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Nômades: a vida das pessoas que levam a casa na mochila

Uma visão não convencional do que é ter sucesso e qualidade de vida.

JPRESS
20 nov 2020 | Por Victoria Borges (victoriarborges@usp.br)

Você já se imaginou largando a vida que tem hoje para viver na estrada? Para alguns, essa possibilidade pode parecer surreal, mas cada vez mais pessoas vêm aderindo ao estilo de vida nômade — ou seja, viajando pelo mundo sem moradia fixa. Alguns arranjam trabalhos pela estrada, outros aproveitam as possibilidades dos meios digitais para garantir seu sustento, mas todos compartilham da mesma paixão por explorar novos lugares e conhecer culturas diversas.

Nesta reportagem da J. Press, foram reunidos quatro relatos de nômades que mostram como eles decidiram seguir esse estilo de vida e o que já enfrentaram durante essa jornada.

 

“O medo sempre vai existir, você só tem que administrar para que a coragem seja maior”

Família de mochileiros

Patrick Marquart, Karen Bussacarini e seus filhos Gustavo e Rafaela [Imagem: Reprodução/Instagram]

Karen Bussacarini, Patrick Marquart e seus filhos, Gustavo (6) e Rafaela (4), são nômades desde 2019. Além da vontade de conhecer novos lugares, a família, que viaja com apenas quatro malas de 7kg, caiu na estrada com um objetivo: ajudar e influenciar pessoas ao redor do mundo.

Karen é formada em arquitetura, mas parou de trabalhar na área quando seu primeiro filho, Gustavo, nasceu. Nessa época, deu início a um blog sobre maternidade e, assim, começou a crescer no mundo digital. Seu marido, Patrick, trabalhou com vendas durante dez anos, antes de virarem nômades. O casal conta que sempre sonhou em morar fora do país, mas que, até então, não conhecia o nomadismo digital. Descobriram esse estilo de vida quando foram atingidos por uma propaganda no Instagram. 

A partir dali, leram livros e fizeram cursos que ensinavam sobre o assunto. Cinco meses depois, a família já estava saindo do Brasil. “O processo foi muito rápido. A gente até brinca que não indica. Mas se demorássemos muito para tomar uma decisão, acabaríamos não fazendo”, conta Patrick.

Começaram a jornada pela Austrália, onde ficaram por dois meses. Em seguida, foram para a Nova Zelândia, Tailândia — onde passaram um período de cinco meses em lockdown, devido à pandemia da Covid-19 — e Escócia, até chegarem à Inglaterra, em setembro de 2020, quando deram entrevista à J. Press. Dali, partiriam para a Itália. Karen conta que a família decide os destinos a curto prazo. “Inclusive, desde que começou a pandemia, não está dando para fazer planos. A gente estava na Austrália sem saber se chegaríamos na Tailândia. Só soubemos que conseguiríamos entrar no país no aeroporto, porque as notícias mudavam de hora em hora”, diz.

Para se manter financeiramente, o casal juntou seus conhecimentos em vendas e mídias digitais e montou uma mentoria on-line. Também usam o close friends do Instagram, recurso da rede social que permite selecionar uma parte dos seguidores para criar uma lista de transmissão de compartilhamento de fotos e vídeos, no qual postam conteúdo exclusivo para aqueles que pagam uma mensalidade. “A gente vive a nossa venda. Não temos alguém para trabalhar por nós, como geralmente acontece — as pessoas crescem, colocam outras para trabalhar no lugar delas e aí viram nômades”, acrescenta Patrick. 

Karen conta que, em paralelo, a família decidiu levar o estilo de vida mais barato possível: buscam por hospedagens gratuitas em troca de trabalho, por exemplo. “Hoje, estamos na Inglaterra fazendo house sitting para um casal de idosos que precisou viajar e não tinha com quem deixar o cachorro”, conta a nômade.

Sobre o processo de desapego até efetivamente tornarem-se nômades, Karen conta que não doeu ver o apartamento se esvaziando. “Fui passando por um processo de minimalismo na minha vida três anos antes de começar a pensar no nomadismo. Eu me propus que minha vida coubesse numa mala, que eu pudesse levar para qualquer lugar caso surgisse a oportunidade”, diz. Patrick acrescenta que percebeu que quanto mais coisas carregavam, menos espaço tinham para as experiências.

Família de mochileiros

Karen, Patrick e a bagagem da família [Imagem: Reprodução/Instagram]

Viajar com crianças também é uma questão para muitos. Há aqueles que têm medo, ou que acham impossível passar tanto tempo na estrada com os pequenos. Mas Karen e Patrick mostram que a experiência pode, sim, ser maravilhosa para o desenvolvimento infantil. “Nossos filhos demoraram uns quatro meses até entenderem que a gente não ia voltar para casa. Hoje eles entendem e agora têm uma noção de espaço, tempo, clima e cultura que muitos adultos não têm”, contam. 

