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Maneiras únicas de enxergar a História: as visões de del Toro e Tarantino
CINÉFILOS
24 ago 2019 | Por Luana Franzão (luanafranzao@usp.br)

Para quem ama História, filmes que retratam os acontecimentos do mundo são uma diversão sem tamanho, e um dos períodos mais ricos cinematograficamente é a 2ª Guerra Mundial, que ocorreu entre 1939 e 1945. A maioria desses longas busca contar narrativas reais, como Sniper Americano (American Sniper, 2014), O Pianista (The Pianist, 2002) e A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993), ou pelo menos, criar uma verossímil, como no caso de O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998) e A Vida é Bela (La Vita è Bella, 1997). Entretanto, existem alguns roteiros que ousam mais. Eles tratam os fatos apenas como cenário para seus conflitos, utilizando os elementos verídicos como instrumentos para construir seu conto e criar uma fantasia completamente nova. Dentre esses filmes, duas obras se destacam: uma que atribui um final muito diferente à guerra, Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009), e outra que cria um mundo mágico em meio às piores circunstâncias, O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno, 2006).

A guerra na visão de Tarantino

Quentin Tarantino é um diretor conhecido por suas cenas sangrenta e diálogos geniais. Mais de uma vez ele utilizou fatos históricos para endossar suas narrativas, mas é em Bastardos Inglórios, que ele utiliza essa ferramenta ao máximo. O filme tem como pano de fundo histórico o auge da 2ª Guerra Mundial em uma Paris dominada pelos alemães. Todo o resto da narrativa e da construção de personagens, a partir de então, foram criados pelo diretor, que utilizou elementos desse período.

Quentin Tarantino no set de filmagens. [Imagem: Samm Levine]

Uma das técnicas mais interessantes utilizadas por Tarantino na elaboração desse universo paralelo é a construção singular de seus personagens. Um exemplo ímpar é o Coronel Hans Landa (Christopher Waltz). Inicialmente o vilão da trama, Landa aparece logo na primeira cena fuzilando friamente uma família de judeus escondida no porão de uma família francesa. Cruel e cínico, o Coronel comete atrocidades sem muita dificuldade em nome do Partido Nazista. Ele também é genial em alguns sentidos, sendo capaz de perceber os movimentos da oposição muito facilmente, enquanto outros soldados necessitam de uma investigação muito mais profunda antes de desvendar o necessário e tomar alguma atitude. O diretor personifica nele o que o imaginário popular cultiva como um soldado nazista.

Landa é muito mais do que um simples soldado do partido. Através do tempo, ele mostra um cinismo quase inacreditável, pois sempre mantém seu charme e sarcasmo inabaláveis em situações completamente adversas. Tarantino usa esse personagem inventado para ridicularizar o nazismo, porque fica visível que ele facilmente manipulava os outros membros do partido devido a sua inteligência e perversidade, colocando os soldados como pessoas completamente ignorantes e revelando toda a repugnância do regime.

As atitudes de Landa mostram que ele apenas faz tudo para estar na posição mais confortável possível e pouco se importa com quem aparece em seu caminho. Ao fazer grandes nomes do nazismo se curvarem às suas vontades como Joseph Goebbels, ministro da propaganda do governo de Hitler, o personagem mostra que apenas usava aquelas pessoas para seu crescimento: ele se infiltrou na alta cúpula do partido, ganhou a confiança dessas pessoas, e então as abadonou ao menor sinal de prejuízo. Ao perceber que a Alemanha será derrotada, faz um acordo com americanos para se safar das punições que seriam atribuídas aos ex-soldados, renegando todas as maldades feitas durante sua permanência no partido. Ao ser questionado sobre a índole da atitude que estava tomando, ele diz: “Nas páginas da História, de vez em quando o destino precisa de uma mãozinha”, evidenciando que nem tudo aquilo que é dito como a verdade histórica é necessariamente real.

Cena em que o Col. Hans Landa percebe que estão tentando enganá-lo e mantém a cortesia em tom quase de deboche. Nesse momento, coloca os três americanos em uma saia justa ao caçoar de seu italiano falso, fazendo-os repetir as palavras que erravam e até dando parabéns ao único que finge corretamente, deixando-os confusos sobre se ele os havia descoberto ou não. Este é apenas um dos momentos em que é possível enxergar a dissimulação inacreditável de Landa.

