra também inclui o enredo de Sara (Ellen Burstyn), mãe de Harry, que é viciada em assistir televisão, e após ser convidada para aparecer num de seus programas favoritos, e para poder usar seu vestido favorito, acaba viciando-se em medicamentos para emagrecer. Em parceria com o roteiro envolvente e angustiante, Aronofsky se utiliza da fotografia frenética e de efeitos sonoros certeiros nesse filme perturbador.

[Reprodução]

Vermelho Como o Céu (Rosso Come il Cielo, 2006)

O filme italiano de Cristiano Bortone conta a história real de Mirco (Luca Capriotti), um garoto que, após perder a visão num acidente, vai parar num colégio católico onde é perturbado e maltratado pelos colegas e pelo diretor autoritário. Em sua solidão, acaba descobrindo uma via sensível dentro de si. Com talento para contar histórias, aprende a lidar com a falta da visão e acaba tendo que explorar a audição. Por meio dos sons, a história é contada. Por meio do som, Mirco e o público alcançam um outro universo de significados.

[Reprodução]

A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011)

Terrence Malick é um cineasta que conduz sua obra da mesma forma que um maestro conduz uma orquestra. Em A Árvore da Vida, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes 2011, Milack compõe o filme explorando todos os recursos possíveis, utilizando-se de uma fotografia fantástica, efeitos visuais que convencem, e uma trilha sonora sensível e acertada. O longa não é fácil de ser digerido e exige atenção e sensibilidade. O roteiro angustiante repleto de detalhes, sutilezas e reflexões se desenvolve a partir de uma morte numa família texana. Juntamente com Brad Pitt, Jessica Chastain e Sean Penn, quem também tem papel primordial na trama é a natureza. É uma obra sobre a vida e sua efemeridade. A fotografia do filme é um deleite a parte. Com a luz crua, se correlaciona com a dificuldade do público em digerir todas as reflexões que o filme busca despertar. A câmera tem muito movimento, deslizando durante as cenas e dançando em movimentos certeiros, nos hipnotizando para dentro dos acontecimentos que vemos em tela. Nem ao menos uma única cena é ordinária, transformando a obra num verdadeiro poema cinematográfico.

[Reprodução]

A Dupla Vida De Veronique (La double vie de Véronique, 1991)

O filme franco-polonês do diretor Krzysztof Kieślowski fala sobre Veronika e Veronique, ambas interpretadas pela atriz franco-suiça Irène Jacob. Veronika é uma jovem polonesa que possui uma voz esplêndida e grande talento para música erudita. Veronique é uma moça francesa, da mesma idade que Veronika, e com o mesmo gosto e talento musical. Apesar de não se conhecerem e nem morarem no mesmo país, as duas jovens possuem uma ligação metafísica inexplicável, além de uma enorme semelhança física. A história é simples, mas a direção fantástica de Kieślowski surpreende. Melancólico e reflexivo, o desenrolar da trama é extremamente sensível, usando de imagens, sons, cores e diversos simbolismos delicados.

[Reprodução]

A Insustentável Leveza do Ser (The Unbearable Lightness of Being, 1988)

Tendo como cenário a cidade de Praga nos anos 1960 e 1970, a história do clássico romance filosófico de Milan Kundera envolve três personagens principais. Tomas (Daniel Day-Lewis) é um neurocirurgião bem-sucedido e desapegado, que aproveita sua juventude entre aventuras sexuais. Dentre as diversas amantes, tem predileção por Sabine (Lena Olin), uma artista plástica tão leve e desapegada quanto ele. O filme começa quando o médico conhece Tereza (Juliette Binoche), uma jovem ingênua que trabalha como garçonete e sonha em ser fotógrafa. Os dois se apaixonam e ficam juntos, mas Tereza não é tão desprendida como Tomas.

A obra é repleta de questões existenciais, e explora a leveza e o peso de sermos quem somos, principalmente se tratando da diferença entre sexo e amor. Tentando escapar do sofrimento que sente pela infidelidade do parceiro, Tereza tenta se tornar mais leve, mas não consegue fugir de seu sentir pesado. O triângulo amoroso é explorado sob o pano de fundo da Primavera de Praga, trazendo os contornos históricos da época. Com quase três horas de duração, o longa se desenvolve sem pressa. Os personagens, extremamente complexos, nos são apresentados lentamente. A fotografia delicada, a trilha sonora e a atuação esplêndida do trio principal constituem o filme, que explora em cenas sensíveis e envolventes os significados e diferenças de amor e sexo, de prazer e obrigação, do pesado e do leve.

[Reprodução]

Histórias Que Só Existem Quando Lembradas (2011)

O filme se passa em Jotuomba, uma cidade fictícia, ambientada no Vale do Paraíba. Lá vive Madalena, uma velha padeira, que passa seus dias presa à memória do marido morto. É quando chega à cidade a jovem fotógrafa Rita, que pouco a pouco modifica o cotidiano de Madalena. Com 98 minutos, é uma obra sobre memórias. Por se tratar de tal temática, o silêncio é quem mais fala no roteiro. Sensível, parece tocar a alma. A fotografia é simples, mas deslumbrante, em seus enquadramentos, cores, texturas e delicadeza.

Esse filme nacional carrega a simplicidade que somente artistas com extrema sensibilidade conseguem captar. Nos transmite a paz e a melancolia da prosa cotidiana das cidades mais miúdas e dos habitantes mais vividos, embalada pelos sons da natureza. É sobre memórias, tempo, velhice, morte. É sobre a passagem do tempo e as marcas por ele deixadas. É intimista. A ambientação e a rotina da atmosfera da obra nos envolve num contexto humilde que aconchega, como casa de vó. Como as memórias de uma casa de vó.

[Reprodução]

por Giovanna Stael 
giovannastael@usp.br

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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