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MPB: Últimos 60 anos da música (verdadeiramente) popular brasileira – Parte 2
Escuta Aí
15 set 2017 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Julia Mancilha/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Este texto é a continuação da primeira parte de MPB: Os últimos 60 anos da música (verdadeiramente) popular brasileira. Caso não tenha feito, clique aqui para ler mais.

2007: Efervescência, fase 2

Assim como na década anterior, a efervescência musical permaneceu. No entanto, alguns estilos predominaram mais nas paradas. Se tivermos que definir um só ritmo para os anos 2000, sem dúvida, é o axé. Ivete Sangalo, desde sua separação da Banda Eva, teve um sucesso astronômico: em 2006, ela bomba com Quando a chuva passar, uma das clássicas de seu repertório, e, no ano seguinte, alcança o topo nas paradas com Deixo, faixa de seu álbum ao vivo no Maracanã. Ainda em 2007, a cantora emplacou o hit Berimbau metalizado, presente no mesmo álbum, que foi um grande sucesso de vendas. A carreira de Claudia Leitte teve início no mesmo período, ao lado do grupo Babado Novo, marcando o axé. Sua carreira solo tem início em 2008, com o lançamento de um novo álbum e do hit Exttravasa, que fez o Brasil se jogar na dança em muitos carnavais.

Outro fruto dos anos 2000: a banda que “isso e muito mais você só vai encontrar no Pará”. Claro! “É a Calypso, que chegou para ficar”. E ficou… foram muitos sucessos na época. A banda de brega pop animava com suas letras inesquecíveis e seu ritmo dançante. Seus maiores sucessos foram Cavalo Manco e A lua me traiu, apesar de toda sua discografia ter sido recorde de vendas. Um ritmo que também inovou as paradas da época foi o reggae. A banda Natiruts esteve entre as mais tocadas com seu sucesso Natiruts Reggae Power. Suas letras good vibes eram bem ao estilo reggae, emanando positividade com a suavidade da voz. O Chimaruts também deixou sua marca nas paradas da década, com um de seus maiores sucessos: Do lado de cá (2005).

Natiruts e Chimarruts, destaques das paradas dos anos 2000 com o seu reggae

Enquanto isso, o legítimo ritmo brasileiro, o funk, saía do Rio para dominar o Brasil. Sua presença nessa época foi suave, mas não menos impactante. A funkeira Perlla fez bastante sucesso, por exemplo, com Tremendo vacilão (2005), assim como o grupo Bonde do Tigrão. Mas como falar do funk sem mencionar um de seus maiores clássicos? 2007 foi o ano do hit Dança do Créu, de Mc Créu. Definitivamente, admitimos que as composições eram extremamente machistas, assim como suas performances. Ainda assim, esse chiclete grudou na cabeça dos ouvintes e na história da música brasileira, quase como que criando um molde para as futuras gerações de funkeiros. Outro sucesso da década foi o hit atemporal de Mc Leozinho: Ela só pensa em beijar (Se ela dança eu danço). Esse funk, com uma letra mais “adequada”, mantinha o gênero do funk com sua batida envolvente, mas sem letras degradantes, ou seja, seu sucesso fez jus à criação.

Por falar em funk, tem alguém fazendo 10 aninhos em 2007. Sim, eu disse ado a ado, cada um no seu quadrado

O sertanejo, emergente desde o início dos anos 90, começou a consolidar sua presença. Em 2007, Pra não morrer de amor, de Bruno e Marrone, alcançou o top 3 das músicas brasileiras. No mesmo ano, Victor e Leo lançaram Fada, enquanto César Menotti e Fabiano lançaram Leilão. Ambas as duplas tiveram nesse ano o ponto de partida para suas carreiras de sucesso. Enquanto uma era uma declaração de amor, a outra cantava o sofrimento amoroso. A sonoridade se manteve sem grandes alterações, sendo expressa através do costumeiro violão e as sanfonas. Desde então, houve um grande crescimento do gênero no Brasil. Já ao final dos anos 2000, a nova vertente “sertanejo universitário”, com os jovens artistas, passou a praticamente dominar as paradas – até mesmo mundiais.

A dupla de irmãos César Menotti e Fabiano, que conquistou o país com seu carisma e talento no sertanejo

Aliás, você se lembra como era o pop? Nomes como Rouge, Felipe Dylon, Kelly Key, Luka, Wanessa Camargo, Latino, Marjorie Estiano e Sandy & Junior fizeram parte dessa lista. É difícil resumir em poucas palavras esses 10 anos de muito pop, mas vale a tentativa. Logo no início dos anos 2000, Sandy e Júnior eram muito populares entre os jovens. Os filhos de Xororó garantiram muitos prêmios por grandes hits como A lenda (2000). Outro ponto alto da década foi o grupo de meninas Rouge, formado a partir de um reality show. O grupo marcou uma geração de jovens, sendo consideradas as Spice Girls brasileiras, com seu pop contagiante e o inesquecível sucesso de 2002: Ragatanga.