Outra personagem que se destaca em Bastardos Inglórios é Shosanna (Mélanie Laurent). Uma jovem judia francesa que teve sua família assassinada pelo Coronel Landa e conseguiu fugir. Ela acaba comprando um cinema em Paris e tenta passar despercebida pelo regime exterminador. Apesar de conseguir levar uma vida relativamente normal, as marcas da perda de sua família ainda a atormentam, e ela possui enorme desejo de vingança. Ela possui enorme repulsa por tudo o que envolve o governo alemão e sonha em conseguir fazer algo efetivo para sua queda. Sua história muda quando ela conhece Fredrick Zoller (Daniel Brühl), um atirador de elite do exército alemão que está determinado a conquistá-la. Inicialmente Shosanna resiste, porém percebe que ao se aliar a Fredrick poderia se infiltrar na alta cúpula do Partido Nazista e sua vingança estaria mais próxima do que nunca.

Shosanna em um evento do Partido Nazista [Imagem: Samm Levine]

E estão presentes em cena também, aqueles que nomeiam o longa. Os Bastardos Inglórios são um grupo de justiceiros ítalo-americanos, liderados por Lt. Aldo Raine (Brad Pitt), que desejam acabar com a guerra. Eles caçam acampamentos de nazistas e matam seus integrantes por todos os Estados Unidos e acabam sendo chamados pelo exército do país para a guerra. São enviados à França para continuar seu trabalho e acabam em uma enrrascada. Ao invés de continuarem como uma força paralela às oficiais são convocados para substituir alguns oficiais britânicos, que eram aliados dos EUA, e tentam agir conforme as regras de operação. 

As histórias de Shosanna e dos Bastardos se cruzam justamente para passar o principal ponto do filme e o real motivo do ambiente da 2ª Guerra ter sido escolhido para a trama de Tarantino. Devido à recém adquirida proximidade entre a judia e os oficiais alemães, o cinema de Shosanna é eleito para a estreia de um dos famosos filmes-propaganda de Joseph Goebbels sobre os feitos de seu pretendente Friedrich Zoller no campo de batalha. Para este dia foram chamados todos os grandes nomes reais da Alemanha, como Hermän Goering, Emil Jannings e Martin Bormann, e é claro, o próprio Führer. Neste evento obviamente fictício, Tarantino reescreve e ressignifica o final da Guerra.

Os Bastardos e Shosanna possuíam a mesma missão naquela noite: aproveitar a reunião nazista para matá-los e terminar a Guerra. A missão atribuída à equipe de Aldo Raine era portar-se como acompanhante da atriz alemã Bridget Von Hammersmark (Diane Kruger), infiltrada dos aliados em meio aos nazistas, durante a estreia e instalar bombas pelo edifício. Porém, a falta de modos dos americanos em eventos de alto luxo, que inclusive pode ser encarado como uma sátira ao próprio povo estadunidense, entrega o plano original, que acaba tendo que ser adaptado. Entretanto, nem os bastardos, nem os alemães contavam com a vingança brilhante da judia. 

Em meio à reprodução do sangrento filme alemão, a imagem muda. Shosanna aparece na tela e declara repúdio àqueles que estavam dentro da sala de cinema, que em pouco tempo é tomada por chamas. Durante o incêndio, também estavam presentes alguns dos Bastardos, que fuzilaram figuras como Adolf Hitler em meio à combustão e detonaram bombas que terminaram a destruição. Com a morte do Führer e da alta cúpula do nazismo, a 2ª Guerra Mundial está acabada.

Cena na qual Shosanna destrói o cinema, e com a ajuda dos Bastardos, assassina a maior parte do Partido Nazista.    

Esse é o final que Quentin Tarantino e muitas outras pessoas gostariam que a Guerra tivesse. Com esse desfecho e com toda a construção da trama, ele desfaz a versão da História. Nos livros que retratam esse período, os heróis são sempre os soldados aliados, da Inglaterra, da França e dos Estados Unidos. Os vilões maquiavélicos são os alemães e japoneses e os judeus e outras minorias são as vítimas completamente passivas. Ao criar personagens chave nessa história, Tarantino derruba um a um esses pressupostos.

