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Los Angeles: cidade dos anjos e dos sonhos
CINÉFILOS
24 set 2015 | Por Jornalismo Júnior

por Isabella Galante
isabellavgalante@gmail.com

Los Angeles é a capital mundial do cinema. Por mais que novos centros cinematográficos estejam se consolidando e se tornando influentes, como Bollywood, ainda nada se compara à Hollywood.

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L.A. tem diversas facetas, mas com certeza o cinema é sua excelência

A cidade gira ao redor da indústria cinematográfica; tudo começou lá porque as câmeras antigas precisavam de muita luminosidade e a Califórnia é conhecida por seu céu quase sempre azul, então era a locação perfeita. Os cineastas foram chegando e a infra-estrutura regional, crescendo.

LA

Los Angeles vista do alto.  Foto: Isabella Galante

Os primeiros cinemas, para exibir as mais novas produções, vendiam entradas a 25 centavos de dólar e ainda tinha lanche incluso. Aliás, cinema é algo que não falta na cidade. Muitos deles, por serem históricos, valem a visita pelo prédio em si e sua arquitetura. É o caso do Chinese Theatre, local onde ocorre o maior número de premières do mundo e que foi o primeiro espaço de exibição de filmes a ter ar-condicionado. Sid Grauman realizou a construção inspirado em uma viagem que fez à China; os materiais são todos importados de lá.

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Foto: Isabella Galante

Entre os outros lugares de grande prestígio estão: o El Capitan, construído por Walt Disney e que exibe somente filmes da empresa, o Egyptian, que acomodou a primeira première de Hollywood e foi concebido também por Grauman. Além do Dolby Theatre (antigo Kodak) que recepcionará a cerimônia Oscar até, pelo menos, 2071.

Dolby

Vista do palco do Dolby Theatre. Foto: Isabella Galante

Devido a concorrência, os atrativos são vários para conseguir público: o Chinese Theatre tem uma das maiores telas de cinema do mundo, o El Capitan oferece shows temáticos (de acordo com o filme a ser exibido) antes ou depois da sessão (super animados) e para os espaços menos conhecidos, vale até colocar Minions gigantes no teto.

Minions

Foto: Isabella Galante

Celebridades

Rostos conhecidos estão por toda parte em Los Angeles. Entretanto, dificilmente notados por turistas, normalmente  ocupados demais observando o lugar ou tirando fotos. Existem várias histórias de celebridades que perambulam sem serem notadas nos locais mais frequentados, mesmo disfarçados não são descobertos porque acabam se misturando aos personagens locais.

Para celebrar essas personalidades existe a Calçada da Fama, onde estão gravadas mais de 2500 estrelas, sendo que nem todas são homenagens a pessoas, tal como Godzilla, Mickey Mouse, até mesmo um cachorro que estrelou em diversos filmes. Porém é importante lembrar que essas estrelas estão lá por um motivo: essas celebridades foram aprovadas por um conselho da Chamber of Commerce e ainda tiveram que pagar U$30 mil (mais manutenção a cada ano) para terem seu nome eternizado.

Godzilla

Foto: Isabella Galante

Por falar em eternizado, mesmo depois da morte, personalidades queridas tem um espaço para serem adoradas. No cemitério Hollywood Forever, que virou ponto de alta visitação (por turistas e por locais que vão lá prestar sua homenagem ou fazer uma caminhada matinal), só podem ser enterradas pessoas que fizeram parte da história da cidade e tem até uma área para os mais famosos (Garden of Legends/Jardim das Lendas). É possível encontrar o túmulo do cachorrinho que interpretou Toto em O Mágico de Oz (The Wizard of Oz, 1939), Victor Fleming (diretor de …E o Vento Levou (Gone With the Wind, 1939)), Douglas Fairbanks (primeiro ator de filme de ação em Robin Hood (Robin Hood, 1923)), entre outros.

Toto

Foto: Isabella Galante

Dado que as celebridades são parte integrante da “Cidade dos Anjos“, é muito comum, entre os turistas, querer entrar um pouco mais no universo delas, seja indo ao museu Madame Tussauds, que exibe estátuas de cera com todas as medidas reais de cada personalidade (parece que elas vão se mover a qualquer momento, de tão reais) ou fazendo um tour específico sobre elas. Existe o passeio oferecido pelo site TMZ, que percorre lugares onde famosos viraram notícia e o que leva para conhecer o exterior de algumas moradias, realizado por diversas empresas.

BrunoMars

Turistas tirando fotos da casa do Bruno Mars durante um tour. Foto: Isabella Galante

O passeio gera a impressão de um sáfari, parece que as pessoas conhecidas são animais exóticos que merecem estudo e atenção. Há quem defenda que a fama vem com um preço, por isso os tais famosos deveriam lidar bem com a situação (de estranhos pararem todos os dias em frente ao seu portão para fotografar), outros argumentam que eles só realizam um trabalho que é mais público, e na verdade são “pessoas normais”, não merecendo invasões de privacidade ou que vasculhem suas vidas.

