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As tecnologias e o crescimento das rivalidades na Fórmula 1

Por trás de cada corrida e título, a categoria mostra alternativas e soluções para problemas inerentes a nossa sociedade

ARQUIBANCADA
30 ago 2021 | Por Murillo César (murillo.cesar@usp.br)

O automobilismo, em especial a Fórmula 1, gera um misto de emoções. Alguns o idolatram, enquanto outros nem o consideram como um esporte, propriamente dito. De uma forma ou de outra, uma coisa é certa: tecnologias e rivalidades andam, lado a lado, na modalidade. 

A temporada de 2021 da Fórmula 1 resgatou alguns elementos e sentimentos, há algum tempo esquecidos no espírito da categoria. O resultado é uma disputa mais interessante e um campeonato emocionante até a última volta. 

Cada nova decisão e mudança na categoria gera múltiplas opiniões e impactam a organização e fomentam polêmicas entre as montadoras dentro e fora do grid. Assim, é impossível deixar de apontar as resoluções da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) sobre a Fórmula 1 a partir dos anos 2010, tanto para o bem quanto para o mal.

 

Motor Híbrido e Asas  

Asa Móvel do carro de Fórmula 1

Asa móvel e o DRS, sistema essencial da Fórmula 1 moderna [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons Gil Abrantes]

“A Fórmula 1 antiga e a moderna, em termos tecnológicos, têm muitas diferenças entre si e que vieram de forma muito rápida”, como conta Gabriel Carvalho, repórter e redator do portal Grande Prêmio

A Fórmula 1 sempre encorajou as inovações tecnológicas, segundo Lucas Santochi, cofundador e editor do site e canal do YouTube Projeto Motor: “Diferente de outras categorias, que possuem um sistema mais rígido de chassis e aerofólios monomarcas, como a Indy, a Fórmula 1 sempre estimulou que as construtoras fossem atrás para desenvolver seus próprios modelos.” 

Essa essência de mudança na Fórmula 1 esteve mais presente do que nunca nos últimos anos, quando a FIA passou a substituir gradativamente os antigos motores, de 20 a 30 anos atrás. “A tecnologia atual é bem mais favorável com o meio ambiente, que substituiu os antigos V10 e V8, e acaba sendo favorável para o mundo como um todo”, comenta Gabriel.

Essa ideia de reaproveitamento de energia e combustível permeia a Fórmula 1 nesta última década. A implementação do DRS, o Sistema de Reaproveitamento de Energia, ditou o ritmo da competição nas últimas 10 temporadas. “Hoje em dia se tem uma influência muito aerodinâmica sobre os carros, muito superior àquela de 20 anos atrás”, relata o redator. 

Em 2011, a FIA estabeleceu esse sistema, que se utiliza das asas móveis e dos aerofólios — tendo por base a diferença de pressão entre o carro e o ambiente externo. O DRS  divide opiniões e é o principal instrumento por trás das ultrapassagens na Fórmula 1 moderna, muito mais recorrentes agora do que eram no passado.

Nas velocidades mais extremas, os veículos criam uma onda de turbulência e que dificulta as ultrapassagens. Valteri Bottas, piloto da Mercedes, afirmou em 2019 que “estando atrás, mesmo três ou quatro segundos, os pilotos têm a desvantagem de desgastarem seus pneus mais rapidamente, além do fato de o carro deslizar facilmente”.  

Esses problemas são semelhantes aos observados na aviação e são agravados pela downforce existente nos veículos, o que os auxilia a ficarem colados na pista. Ela possibilita curvas em maior velocidade, aumentando a aderência dos pneus ao solo. O desgaste extremo dos pneus e a dificuldade de se estabilizar o carro, relatados por Bottas, surgem dessa turbulência somado ao downforce, vital para o automobilismo. 

A asa móvel busca evitar esses problemas. Em trechos específicos da corrida, como o túnel do Grande Prêmio de Mônaco, e estando a menos de um segundo de diferença do carro à sua frente, o piloto tem a possibilidade de se utilizar do DRS. Ao acioná-lo, a asa traseira se abaixa, possibilitando que o ar corra livremente pelo aerofólio, aumentando a velocidade do veículo e facilitando as manobras. 

Entretanto, essa mudança não foi vista com bons olhos por todos. Santochi aponta uma visão, que é compartilhada por boa parte dos fãs, de um excesso de ultrapassagens: “Por meio da asa, os carros chegam a ganhar até 15 Km/h a mais em relação ao seu concorrente, tirando o aspecto de desafio, de disputa curva a curva pela liderança.” 