Hans Landa é um ás da perversidade, manipulador o suficiente para pisotear os maiores vilões da História mundial e, ao mesmo tempo, mostrar que eles não passavam de pessoas sem melhores perspectivas de destino que se aliaram ao Partido de Hitler em busca de alguma ascensão, o que os torna ainda mais maléficos. Shosanna é a reação. Ela tem o sangue frio e passa muito tempo engolindo as atrocidades realizadas e ditas pelos alemães e, no final, consegue vingar a morte de sua família e de tantas outras. Tanto ela, quanto os Bastardos estão ali para mostrar que a Guerra não foi vencida somente pelos exército e pelos bravos soldados, mas também (e nesse caso, principalmente) por aqueles que se rebelaram contra o que estava acontecendo no mundo.

É interessante observar também aspectos não narrativos que conferem uma aura inventiva aos fatos históricos. Em filmes que buscam retratar fielmente acontecimentos, ou pelo menos se assemelhar a eles, a câmera costuma se comportar como uma mera observadora, parada e ampla. No retrato inventado, porém, ela é dinâmica e ativa, trazendo o espectador para os eventos, quebrando uma distância que geralmente procura-se manter quando se copia a realidade. A trilha sonora também colabora muito nesse sentido, pois colocam-se músicas lançadas muito tempo depois que pertencem a estilos musicais atuais, e que transmitem a mensagem claramente: apesar disto parecer real, não é. Um exemplo deste dispositivo utilizado pela produção é a cena onde Shosanna se prepara para a grande estreia ao som de Cat People, de David Bowie, lançada apenas em 1983. 

Shosanna se prepara para sua vingança ao som do rock da década de 80.

Na visão de Tarantino, a História se fez pelas mãos daqueles que não conseguiam aceitar os fatos que se desenrolavam em sua frente. Ele usou sua imaginação para entremear as linhas dos livros e mostrar aquilo em que acredita. O título atribuído ao longa não poderia ser mais certeiro: a sina do mundo foi concretizada por bastardos, aqueles que não pertenciam a nenhuma grande organização e a quem não foi dado poder, e que permaneceram inglórios, pois nunca lhes foi dado qualquer reconhecimento e tiveram sua imagem sujeita à narrativa que gostariam que fosse contada.

A Guerra na visão de del Toro

Diferentemente de Tarantino, Guillermo del Toro em seu longa O Labirinto do Fauno , não opta por alterar a História. O filme se passa durante o mesmo período que Bastardos Inglórios, porém escolhe um local diferente. Ele retrata a Espanha em 1944, traumatizada por uma longa Guerra Civil que levou o general fascista Francisco Franco ao poder. Porém, a resistência ao governo não havia perdido toda a força e continuava a lutar em guerrilhas, principalmente na região das montanhas onde era mais fácil se esconder. Ao invés de transformar a realidade naquilo que ele gostaria que tivesse ocorrido, del Toro brinca com as diferentes percepções da realidade através dos diferentes personagens.

A primeira visão que se destaca é a do Franquismo. O regime ditatorial é representado pelo personagem Capitão Vidal (Sergi López), integrante de alta patente do exército espanhol e líder de um acampamento nas montanhas destinado ao combate da guerrilha da oposição. Ele é um homem impiedoso e de caráter questionável, a quem pouco interessa a prosperidade coletiva se suas vontades estiverem satisfeitas. Conhecido pela violência,agressividade e a completa falta de flexibilidade, Vidal é a incorporação absoluta do poder inclemente de um governo fascista. 

Cena de uma reação impiedosa do Capitão Vidal

A nova esposa de Vidal, Carmen (Ariadna Gil), representa mais uma perspectiva: do povo que aceitou o novo governo por medo de represálias. Ela casa com o Capitão e se muda para o acampamento do mesmo com sua filha, Ophelia (Ivana Baquero), fruto de um relacionamento anterior e está em uma gestação muito complicada, esperando um filho do Capitão Vidal. Acata todas as imposições do marido e insiste constantemente para que a filha faça o mesmo, mas seu pedido nem sempre é atendido, fato que a aflige muito. É perceptível seu temor diante do esposo e em alguns momentos até chega a dizer que aquela situação não era o que ela queria para a vida das duas, porém não é tão fácil se desvencilhar desse círculo. 

Dentro da casa trabalham alguns funcionários: além dos oficiais do exército, lá estão cozinheiras, um médico e uma governanta. Esses dois últimos, juntamente com um grupo de guerrilheiros escondidos nos arredores daquele quartel, representam a oposição. Mercedes (Maribel Verdú) é uma governanta que atende a todas as necessidades mais próximas de Vidal. Porém, longe dos olhos do Capitão, leva alimento e informações privilegiadas aos soldados rebeldes e também possui uma relação forte com o grupo. Além dela, há também Ferreiro (Alex Ángulo), um médico que sob supervisão cuida da esposa do capitão e de seu bebê, e longe dela fornece cuidados médicos e medicamentos aos guerrilheiros. Ambos realizam suas atividades na surdina, porém, não exitam em defender suas posições quando descobertos e não se rendem nas mãos de Vidal. Com estes personagens, del Toro coloca sutilmente em sua narrativa que não é preciso necessariamente se curvar ao que é imposto, mesmo que violentamente.

