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Ghostwriting: a parte desconhecida da produção de um livro
Na Estante
15 jun 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Lígia Castro/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Não julgue um livro pela capa. Esse conselho tão disseminado pode trazer mais significação do que comumente se imagina. Isso ocorre porque poucos sabem da existência de obras assinadas por pessoas que não as escreveram de fato. A suspeita quanto a isso deve ser maior se o exemplar for uma não ficção. O nome do profissional pago para redigir textos em nome de outro indivíduo é ghost writer (ou escritor-fantasma, na tradução literal).

 

O mercado de ghost writers

O universo desses trabalhadores ainda é um pouco obscuro para a maioria da sociedade, afinal, se trata de um trabalho confidencial. Assim, Nanete Neves, jornalista e ghost writer, explana que o processo de contratação frequentemente é mediado pelas editoras. Elas convidam alguém para escrever um livro, já dando uma ideia do conteúdo e supondo que uma obra assinada por essa pessoa venderia bastante. No entanto, muitas vezes o suposto autor alega não ter tempo ou habilidade para a escrita. Logo, a empresa recomenda a ele um “profissional do texto”, solucionando o impasse.

Imagina-se então que deve ser estabelecida uma relação de confiança entre o contratante e o profissional contatado, e isso ocorre através de contratos muito bem elaborados os quais preveem multas em caso de quebra de sigilo. “A confiança e a ética são elementos fundamentais”, comenta Nanete.

Por conta desse sigilo não existem pesquisas sobre o mercado de trabalho envolvendo ghostwriting no Brasil. Logo, as opiniões sobre o seu desenvolvimento divergem. Nanete diz que: “por baixo das aparências, o mercado ferve, com valores cada vez mais altos sendo pagos aos bons ghosts”. Já Tânia Carvalho, também jornalista e ghost writer, só afirma que tem muitas consultas, apesar de achar que talvez o mercado tenha “dado uma parada”.

 

Mas como uma pessoa escreve um livro em nome de outra?

As entrevistadas dizem não se sentirem autoras dos textos redigidos por elas, porque creem no fato de só terem passado as informações da linguagem falada para a linguagem escrita, um fazer técnico. Afinal, só acreditam e fazem ghostwriting para textos de não ficção como livros de autoajuda corporativa, autobiografias, métodos de ensino, etc. , já que eles são escritos com base em dados passados por aquele que assinará a obra.  

Vale lembrar, porém, que existem pessoas no ramo as quais trabalham com textos de ficção. Inclusive, há alguns livros famosos do gênero que são assombrados pela suspeita de não terem sido escritos por quem os assinou. E, nesse caso, em especial, a fala das entrevistadas não se encaixa, uma vez que na ficção a forma como se narra é muito importante, assim como o processo criativo constante por parte de quem escreve.

Aliás, de acordo com Tânia, o escritor-fantasma que só trabalha com não ficção nem precisa desenvolver um estilo de escrita, pois ele faz muito uso da maneira de falar do biografado. Nesse caso, colocar muito estilo não parece adequado na opinião dela.

Dessa forma, se nota a importância de ser um bom ouvinte nesse ofício, porque “é apenas na escuta do outro e numa boa sequência de perguntas que ele vai construindo aquela obra. O melhor é o leitor reconhecer o jeito de falar daquele ‘autor’ na narrativa.”, diz Nanete. Essa característica faz com que, segundo Tânia, jornalistas se destaquem no ramo, o qual conta com profissionais das mais diferentes formações: advogados, psicólogos, administradores de imprensa, funcionários públicos, professores, etc.

 

Ghostwriting vindo às claras

Essa parte dos bastidores do mercado editorial está vindo à tona aos poucos por conta dos casos em que os escritores-fantasmas revelaram-se a fim de se defenderem de acusações de plágio como no caso do livro “Toda a História”, assinado por José Jobson de Andrade Arruda e Nelson Piletti ou até para reivindicarem os direitos autorais de uma obra como no processo judicial da obra “O Doce Veneno do Escorpião”, na qual Rachel Pacheco, mais conhecida por Bruna Surfistinha, aparece como autora. Merece ser citado também que lentamente os profissionais dessa área estão perdendo o medo de assumirem seu ofício, assim como as entrevistadas o fizeram.

                Capas de livros que tiveram seus ghost writers revelados.

Nos Estados Unidos o assunto é mais comentado. Por lá existem até anúncios oferecendo esse trabalho. “A profissão é antiga e internacional”, conta Nanete. E Tânia concorda com isso, dizendo que ghostwriting é usado há muito tempo, sobretudo em discursos de presidentes. Mas acredita que no Brasil, em termos de livros, é um pouco recente e às escuras.

Mesmo com todo o bom funcionamento desse mecanismo, algumas pessoas envolvidas na produção de certos livros optaram por explicitar a relação entre o dono da história e o redator do texto. Sendo assim, o livro pode conter o nome do redator como co-autor ou ele pode estar na capa após os dizeres “em depoimento a”, como ocorreu no livro da Adriane Galisteu “Caminho das Borboletas” (ela consta como autora, porém a capa diz “depoimento a Nirlando Beirão”).

De acordo com Nanete esta última forma citada é uma maneira de dividir os crédito sem envolver a parte financeira. Ela ainda relata que isso pode acontecer quando o “autor” tem a consciência de que poucos acreditariam na possibilidade de ele ter feito tudo sozinho, então aceita dividir igualmente a autoria da obra e os valores de venda. Apesar disso, a escritora-fantasma supõe que a vaidade dos “autores” impede que essa transparência se dê com mais frequência. Tudo fica muito a critério dos envolvidos na produção. Assim, só resta ao leitor com algum conhecimento sobre ghost writers, a desconfiança.

por Mayumi Yamasaki
mayumiyamasaki@usp.br

 

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