Carro da Mercedes em circuito da Fórmula 1

Carro da Mercedes em 2014, o primeiro da Era Híbrida na Fórmula 1 [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons Morio]

Já em 2014, seguindo uma tendência mundial de diminuir o impacto da categoria sobre o meio ambiente, a FIA estabeleceu a obrigatoriedade dos motores híbridos em seus veículos — que modificaram drasticamente o esporte. Como afirma Gabriel Carvalho: “estamos caminhando para um avanço, em termos dos carros, para deixar de emitir gás carbono, eliminando os motores a combustão e adotando os automóveis e motores elétricos.” 

Essa nova tecnologia busca, em linhas gerais, o reaproveitamento de energia, que seria dispersa nos motores a combustão convencionais. No geral, esse modelo híbrido traz consigo duas diferenças: menos barulho e menos velocidade, considerados alguns pontos negativos dessa tecnologia. 

Como o nome sugere, ela mescla a combustão de um motor convencional com uma bateria elétrica acoplada. Santochi explica que a bateria acoplada é recarregada pela energia cinética e térmica e seria desperdiçada normalmente, tanto nas frenagens quanto pelos gases e o escapamento dos veículos. Isso ocorre para desperdiçar o mínimo de combustível e potência possível. 

As crescentes alterações do regulamento deixaram os veículos do grid cada vez mais iguais. Segundo Gabriel, “os engenheiros deixaram de ter certa liberdade na formulação de suas tecnologias, tendo que, para seus veículos serem competitivos, adotar a padronização da FIA.” 

Além desse bloqueio criativo, o alto custo desses novos motores é um ponto a ser considerado. Gabriel nota uma queda no número de fornecedoras  em relação a 2009: “É uma porta que foi fechada de certa forma, já que seria necessário realizar um alto investimento no motor híbrido até ao ponto em que ele se torne competitivo.” 

Nesse aspecto, as mudanças aumentaram a diferença entre as construtoras e seus carros. O alto custo barrou possibilidades de inovações, privilegiando o projeto tecnológico mais coeso e surgimento de uma nova dinastia.

 

A Dinastia Mercedes 

Toto Wolff, chefe da Mercedes [Imagem: Reprodução/Rodrigo Aguiar Ruiz – RRMedia]

Mercedes e Fórmula 1 é sinônimo de vitória. Em uma breve passagem pela categoria nos anos 50, conquistou o bicampeonato mundial de Juan Manuel Fangio. A construtora voltou às pistas somente em 2010, mas com um projeto de equipe que mudaria por completo o ritmo do automobilismo. 

Esse retorno ao grid já havia dado indícios de sucesso quando a Brawn foi campeã mundial dos construtores, com um motor desenvolvido pela Mercedes, em 2009. Com o sucesso, a alemã Mercedes resolveu comprar a Brawn, trazer de volta o heptacampeão Michael Schumacher e trabalhar, junto com Nico Rosberg, a consolidação na categoria. 

Não houve grandes resultados nos primeiros anos, além da vitória de Rosberg no GP da China em 2012, Schumacher anunciou pela segunda vez sua saída da Fórmula 1, que abriu espaço para a vinda de Lewis Hamilton em 2013, jovem piloto e com enorme potencial. Com três vitórias nesse ano, o caminho para o sucesso estava sendo trilhado e contou com a mudança do regulamento para consolidá-lo. Além de dois excelentes pilotos, a chegada de Toto Wolff, atual chefão da Mercedes, no mesmo ano revolucionou a equipe. 

Esse sucesso pode ser definido por Lucas Santochi em dois aspectos: “Excelência em engenharia e um piloto absurdamente bom. A Mercedes foi a que melhor trabalhou sobre a tecnologia híbrida no grid, o que a colocou, no aspecto esportivo, à frente das demais.” 

Lewis Hamilton, piloto da Mercedes [Imagem: Reprodução/Flickr Renato Gizzi]

Nas primeiras temporadas com essa mudança no regulamento, a grande competição da Mercedes era a própria montadora. Rosberg e Hamilton aparentavam disputar um campeonato à parte, o que mostrava a excelência que a construtora obteve na questão tecnológica. 

Além de um motor muito bem desenvolvido, esse projeto automobilístico também produziu outras importantes tecnologias. Santochi destaca, principalmente a Direção de Duplo Eixo (DAS): “Através do volante, o piloto consegue modificar a suspensão e a convergência das rodas. Dessa forma, é possível aquecer os pneus com maior velocidade, colocando seus carros numa posição de vantagem diante dos demais.” 