Seguramente, os tours incomodam os moradores. Em vista disso, muitos, com o passar dos anos anos, mudaram-se para condomínios fechados, sem acesso público. As leis seguiram a mesma lógica de proteção e ficaram mais rigorosas: não se pode estacionar em frente à propriedade de uma celebridade por mais de dez segundos. Entretanto as restrições não acabaram com os passeios, nem diminuíram a frequência de turistas (que muitas vezes só enxergam um portão e arbustos em volta, ao invés da casa). Esse mercado continua em ascensão, fazendo com que novas empresas se estabeleçam e que os preços sejam elevados conforme a demanda (que por sinal são bem salgados, o mais básico custa em média U$40).

Apesar da falta de privacidade, ser famoso é o objetivo de milhares de jovens que se deslocam para a cidade anualmente. Eles ocupam os postos de guias turísticos, vendedores em lojas e principalmente garçons e garçonetes, sempre esperando pelo momento em que serão “descobertos” e, finalmente famosos. Muitos nunca chegam a alcançar esse objetivo, porém outros tiveram seu início em Hollywood exatamente dessa maneira.

Estúdios

Os principais estúdios de cinema, os chamados Big Six, são: 20th Century Fox, Paramount Pictures, Sony Pictures Entertainment (que detém a Columbia, bem como usa o antigo terreno e prédios do MGM), NBC Universal (a qual pertence a Universal Studios), Warner Bros. Entertainment e Buena Vista Motion Pictures Group (que mantém a Walt Disney Pictures). A maioria deles está localizado no distrito de Studio City, que recebeu esse nome devido ao grande número de lotes cinematográficos na área, e em Hollywood (que é um bairro de L.A.). No entanto, existem bem mais de 100 produtoras sediadas nessa parte da Califórnia.

Studio

Foto: Isabella Galante

Cada estúdio tem sua peculiarialidade e aspecto único, contudo partilham de semelhanças como: a parceria entre eles (uma empresa aluga as instalações da outra dependendo da necessidade), ilusão das locações (tudo é feito para parecer de verdade, mas na prática não é; isso vale para tijolos, chão de madeira, até concreto, que são feitos de materiais leves, fibra de vidro por exemplo, depois pintados para parecerem antigos), figurantes (que são as mesmas pessoas em cada filme, porém ninguém nota já que não prestam atenção), a adaptação da decoração externa (ruas e casas) para se passar por qualquer cidade, a reutilização dos prédios de escritório em cena (os da Sony se parecem com um hotel, os da Paramount podem ser desde tribunais até moradias comuns), entre outras.

Trem

Foto: Isabella Galante

Os estúdios são muito importantes porque é neles que ocorre toda a pré-produção (audições e casting, elaboração do roteiro) e a pós (efeitos sonoros e especiais), além de serem usados constantemente para gravações. Aliás, é sempre preferível trabalhar nos sets, que são ambientes controlados (tanto em relação ao som, pessoal envolvido e logística), mas também são bem mais baratos (para “alugar” dois quarteirões em Nova York custa U$60 milhões, enquanto esse mesmo tempo no estúdio seria U$12 milhões), por esse motivo são construídas pequenas cidades dentro da propriedade, que tem polícia e corpo de bombeiros próprios, meio de transporte (os famosos carrinhos de golf), estúdio de música (tal como o da Sony, onde foram gravadas as trilhas do O Mágico de Oz, Tubarão (Jaws, 1975) e de dez filmes da Pixar por uma orquestra inteira) ademais de todo o resto que aparecerá na filmagem, e não é tão verdadeiro, como estações de metrô, pontos de ônibus, becos (até com pichações produzidas).

Beco

Foto: Isabella Galante

Uma outra característica é que os espaços são bastante versáteis, e já tem facilidades para serem usados nas produções futuras. Existem buracos no chão onde encaixam árvores (essas são de verdade) e postes, dependendo da necessidade; maçanetas e luzes da casa são trocadas de acordo com o tempo em que se passa a produção e os gramados (artificiais) podem ser enrolados quando não estão sendo usados.

Árvore

Foto: Isabella Galante

As cenas de exterior são gravadas nas ruas fictícias, ao passo que as de interior, dentro do estúdio. Nesse último é construído uma sala de apartamento ou vários cômodos de uma casa e um painel é colocado por fora das janelas (uma foto gigante do que seria uma vista de janela); isso acontece porque quase todas as casas nas ruas “artificiais” são somente fachada, porém algumas, raras, têm espaço suficiente para gravar no interior.

