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Herói de uma geração, e das que vieram depois dela
CINÉFILOS
30 jul 2019 | Por Laura Toyama (laura.toyama@usp.br)

“Como poderia se esperar que eu lidasse com a escola num dia como esse?”

Essa é uma das primeiras frases de impacto que ouvimos de Ferris Bueller em Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off, 1986). Um jovem que parece tão certo de suas ideias e que nos conquista com seu ousado plano de matar um dia de aula para desbravar a cidade grande e viver a sua liberdade. Liberdade essa, jovial e inspiradora, que marcou toda uma geração e as que vieram depois dela.

A personalidade cativante, o humor inteligente e o olhar confiante são características que explicam porque temos por esse jovem protagonista tanta admiração. Independente da idade do espectador nos identificamos nas experiências, nas vontades e no desejo de extravasar, que tomam forma nas aventuras que ele vive numa Chicago reinventada pelos anos 70 e efervescente pelas perspectivas dos anos 90.

As mudanças da música, da moda e das tecnologias inspiraram a fantasia dirigida pelo diretor John Hughes, que retrata tão bem a geração da MTV. E Ferris, por mais imerso na cultura pop norte americana que estivesse, também incorporou um espírito transgressor, de uma juventude que seguia os passos dos movimentos de contracultura que vieram antes dela.

Ferris toca guitarra no seu quarto depois de despistar os pais para matar aula [Imagem: Droits Resérvé]

A identificação que temos com ele é o principal gancho para essa aventura ao mesmo tempo nostálgica e entusiástica. Quem nunca quis escapar da rotina com os melhores amigos? A possibilidade de realizar sonhos jovens como assistir a um clássico jogo de baseball ou dirigir por aí numa Ferrari de colecionador é atraente para qualquer geração e coroou o adolescente como símbolo de transgressão, mudança e rebeldia. 

O ar cômico que o protagonista usa para lidar com as incertezas de ser um jovem às margens da vida adulta nos aproxima dele. A quebra da quarta parede no filme também nos dá a impressão de sermos mais um membro de sua trupe, formada pela namorada Sloane (Mia Sara), e o melhor amigo Cameron (Alan Ruck). Para mais que desejar sê-lo, queremos ser com ele e com as transformações que a sua presença causa.

Há quem diga que Ferris é egocêntrico, mas o que mais faria um jovem a não ser pensar sobre a própria vida? Entendemos que sua insistência sobre os amigos pode parecer algo forçado, mas no final é indiscutível a influência que esse comportamento tem no desfecho da vida de cada um, principalmente Cameron. O medo de enfrentar a família é uma questão sintetizada nesse conflituoso personagem que, ao final do longa, consegue libertar-se e nos dá a esperança de uma drástica mudança em sua forma de ver o mundo e aproveitar sua juventude. 

Cameron, Sloane e Ferris no Instituto de Arte de Chicago, admirando pinturas no dia de folga que tiraram para se aventurar pelos cantos da cidade [Imagem: Droits resérvé]

Por ser uma comédia escapista, a aventura do protagonista também conversa com críticas a cultura do trabalho e a conformidade do capitalismo. Há certa ambiguidade nessa crítica se considerarmos que o símbolo do adolescente americano médio é usado para questionar um sistema que pretende padronizá-lo e aliená-lo para a vida adulta. No entanto, Ferris cumpre com destreza essa função e nos provoca ao perguntar “é mesmo essa a vida que você quer levar?” e “o que acontecerá com a sua juventude quando o ensino médio acabar?”.

Sua família figura como oposição a esse questionamento. Seus pais, um casal da classe média norte americana estão imersos na conformidade que Ferris repudia. Numa das cenas icônicas, no entanto, vemos o pai dentro do escritório dançando sozinho ao som de músicas animadas de uma parada na rua, onde coincidentemente seu filho cantava e performava numa atitude de rebeldia. Esse contraste provoca o espectador na medida que acende a faísca da jovialidade num personagem tão monótono e imerso no sistema (trabalhando no coração da economia de Chicago).

O contexto de criação do personagem foi marcado pelo surgimento de muitas representações vibrantes da geração nascida entre 60/70. John Hughes ficou conhecido por construir histórias que captavam bem o espírito da época, a exemplo de Gatinhas e Gatões (Sixteen Candles, 1984) e Clube dos Cinco (The Breakfast Club, 1985), que formam junto com Curtindo a Vida Adoidado a tríade do diretor. Apesar do sucesso, Hughes ficou recluso e longe dos holofotes até o dia de sua morte, fato curioso que se contrasta com a filosofia que disseminava em suas obras.

Já Matthew Broderick, que interpretou o icônico protagonista, não voltou a viver personagens com o mesmo perfil de Ferris Bueller. Essa autenticidade talvez esteja no fato de que foi e ainda é difícil construir um personagem tão completo e memorável quanto esse, ou seja apenas difícil reinventar um dia da vida desse rapaz que tivemos a oportunidade de assistir. É como se ele nos levasse a visitar nossa própria juventude ー que já passou, ou que ainda está por vir.

Ferris canta o clássico “Twist and Shout” em cima de um carro elétrico, sem se preocupar em ser visto pela multidão [Imagem: Droits Resérvé]

Dentre as mais claras provas de que Curtindo a Vida Adoidado é um incontestável clássico do cinema estão as muitas referências de cenas do filme em longas hollywoodianos. A frase que mais se aproxima de descrever a filosofia de vida de Ferris “Life moves pretty fast, if you don’t stop and look around once in a while you could miss it” (A vida passa rápido demais, se você não parar e apreciar por um segundo você pode perdê-la) já foi repetida por vilões, desenhos animados, pacatos nova iorquinos e até por super heróis como na cena pós créditos de Deadpool. A interpretação da música Twist and Shout foi recriada diversas vezes e ecoa no imaginário do espectador desde a década de 1980 até hoje. A cena icônica:

Além das referências mais explícitas, o filme cria um intertexto com elementos culturais importantes da época. O exemplo mais marcante é a trilha sonora que abrange desde a música tema de Star Wars escrita por John Williams, até músicas dos Beatles. O protagonista cita personalidades cujas ideias respaldam sua filosofia de vida. Ao citar John Lennon, Ferris surfa na onda de seu espírito contra a corrente e adquire para si a transgressão e rebeldia do músico.

Por ser o porta-voz de tantas ideias e um espírito pulsante, o protagonista é o herói de um geração que se enxergava como o rompimento de costumes há tanto tempo cristalizados. Esse levante é um dos caminhos para a formação da cultura pop pós anos 1980 por significar a continuação da revolução cultural, musical e comportamental que se observou na década anterior, com Woodstock, a Guerra do Vietnã e outros acontecimentos históricos. 

Querido pelas diferentes “tribos” é uma referência do bom diálogo entre uma juventude diversa, no entanto com ideias para o futuro que se convergem. O protagonista dialoga com  a maioria progressista dos adolescentes na atualidade e o espaço da escola é palco desse levante. Ele escancara a necessidade de mudança, que culmina na torcida de todos pelo sucesso de um jovem que decide virar as costas para o comum. A eterna campanha “Save Ferris” é mais que um mal entendido sobre seu paradeiro no enredo, é uma voz conjunta que há muito esperava por um anti herói tão representativo e popular.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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