Uma das maiores inovações dos últimos tempos, mas que não fere o regulamento estabelecido pela FIA. Gabriel Carvalho aponta: “O automobilismo, como um todo, sempre vai ter os grandes engenheiros e as grandes equipes analisando o regulamento, linha por linha, até encontrar as melhores alternativas para seus carros”.  

A dinastia da Mercedes passa diretamente por esse aspecto, além de uma execução perfeita de suas ideias e do fator Lewis Hamilton — heptacampeão mundial e que caminha a passos largos para se tornar o mais vitorioso da história. Entretanto, nada dura para sempre, e a temporada de 2021 mostra pela primeira vez, um risco para Toto Wolff e companhia.

 

O ressurgimento da Red Bull e a temporada de 2021  

Diversos fatores devem ser levados em consideração ao analisar a temporada de 2021 e que, em sua maioria, não envolvem decisões da Mercedes em si. O principal, segundo Lucas Santochi, foi a pandemia. A queda financeira das equipes estagnou a evolução dos carros e das construtoras, por conta da falta de patrocinadores nos Grandes Prêmios. Além disso, foi reduzido o quanto as equipes poderiam modificar seus carros para essa próxima temporada, em busca de diminuir a discrepância. 

Em relação ao regulamento, alguns aspectos prejudicaram — não de forma proposital — a Mercedes. Por conta da pandemia, os pneus da Pirelli, fornecedora da Fórmula 1, permaneceram sem desenvolvimento desde 2019, o que poderia ocasionar em acidentes nas corridas — como no GP de Baku em 2021. “As mudanças promovidas pela FIA foram focadas em pontos para reduzir a pressão aerodinâmica sobre os carros, mas que resultaram numa perda de rendimento na Mercedes, que apresenta excelência nesse aspecto”, segundo Santochi. 

A mudança foi tão sentida pela Mercedes, que algumas estatísticas inéditas começaram a surgir. Ainda no Azerbaijão, Hamilton, Bottas e a Mercedes ficaram pela primeira vez, com Toto Wolff no comando da equipe, fora das primeiras dez posições no grid e assim, sem pontuar na corrida. 

Um cenário de downgrade da Mercedes, somado à estabilização dos demais carros, resultou em uma maior proximidade entre os pilotos, que não havia sido observado em toda a era híbrida.  mesma forma, é preciso notar a evolução da Red Bull Racing (RBR) e do seu motor Honda, que não se iniciou nessa temporada. Desde a volta dos japoneses como fornecedores de equipamento para a categoria, a equipe desenvolveu um projeto de carro, que alcançou o ápice nesse ano

Semelhante à própria história da Mercedes do início da década, a Honda voltou à Fórmula 1 para desenvolver o seu próprio modelo híbrido junto à RBR, após anos de ausência na categoria.

Com a volta dos japoneses como fornecedores de equipamento para a categoria, a equipe desenvolveu um projeto de carro, que alcançou o ápice nesse ano. Além disso, a RBR ainda conta com um talento raro em suas mãos: Max Verstappen. 

Max Verstappen, piloto da Red Bull Racing [Imagem: Reprodução/MacKrys – Le Club École]

Desde o início de sua carreira no automobilismo, o holandês indicava que seria especial. “Verstappen dava todos os indícios de um gênio, mas que, muito por conta de sua juventude, cometia deslizes no início. Mas com um importante trabalho da Red Bull, o piloto está chegando cada vez mais próximo de seu potencial”, relata Gabriel Carvalho. 

Correndo como nunca na era híbrida, Verstappen é peça fundamental nessa reconstrução da RBR, que não havia se encontrado desde a saída de Sebastian Vettel. E os números comprovam: nunca, nesses 7 anos de domínio Mercedes, a Red Bull havia conseguido três vitórias seguidas numa mesma temporada. Ainda mais longe a Honda, fornecedora dos motores, não tinha cinco consecutivas desde a era Prost-Senna na McLaren. 

Com esse panorama, é notável a rivalidade que se forma entre RBR e Mercedes, dentro e fora das pistas. Do lado do holandês, sua equipe reclama do uso das asas dianteiras no carro de Lewis Hamilton, que possibilitaria um maior ganho — segundo a Red Bull, injustamente — nas curvas. Na mesma moeda, Toto Wolff e companhia criticam a asa flexível de Verstappen e Perez, que proporciona um aumento de velocidade de seus carros nas retas, ultrapassando com facilidade a Mercedes, coisa que não ocorria no passado. 

Mas no geral, esse debate acalorado entre as equipes sempre ocorre na Fórmula 1 quando título e posições entram em disputa. “Cabe à FIA investigar essas reclamações, mas que dificilmente passarão disso ou resultarão em punições para qualquer uma das partes”, indica Lucas Santochi. 

