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Jorge Mautner e Banda Tono ao vivo: um tesouro da MPB
Escuta Aí
14 maio 2019 | Por Sala 33

Por Luana Benedito

lumabenedito@gmail.com 

No começo de maio, o centro de São Paulo teve  o privilégio de receber o show de Jorge Mautner em parceria com a banda Tono, no Sesc 24 de Maio. A apresentação, que divulga o mais novo álbum dos artistas, Não Há Abismo Em Que o Brasil Caiba, foi marcada pela beleza e criticidade das canções, que foram muito bem recebidas pelo público. Intercalando o repertório novo e clássico, Mautner e o grupo Tono construíram algo belíssimo com sua música.

Após a abertura das portas, encontrou-se um palco iluminado de vermelho com os instrumentos já posicionados. Enquanto o público terminava de entrar, soavam os sinais, anunciando o início do espetáculo. No terceiro sinal, os músicos da banda Tono apareceram. Junto com eles, subiu uma criança de uns cinco anos, talvez o filho do baterista, que entrou no palco de mãos dadas com o pai e, logo depois, deitou no chão, atrás da bateria. Todos tomaram posição (o menino inclusive, deitado), e os músicos começaram a tocar uma melodia conhecida. Era Ouro e Prata na mão. Jorge ainda não tinha entrado.

Até que, depois de alguns minutos de guitarra, baixo e bateria, quando o som já deixava o público ansioso, curioso e intrigado, Mautner apareceu. De braços dados com Ana Cláudia Lomelino, vocalista da banda Tono, o artista foi recebido com muitos aplausos e, lentamente, caminhou até o microfone. No palco, frente à plateia lotada, uma lenda viva da música popular brasileira.

Começou de vez o show. Misturando as canções novas com o repertório mais antigo de Mautner, os artistas fizeram uma apresentação que era, ao mesmo tempo, animada, emocionante e crítica.

Em músicas como Segredo, Bloco da Preta Gil , Veneno e Imagens Plumagens, a união das vozes de Jorge e do grupo Tono, somada às batidas rápidas das canções, deixou a apresentação incrível. As faixas animadas prenderam completamente a atenção, e impressionaram pela beleza da música e pelo talento dos artistas, que harmonizaram perfeitamente suas vozes e seus instrumentos.

Em alguns momentos, as músicas vibrantes abriram espaço para canções lentas e emocionantes. Ruth Rainha Cigana, ode à esposa de Mautner, foi um ponto marcante do show. A sensação de ouvir a voz retumbante de Jorge cantar palavras tão bonitas, tão apaixonadas, arrepia. A letra fala sobre um amor longo, de mais de 50 anos, unido pela família e pela fé.

O Passado, canção cantada apenas por Ana, da Tono, também marcou. Essa música emocionou – e até causou lágrimas – pela suavidade da voz da cantora, a calma da melodia e a letra, que, apesar de simples, toca o ouvinte pela verdade que trás. Pela grande representação da vida que ela mostra.

“O passado é o passado

Mas ele nos fortalece

O passado é um presente

Que nos dá o presente no presente

E nos dará o futuro que virá Brevemente

 

Em disparada como flecha de Oxóssi

É tudo um caminho

No meio do redemoinho

Do medo da dor de ficar sozinho

Sem você, teu amor

Sem teu carinho”O passado – Jorge Mautner

Como já é característico de Jorge Mautner, o show também teve críticas nas músicas de seu novo álbum. Marielle Franco e Bang Bang, que falam sobre os problemas da intolerância, foram fortemente aplaudidos. O público reconheceu a importância das letras das músicas e a sua relevância para o momento que o país vive, e deixou claro que concorda com as mensagens de amor e de luta contra os preconceitos que foram passadas no show.

Contudo, durante a apresentação, uma coisa incomodava. Ter banda composta integralmente por pessoas brancas cantar sobre religiões de matriz africana e racismo causa um certo estranhamento. Mesmo que a mensagem passada na apresentação seja incrível e verídica, o fato de todos os artistas serem brancos reforça a realidade da segregação racial que existe no Brasil e incita o questionamento sobre o lugar de fala dos artistas. Mas não se deve deixar de apreciar a criticidade e a emoção das letras, que seguem sendo extremamente relevantes.

Jorge Mautner e Banda Tono [Imagem: Gustavo Peres]

No final do show, o grupo cantou um clássico de Jorge, Maracatu Atômico, para a alegria do público. A canção, animada, elétrica e um tanto estranha, conhecida por tantos brasileiros, foi o clímax da apresentação, e fez com que a plateia cantasse bem alto, somando suas vozes às dos artistas. Um momento muito bonito, que fechou a noite com chave de ouro.

Depois do bis, o público inteiro aplaudiu de pé, com gritos e assovios de aprovação. A reação de quem ouve afirma: Jorge Mautner e a banda Tono têm um talento imenso e uma mensagem muito importante. A música popular brasileira ganhou um presente precioso com Não Há Abismo Em Que o Brasil Caiba. Realmente um espetáculo.

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