Desculpe se te decepciono, mas realmente quase nada é real nas produções cinematográficas. Os sons de um braço quebrado são feitos com galhos enrolados em uma toalha, sapatos de salto no chão e vários outros efeitos são gerados em um espaço sonoro na pós-produção, sem os atores da cena; a chuva tem adição de leite para ficar mais aparente pela câmera, a neve é batata instantânea, o mar é um estacionamento usado por funcionários que pode ser cheio de água e as ondas são espuma.

Mar

Foto: Isabella Galante

Quase nenhum carro funciona de verdade (a maioria nem é construído por inteiro, alguns sequer são feitos de metal) e Jurassic Park – Parque dos Dinossauros (Jurassic Park, 1993) não foi filmado em uma selva (mas no meio de diversas árvores na Warner, onde os atores ficavam indo e voltando), até mesmo as aves voam em frente a um ventilador quando deveriam estar sobrevoando a cidade.

Carros

Foto: Isabella Galante

As técnicas são desenvolvidas para que tudo pareça perfeito, e cada detalhe é importante: sistemas de ventilação (uma vez que pode chegar a quase 50°C no set) e iluminação não podem vazar na filmagem, nem o reflexo de câmera em espelhos e janelas (que, por esse motivo, são feitas de um material opaco). Para isso, existem vários setores responsáveis por cada aspecto, desde uma marcenaria para construir os sets, até os que fazem o design dos adesivos que serão colados nos vidros de barbearias, lojas, restaurantes.

Marcenaria

Foto: Isabella Galante

Na atualidade, ademais da tecnologia avançada, os filmes são produzidos com mais calma, recursos e cuidado. Leva em média dois anos para completá-lo, entre pré e pós-produção, enquanto nas décadas passadas seria finalizado em poucos meses (os atores tinham apenas duas semanas para decorar o script e começar a gravar).

O critério para lançamento de um filme ficou mais rigoroso também, uma vez que gasta-se mais. Por isso, existem salas de cinema dentro dos estúdios: a cada dia de filmagem o resultado é assistido para julgar se ficou bom, se precisa ser regravado ou não, e quando completo deve ser aprovado pela equipe. Muitas vezes, algumas pessoas aleatórias são convidadas a participar e dar sua opinião; se não gostaram de um ponto específico, partem para regravá-lo, se não gostaram do filme todo, ele pode nunca ser lançado.

Cultura do cinema

Existe toda uma cultura que envolve o cinema em L.A., os cartazes (presentes em todos os bairros) avisam sobre lançamentos em outdoors, pendurados em prédios. Eles colorem as ruas da cidade e são trocados quase toda semana. O pensamento dominante é: se quem mora na capital do cinema não assiste a filmes, então quem mais assistiria?

Outdoor

Foto: Isabella Galante

E as produções estão por toda parte, exibidos na televisão e (acredite!) em cemitérios (à noite, e eu não tive coragem para ir); à venda em quase todo tipo de loja, são objetos de admiração tanto do povo local, quanto turistas.

Para promover ainda mais os longas são realizadas as premières, por onde passam os atores, produtores e diretores para serem fotografados (pelos fotógrafos que se amontoam gritando os nomes deles). Depois se dirigem a uma sessão privativa da primeira exibição pública daquele filme, antes do lançamento oficial. Tudo é simbólico e ocorre por tradição ou publicidade.

É difícil se acostumar com tantas coisas acontecendo a todo momento, em um minuto você pode assistir ao trailer do Homem-Formiga (Ant-Man, 2015) em um telão na rua e no outro, um pouco mais adiante, você vê o próprio Paul Rudd dando uma entrevista!

Paul

Foto: Isabella Galante

Além de ser um centro de recursos para qualquer produção, L.A. reúne espaços de defesa dos direitos dos profissionais da indústria, através dos sindicatos dos diretores e atores, por exemplo, onde discutem quanto devem ganhar, horário de trabalho… algo que não é muito comum nos Estados Unidos.

Ainda existem lojas especializadas em cinema, tanto as que são usadas pelos produtores para adquirir materiais, figurinos e outras peças, quanto as que vendem artigos usados em alguma produção, como a It’s a Wrap, que recebe itens novos todos os dias e proporciona aos fãs e cinéfilos um pedacinho da história (e sim, eu comprei uma linda saia com imenso orgulho).

It’sAWrap

Foto: Isabella Galante

Por fim, Los Angeles é um mundo à parte, que movimenta milhões e ainda gera empregos com a indústria do cinema, através da produção dos filmes em si, mas também pelo universo embutido, como os produtos à venda, as premiações, e tudo que inclui as celebridades. A cidade está pronta para enfrentar crises financeiras, terremotos e outros desastres naturais, ainda assim ela estará de pé, porque o imaginário que a envolve é mais forte que qualquer dificuldade.

Clique nas fotos para ampliá-las.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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