Assim, a temporada da Fórmula 1 desse ano se mostra a mais animada nessa era híbrida, por conta do clima e da emoção presentes a cada novo Grande Prêmio principalmente entre RBR e Mercedes. Além disso, ela mostra alternativas para o futuro da modalidade  e de nossa sociedade.

 

Novas tecnologias e o retorno para a sociedade  

Carro da Fórmula 1 estilizado

Carro da Fórmula 1 para 2022 [Imagem: Divulgação/Fórmula 1]

O motor híbrido foi uma revolução para a categoria nesta última década. Além das disputas e controvérsias que marcaram a Fórmula 1, é possível observar seus reflexos no cotidiano, com o surgimento de automóveis que adotam essa tecnologia em suas estruturas. Mas essa não foi a primeira vez que algo do gênero saiu das pistas, e certamente não será a última. 

Desde as fibras de carbono, testadas a exaustão nas corridas dos anos 80 e 90 e hoje em dia encontradas no varejo, a Fórmula 1 se mostra não apenas como uma disputa de alto rendimento, com vencedores e perdedores. Mas sim um meio de alcançar tão necessárias soluções em nossos tempos. 

A partir da próxima temporada, um novo carro, com nova arquitetura e aerodinâmica estará presente nas pistas de todo o mundo. Na questão aerodinâmica, observa-se o retorno do efeito solo-assoalho, banido em 1982 da Fórmula 1, e que auxilia a prender o veículo junto à pista com mais força, já que não depende apenas dos aerofólios.

Além disso, a categoria segue em busca da perfeição, além de tentar diminuir seu impacto sobre o planeta, ao mesmo tempo que busca se consolidar como um campo de testes para nossos problemas. 

“A categoria acompanha nossas próprias mudanças como sociedade. A própria forma como lidamos com o carro não é a mesma de 30 anos atrás, no qual o barulho e o ronco do motor eram valorizados. A Fórmula 1 é, de certa forma, um celeiro para tecnologias em nosso mundo”, conta Santochi. 

As energias e combustíveis utilizados nos carros atuais mostram a importância que está sendo dada às questões ambientais. Para substituir as antigas fontes fósseis, agressivas ao meio urbano, as inovações no uso de combustíveis sintéticos, com uma equação de pegada do carbono próximo a zero. Já no fator energético, nota-se os já citados sistemas de recuperação de energias, fundamentais para os carros atuais. 

Na questão híbrida, apesar de se tratar de uma tecnologia inovadora e sustentável, ela se mostrou como uma decisão precipitada por parte da FIA, como relatam Gabriel Carvalho, Lucas Santochi e diversos comentaristas ao redor do mundo. Tanto que há planos de alterar, a partir de 2025, o regulamento a respeito dos atuais motores. Mas isso não anula, de forma alguma, suas utilidades no cotidiano. 

“Esses sistemas de reaproveitamento de energia, com motores híbridos e elétricos, são soluções viáveis para substituir as atuais emissões de carbono, e diminuir o impacto no meio ambiente.”, conta Gabriel.  

Além do aspecto tecnológico, a FIA se mostra cada vez mais preocupada com a questão financeira e com os altos custos. Segundo Santochi, a principal mudança do regulamento para 2022, além de aspectos aerodinâmicos, será o financeiro: “É por vezes irreal imaginar que, por trás das corridas, do entretenimento gerado pelas disputas entre os pilotos, milhões sejam gastos em apenas dois carros por equipe.” 

O atual modelo, amplo e brando, tem uma discrepância muito grande nos gastos financeiros das construtoras. Enquanto a Mercedes chega próxima dos 500 milhões de dólares gastos anualmente, a Williams, que sofre com dificuldades econômicas, não tem capacidade de ultrapassar os 200 milhões em seus carros.

Apesar de ainda serem valores exorbitantes para a realidade cotidiana, ao estabelecer um teto de gastos, que no primeiro ano será de 145 milhões, a Fórmula 1 diminui a diferença entre as equipes e os pilotos, permitindo que as habilidades e a excelência de engenharia sejam postas à prova com maior êxito. 

Ainda assim, a previsão é que a cada nova temporada esse teto diminua e, consequentemente, o impacto financeiro exorbitante e astronômico de algumas equipes, principalmente por parte da Ferrari e da Mercedes. Uma Fórmula 1 cada vez mais moderna e consciente de seu papel na sociedade, que caminha da mesma forma para a evolução da competitividade entre as equipes. A combinação perfeita do automobilismo: rivalidade e tecnologia.

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