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Hamlet: Experimento teatral no cinema brasileiro
CINÉFILOS
10 jun 2015 | Por Jornalismo Júnior

por Bianca Kirklewski
biancakirklewski@gmail.com

Nas alturas de um edifício em São Paulo uma câmera oscila de forma abrupta seu foco entre a esquerda e a direita, como se representasse uma cabeça no movimento de negação. Os sinos de uma igreja começam a badalar, ao fundo, fortes. Três badaladas. Como os habituais três sinais que antecipam uma peça de teatro que está prestes a começar. Tem-se início o espetáculo. Essa é a cena de abertura do experimental filme Hamlet (2014), nova adaptação da peça shakespeariana, dessa vez filmada em solo tupiniquim e em preto e branco.

Aos que desconhecem o enredo da tragédia escrita por William Shakespeare, trata-se da história do príncipe Hamlet, que é conduzido à loucura ao tentar vingar a morte de seu pai, vítima de uma conspiração elaborada pelo próprio irmão com o intuito de tomar o trono. Hamlet é tomado por contradições, que excedem seu psicológico em uma linha de sentimentos que progridem do sofrimento à raiva. É dessa peça que vem a famosa indagação “Ser ou não ser? Eis a questão”.

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No longa, o diretor Cristiano Burlan foca na questão do luto mais uma vez. Explica-se: a morte é um tema habitual na vida de Burlan, que perdeu pai, mãe e irmão, sendo que os dois últimos de forma violenta. Mataram meu irmão (2013) documenta o assassinato de seu irmão, com sete tiros no subúrbio de São Paulo. O longa-metragem foi o grande vencedor da premiação É Tudo Verdade daquele ano.

Mas como explorar de forma original uma peça que já foi transposta tantas vezes para a tela do cinema? A solução encontrada pelo diretor foi a de superar a imposição de uma única realidade, fazendo do roteiro uma narrativa contínua representada por vários universos irreais, que são desconectados e independentes. No início do filme, estamos em um palco, acompanhando a discussão de atores a respeito de seus papeis. Depois, somos levados para as ruas de São Paulo, vivenciadas pelos personagens (os atores se transfiguram em seus papeis). Em certos momentos, há a ligação entre planos distintos, e os personagens conversam com marionetes, que aparentam estar desconectadas de qualquer manipulador. É uma experiência ousada que pode desagradar espectadores desavisados.

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Uma das cenas mais interessantes da obra se passa no centro da cidade. Como uma habitual trupe de teatro, os personagens se apresentam na rua, e Hamlet faz questionamentos à plateia formada por pessoas desvinculadas à produção. É possível ver um morador de rua ao fundo gritando e gesticulando. Um imprevisto ocasionado pelas gravações externas que traz certa dose de humor ao filme, pesado em grande parte do tempo, mas sem ser cansativo.

A trilha sonora é composta em sua maioria por sons ambientes, e às vezes por Rock ou marchinhas de carnaval. Henrique Zanoni (que representa Hamlet) é responsável pela única atuação realmente significante do filme e diz, durante a roda de discussão inicial, que seu personagem “Não é bossa nova, é rock’n’roll”. Sendo assim, Hamlet é representado o tempo inteiro vestindo jaqueta de couro, enquanto, por exemplo, a personagem Ofélia (vivenciada por Ana Carolina Marinho) usa um vestido branco secular, indicando a atemporalidade dos personagens. A fotografia do longa também não impressiona, e o preto e branco é um recurso mal aproveitado.

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A intensidade promovida pelo casamento entre teatro e cinema somado à força gerada pela comunicação direta entre personagens e câmera acabam levando o espectador a uma imersão sensibilizante. Hamlet é um filme marcante e extremo, e para que a experiência seja completa é necessário que a plateia assista-o de cabeça aberta e disposta a embarcar em uma viagem experimental.

Assista ao trailer do filme:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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