E finalmente, a protagonista do longa, a pequena Ophelia. Com grande resistência, ela é obrigada juntamente da mãe a viver com o Capitão Vidal, seu novo padrasto. A menina temia pelo futuro ao ver o sofrimento constante da mãe e perceber o ambiente hostil em que estavam sendo forçadas a viver. Ela encontrava refúgio em dois momentos: nos minutos em que podia estar com a governanta Mercedes e quando lia seus inúmeros livros de contos de fadas. Eis a perspectiva mais trabalhada pelo diretor, a de uma criança vivendo em uma atmosfera completamente adversa. 

Dentro desse universo extremamente avesso, Ophelia encontra esperanças em um outro mundo. Ela é atraída por uma pequena fada para um labirinto dentro da propriedade e  lá encontra um fauno que a guia pelo mundo que acreditava existir apenas em seus livros. Porém, para alcançá-lo, ela teria de cumprir três desafios árduos para enfim tornar-se a princesa do Mundo Subterrâneo e abandonar a vida que levava. Ela aceita prontamente e passa a viver uma vida dupla: na frente de sua nova família tenta (muitas vezes sem sucesso) comportar-se da maneira desejada, e longe dos olhos observadores, encontra seu mundo fantástico.

O fauno guiando Ophelia em sua busca por uma nova vida [Imagem: divulgação]

O grande paradoxo deste universo, criado inteiramente pelo diretor, é que ele não é belo e amistoso como se imagina de uma história infantil. Ele é quase macabro e, muitas vezes, frio. As tarefas que Ophelia deve cumprir são penosas e perigosas, e a coloca em situações horríveis. A garota aparece quase sempre com pavor enquanto vai atrás de seus objetivos.Muitas vezes é questionável se aquilo deveria ser realmente necessário e se não seria melhor abandonar o caminho. O próprio fauno também aterroriza. Ele é severo e manipulador, e torna-se difícil confiar em um ser que lhe oferece algo tão abstrato por um preço tão alto. Esse é um dos questionamentos levantados por Guillermo del Toro. Apesar de todo o sofrimento que ela passa indo atrás de uma nova realidade, qualquer coisa é melhor do que aquilo que vive no seu cotidiano. Ela prefere um mundo cheio de criaturas monstruosas do que a guerra. O conflito não é somente aquilo que vemos nas páginas dos livros. É a intransigência de Vidal, a angústia da mãe, é a vida difícil que levará seu irmão e também o futuro medonho que parece reservado à menina no convívio com o exército e o totalitarismo.

Ophelia na presença de mais um dos monstros do Mundo Subterrâneo [Imagem: divulgação]

Com todos esses personagens del Toro cria um microcosmos da guerra espanhola, colocando todos os elementos principais em apenas um pequeno local. Além disso, faz a sua especialidade, que é criar uma fantasia adversa e simultaneamente bela, trazendo criaturas mágicas que, ao mesmo tempo, são fantasiosas e extremamente reais, como um reflexo da monstruosidade exterior. Dessa forma, ele transmite o que ele imagina ter sido viver aquele período, de uma perspectiva única.

O diretor, além de criar narrativamente o universo que imaginou, ajudou a elaborar seus monstros. Além de participar do desenho de todos, a produção utilizou em grande parte efeitos práticos, fato que atribuiu um realismo palpável a todas as criaturas e mesclou os dois mundos que ele queria retratar.

Imagens da confecção do monstro mais famoso do filme [Imagem: New Line Cinema]

Cinema e História são dois universos complementares. Através das telas é possível compreender melhor os episódios que se passaram no mundo e manter a memória viva sobre estes eventos. O audiovisual serve também, e talvez principalmente, para mostrar novas perspectivas dos acontecimentos e, através delas, trazer reflexões que não seriam levantadas de outra maneira. Seja mudando completamente os fatos ou trazendo elementos imaginários a eles, é sempre necessário refletir sobre os eventos que transformaram a realidade como ela é hoje.

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