Já Kelly Key, Luka, Latino, Felipe Dylon, Wanessa e Marjorie, que também colocaram seus nomes nos charts, eram cada um à sua maneira, não seguindo um padrão. Alguns carregavam influências mais latinas e eletrônicas, no rock, ou até mesmo em reggae. Kelly, também um ícone adolescente, embalou muitas festinhas com suas músicas mais “empoderadas”, não se subordinando ao crush, como visto em Baba e Cachorrinho, ambas de 2001. O cantor Latino, por sua vez, falava de temas polêmicos como festas e traição. Seu maior sucesso foi Festa no Apê (2004). Luka, que fez muito sucesso na época, hoje talvez escape da memória das pessoas. Porém, é ela a dona do grande sucesso pop eletrônico Tô nem aí (2003). Não podemos deixar de mencionar também Musa do Verão (2003) e Você sempre será (2005), de Felipe Dylon e Marjorie Estiano, respectivamente.

O icônico pop dos anos 2000 embalou a adolescência de muitos brasileiros, com suas diversas variações

O pagode não ficou de fora nessa década. Um exemplo é o sucesso Burguesinha, de Seu Jorge, que estreou em 2007 e foi direto para as mais tocadas. Nesse sucesso, ao som dos aconchegantes instrumentos do samba, Seu Jorge cantava sobre um estereótipo da mulher rica e seus hábitos de uma vida confortável. No rock, ainda vemos muito da abordagem social. Uma das mais tocadas de 2007 é Tropa de Elite, da banda Tihuana. A música, que foi trilha do filme nacional de maior bilheteria da história, fala sobre o grupo da polícia – de mesmo nome – responsável por grandes operações contra o tráfico de drogas. Ainda no rock, vemos o surgimento de uma das maiores vozes brasileiras, Pitty, a cantora baiana que bombou com vários hits, como Na sua estante (2005). No final da década, o rock passou a ter uma influência mais emo, levando uma onda de jovens a aderir ao novo estilo. NX Zero, por exemplo, é um dos nomes que já em 2007, estava entre os top hits com Razões e Emoções. Outras bandas que partiram nesse estilo são: Fresno, Cine e Restart (as duas últimas apresentavam um estilo muito mais próximo ao pop, com suas roupas coloridas e músicas mais voltadas ao público adolescente).

A banda NX Zero em sua fase (visual) emo,

A tão venerada MPB, como sempre, não saiu de moda e foi muito bem representada. Ao longo de toda a década, os músicos se valeram da sonoridade de antes, dessa vez, cantando sobre o amor. Ana Carolina é um exemplo, que em 2007 estava presente nas paradas com seu sucesso Rosas. Mas, desde antes, o gênero marcava os charts. Em 2002, Vanessa da Matta estreou Ai, ai, ai, um sucesso da mpb que já mesclava um pouco com o pop e posteriormente, em 2009, teve outro hit bombado, sua música Boa sorte. Ainda no começo dos anos 2000, um grupo extraordinário se reuniu para esquentar os corações brasileiros. Os Tribalistas, grupo formado por Carlinhos Brown, Marisa Monte e Arnaldo Antunes, juntava a vivência musical de cada um, formando uma  linda harmonia como resultado final. Em seu álbum, Tribalistas, nos presentearam com Velha Infância e Já sei namorar, duas lindas canções que falavam sobre temas como o amor inocente e a liberdade, e acabaram marcando não apenas as paradas, mas também as memórias emotivas de quem viveu nessa época. Impossível não se emocionar.

2017: Who run the world (e o Brasil)? Girls

Desde o final dos anos 2000, o sertanejo já estava consolidado como o maior gênero brasileiro. Assim, ele tem permanecido invicto nas paradas musicais. Nesses 7 anos, o sertanejo universitário foi se moldando: muitas duplas surgiram, outras desapareceram e vários foram os temas abordados, como exemplo a “sofrência” amorosa, a exaltação às festas e também o famoso “arrocha” – estilo de dança proveniente do sertanejo. Dentre os maiores nomes do gênero estão Luan Santana, Gusttavo Lima e duplas como Fernando e Sorocaba, Jorge e Mateus, entre muitas outras. Prova dessa consolidação do sertanejo no gosto popular é Luan Santana com o #2 das paradas: Acordando o prédio.

Vivendo seu auge desde o fim dos anos 2000, o sertanejo consagra diversos artistas e duplas nas paradas musicais

 

Mas o sertanejo tem mudado desde 2016. Agora é a hora e a vez das meninas. O gênero que era predominantemente tomado por homens, passou a ter mulheres como maiores sucessos. Marília Mendonça, Naiara Azevedo e as duplas Simone e Simaria, e Maiara e Maraisa são os nomes mais famosos. Juntas, elas somam os maiores hits do ano e representam o “feminejo”: sertanejo na sua versão girl power. Através de suas músicas, mostram que podem, sim, cantar sertanejo, e que não, elas não precisam de homens (ou relacionamentos) em suas vidas para serem felizes ou estarem realizadas. Assim, esses ícones acabam defendendo, mesmo que não intencionalmente, o ideal feminista, de que as mulheres devem ser tratadas de forma igualitária. É justamente esse ideal que está presente em Loka, o hit #1 de 2017 (até o momento). A música de Simone e Simaria em parceria com Anitta é sucesso absoluto na mídia em geral.

