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Hellboy: nova reimaginação se perde nos excessos, e é excessivamente esquecível
CINÉFILOS
15 maio 2019 | Por Cinéfilos

por Anderson M. Lima
anderson.marques.lima@usp.br

Quando Hellboy (2019) foi divulgado em 2017, os fãs se perguntaram o porquê daquele anúncio, já que todos esperavam um terceiro filme que continuasse a trama desenvolvida nos dois primeiros, completando assim uma trilogia dirigida por Del Toro. Seja por falta de convicção de Del toro, seja pelos dois primeiros longas não terem rendido o que a produtora Universal Studios esperava, o terceiro filme não aconteceu, e agora temos um reboot da franquia. E o que essa reimaginação do quadrinho de Mike Mignola traz de novo? Infelizmente, questionamentos.

Imagine uma junção dos problemas da saga Resident Evil e Anjos da Noite (Underworld), mais uma pitada de Van Helsing (2004) e os leitores terão uma noção melhor dos impasses envolvendo Hellboy. A trama peca pelo excesso, seja excesso de informações em tela, por exemplo, quando as hordas bestiais invadem nosso planeta, seja por excesso de personagens, o que faz com que você não crie laços com nenhum herói/vilão. No início, o uso do gore (presença de cenas extremamente violentas, com muito sangue, vísceras, e restos mortais de humanos ou animais) pode parecer interessante, mas depois, acaba sendo desproporcional e sem sentido devido ao seu uso exagerado, além da demasia no emprego de efeitos 3D, que tira a praticidade e o realismo das situações e demonstra as falhas visuais (que para ficar registrado, não foram bem finalizadas).

Como longa para maiores de 18 anos, a parte criativa poderia se direcionar a muitos caminhos, mas escolhe os mais convencionais, numa tentativa de emular o humor sarcástico de Deadpool (2016), mas, novamente, sendo mal conduzido. Há um humor negro desde seu início, e até uma quebra da quarta parede, algo demonstrado quando o Professor Bloom (Ian Mcshane), pai adotivo de Hellboy, narra o prólogo, explicando a origem da vilã interpretada por Milla Jovovich e já mostrando os conceitos derivados da mitologia arturiana.

Se o filme tem humor negro, palavrões, qual ingrediente falta para termos o conjunto básico completo de tramas para maiores de 18 anos? Sangue e gore, e é exatamente isso que o longa entrega ao longo de suas duas horas. No início, ocorrendo de forma inesperada, o gore ajuda na imersão do filme, como no ataque de Grom (monstro meio-humano/meio-javali) a uma igreja. Entretanto, quando se aproxima de sua conclusão, há tanto gore utilizado, seja por monstros pisando em humanos, por aberrações disputando pedaços de corpos, que o efeito não causa sentimento algum no expectador, só a impressão de que aquilo foi forçado e utilizado de forma imprópria.

O roteiro é cheio de convenções e facilitações: “sou arremessado para baixo da terra e olha só o que temos aqui! A espada que eu precisava para derrotar a vilã” ou “vou arremessar esse inimigo para longe. Poxa, que infelicidade, joguei ele exatamente na direção de uma estaca afiada de madeira”. E devido ao roteiro fraco, os personagens não conseguem desenvolver suas próprias narrativas. O espectador até percebe o esforço prestado pelo ator David Harbour (o próprio Hellboy) ao tentar dar uma face própria ao anti-herói, mas uma tentativa em vão, já que o protagonista parece perdido muitas vezes, algo mais relacionado ao guião do longa, do que ao próprio ator.

A história tenta passar a sensação de uma busca pela auto aceitação, onde o Hellboy precisaria enfrentar seus próprios demônios internos para descobrir quem ele é de verdade. Nisso temos várias idas e vindas, seja pelo passado, pelo presente ou pelo, suposto, futuro. Hellboy estaria fadado a ser o Rei do Inferno, aquele que conduziria as tropas infernais pela terra, causando destruição e morte a todos os seres vivos (inclusive, quando essa premonição é mostrada, temos uma das cenas mais belas do filme, pois se aproxima muito do que vemos em seu respectivo quadrinho).

Resident Evil, é você? Para ajudar, a Rainha de Sangue (Milla Jovovich) não bota medo em ninguém e não adiciona nenhuma tensão à trama [Imagem: Metropolitan FilmExport]

Hellboy tem tantos vilões, que talvez três filmes não fossem suficientes para contar a história de todos eles, e sendo assim, o longa peca novamente pelo exagero, pois tudo acontece de forma tão rápida e rasa que você já esquece o ocorrido na cena seguinte. Para ajudar, a atuação de Milla Jovovich como vilã principal (Nimue, a Rainha de Sangue) é digna de uma indicação ao Framboesa de Ouro, e a vilã que mais passa a sensação de perigo constante acaba sendo esquecida, a temível bruxa Baba Yaga (“Twisty Troy” James), especialmente se considerarmos a cena onde ela negocia algumas condições com o Hellboy.

Para não dizer que tudo nesse filme é deficitário, a narrativa utiliza de forma bem satisfatória o som para envolver os espectadores durante suas cenas de ação, geralmente associados a sons pesados de guitarras e bateria, tanto de músicas conhecidas, tais como Motley Crue e Scorpions, como melodias originais.

A última cena do longa tenta conectar a trama a um contexto bem maior, criando uma espécie de universo expandido, o que poderia render histórias para continuação, mas ao perder toda a poeticidade que já teve em seus dois filmes anteriores, Hellboy é mais um caso de má adaptação de uma história em quadrinhos, e que dificilmente vai agradar qualquer fã do anti-herói.

O longa tem estreia prevista para o dia 23 de Maio no Brasil. Confira o trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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