O funk, por sua vez, cresceu notavelmente desde 2010. O gênero passou a difundir um novo estilo, mais luxuoso – e bota luxo nisso! É o funk ostentação. Falando sobre alguns hábitos mais caros, carros e motos luxuosos, roupas de marca, além de falar dos bailes funk, os artistas do gênero se tornaram ainda mais famosos. Além disso, “ostentar” os bens passou a ser rotina para os funkeiros, tornando isso um estilo de vida realmente. Porém, o carro chefe do funk são suas músicas com batida envolvente que estimulam várias coreografias e até mesmo falam sobre o rebolado. Nomes importantes do funk da década são: Mc Kevinho, Mc Gui, Ludmilla, Nego do Borel, Tati Zaqui, Mc Livinho, Mc Guimê, Valesca, entre muitos outros.

A visibilidade do funk acabou fazendo com que ele fosse aceito por muitos, mas ainda é um gênero que causa polêmicas.

A realidade dos dias de hoje é que vivemos num período em que os gêneros tem se misturado, enquanto os artistas não se restringem a apenas um ritmo. Anitta é um dos exemplos disso. A cantora, que bombou em 2013 com Show das Poderosas, começou a sua carreira atendendo por Mc Anitta, devido a sua ligação ao funk. No entanto, ela sutilmente migrou para o pop. Porém, a cantora representa o cenário atual repleto de parcerias: nos últimos anos, Anitta cantou pop, funk e fez parcerias no sertanejo, reggaeton, rap e até mesmo música eletrônica. A cantora chegou a ser comparada com Shakira, após ser reconhecida internacionalmente participando de Switch, música da rapper australiana Iggy Azalea, e por estrelar, juntamente à Pabllo Vittar, a música Sua cara, de um dos grupos de eletrônica mais famosos do mundo, o Major Lazer. Mas desde sua estreia no Brasil, a cantora é presença constante nas paradas anuais, com diversos hits, dos românticos aos mais dançantes, como seu maior sucesso, Bang (2015), que já atingiu 300 milhões de visualizações no Youtube, e o atual hit, Paradinha, um pop inteiramente em espanhol, com fortes influências de reggaeton e funk.

Seguindo a mesma rota de Anitta, Ludmilla é outra cantora que saiu do funk e migrou para o pop. Sua música Cheguei é um dos hits pops mais tocados nesse ano. Porém, como já mencionado, os sucessos tem ultrapassado barreiras de gênero, não sendo apenas pop, mas sim, mesclando um pouco de tudo. Como é o caso de Você partiu meu coração, de Nego do Borel, que permanece entre as 10 mais tocadas do ano. A música é realmente a definição dessa grande mescla que tem ocorrido. O funkeiro, em parceria com Anitta e Wesley Safadão – grande nome do forró e sertanejo – acabou com um hit que bebe na água de diversos gêneros, une três vozes bem sucedidas e demonstra essa efervescência musical notada desde os anos 90. A receita de sucesso pode ser notada com massiva presença da música, tanto nos charts, quanto na mídia em geral.

Pode comemorar, você resistiu até o finalzinho, rs

É impossível falar da música dos anos 2010 sem falar do recente aumento da representatividade. Entre os renomados artistas da música atual, encontram-se muitos engajados em causas sociais, que aproveitam sua notoriedade para promover a luta por mais igualdade. Um exemplo é Karol Conká, talvez a primeira rapper a ganhar notoriedade no país. Não são raras suas expressões pró-feminismo e contra o racismo, outra marca que permeia a história do Brasil e de sua produção musical. Suas músicas têm feito muito sucesso, e a cantora é presença confirmada em diversas ações publicitárias, levando consigo as causas que defende. Outro exemplo é a cantora Pabllo Vittar. Atualmente, Pabllo é a drag queen com mais visualizações de todo o Youtube (superando a já veterana RuPaul, dos EUA) e seu hit Todo dia foi uma das músicas mais executadas no último carnaval. Defendendo o direito de cada um ser o que quiser e levantando a bandeira LGBT, a cantora segue fazendo sucesso, tanto no Brasil quanto no mundo. O mais recente sucesso é a música Sua cara, uma parceria de Major Lazer, com Pabllo e Anitta.

Ao final dessa longa viagem pelas músicas que foram populares no Brasil, já é possível compreender melhor os rumos tomados pela música brasileira ao longo dos anos. Podemos ver um reflexo de nós, brasileiros: como nos posicionamos nessa linha do tempo e como nossas gerações pensam. Porém, a maior intenção desse texto é provocar uma sensação nostálgica, nos fazendo refletir sobre o quanto a música brasileira merece ser valorizada e perceber o quanto ela tem a nos oferecer. Basta apenas darmos uma chance!

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Por Gabriel Bastos
gabriel.bastos@usp.br

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