Patrick ressalta que outro fator importante é que agora as crianças veem os pais presentes e trabalhando juntos. “Eles me veem cozinhando, lavando louça, roupa, varrendo. Coisas que, geralmente, o pai acaba não exercendo dentro de casa”, conta. Relatam ainda que as crianças aprenderam sobre a importância do trabalho dos pais e de onde o dinheiro vem. “Na Escócia, a gente trabalhou numa fazenda de ovelhas. Num dia, eles me viam plantando abacate, no outro dia fomos colher batata juntos. Eles viram de onde nascem os vegetais e o trabalho que dá para colher”, conta Karen.

Em relação à educação dos filhos, Karen e Patrick optaram pelo homeschooling — ou seja, a educação domiciliar, em que os próprios pais ou familiares são responsáveis por ensinar as crianças. A prática ainda não é regulamentada no Brasil, mas os nômades não pretendem voltar ao país quando decidirem se fixar num local novamente. “Na maioria dos países do mundo o homeschooling é legalizado, então eles poderiam entrar numa escola normalmente, sem nenhuma defasagem”, explica Karen.

O casal acredita que a união da família, a liberdade e a qualidade de vida são as maiores vantagens do nomadismo. “Não ficamos doentes há um ano. Não temos uma gripe, uma dor de barriga, nada. Nunca precisamos de hospital. O estilo de vida que escolhemos está fazendo bem para a nossa saúde”, contam.

A família compartilha as viagens e histórias no Instagram (@afamilianomade).

 

“Conhecer novos lugares, culturas e pessoas é uma coisa que me satisfaz”

Mochileira

Luisa em Nusa Penida, na Indonésia [Imagem: Reprodução/Instagram]

Luisa Helena Pires viaja sozinha desde 2011. Em 2014, começou a mochilar e há um ano decidiu viver como nômade. Em sua jornada, já conheceu 25 países e vários lugares do Brasil. Atualmente, usa sua experiência na estrada para trabalhar como travel designer, montando roteiros de viagem personalizados.

Antes de decidir cair na estrada, Luisa conta que levava um estilo de vida muito diferente. A nômade trabalhou por 12 anos em uma multinacional, onde era gerente de projetos de TI. “Eu tinha muitas roupas, um carro. Acabei desapegando de muitas coisas, principalmente materiais, para poder viver da forma que vivo hoje”, conta. Atualmente, viaja apenas com uma mochila e o notebook, seu material de trabalho.

A ideia do nomadismo surgiu com um desejo de fazer uma volta ao mundo. “Era uma coisa que estava na minha cabeça há muitos anos e decidi que iria acontecer. Comecei a me planejar e tomei a decisão que precisava trabalhar de forma a fazer isso dar certo”. Luisa conta que o processo demorou aproximadamente um ano. Avisou a empresa de sua decisão e começou a mudar seu estilo de vida: parou de comprar coisas, vendeu as que já tinha e quitou dívidas. “Foi um período, principalmente, de planejamento financeiro”.

Luisa embarcou na vida nômade em outubro de 2019. Passou pela Europa, mas ficou a maior parte do tempo na Ásia. Além dos trabalhos digitais como travel designer, a nômade também presta serviços na estrada. “Dá para cuidar de cachorro, trabalhar em hostel como voluntária, trocando trabalho por hospedagem”. Mas conta que uma das partes mais importantes da vida nômade é saber que pode viver com muito menos dinheiro do que estava acostumada. “Hoje, mesmo viajando, os meus custos de vida são muito menores do que quando eu trabalhava numa empresa e morava com os meus pais. Eu consigo viver com menos e mais livre”, explica.

A nômade estava na Índia quando a pandemia da Covid-19 começou a preocupar o planeta. “Foi bem complicado. Lá começou a ficar um pouco perigoso, então eu decidi ir para a Tailândia, que é um país um pouco mais seguro e que eu já conhecia”, disse a nômade. Acabou voltando ao Brasil no vôo de repatriação, onde está até hoje. “Fiquei um pouco com a minha família, mas já retomei a viajar pelo país. Atualmente, estou em São Francisco do Sul (SC), onde devo ficar um mês”. Luisa conta que, mesmo viajando, ainda está respeitando as medidas preventivas da Covid-19 — alugou um apartamento e continua fazendo seus trabalhos digitais, evitando sair de casa. A intenção é continuar a volta ao mundo quando as coisas normalizarem.

Hoje, Luisa não pensa em se fixar num lugar novamente. “Não digo nunca, porque não sei o dia de amanhã, mas agora não tenho motivos. Eu gosto da vida que estou levando e a minha ideia é continuar como nômade digital por muito tempo”. Conta que a maior vantagem desse estilo de vida é conhecer novos lugares e novas culturas, mas afirma que nem tudo são flores: a distância dos amigos e da família, principalmente dos sobrinhos e das afilhadas, é um problema para Luisa. O fato de não ter um emprego fixo também é uma questão para a nômade: “Eu nunca sei exatamente quanto dinheiro vou ter. Mas a gente se acostuma, você tem que ter uma reserva de dinheiro para quando não tiver trabalho”, alerta.

Os conselhos da nômade para quem pensa em seguir esse estilo de vida são estudar idiomas, não acumular coisas materiais e guardar dinheiro desde cedo. “Para quem está começando a trabalhar como nômade digital, os primeiros meses são de muito trabalho e pouco retorno. Você precisa ter uma reserva”, conta. 

Os relatos de viagem da Luisa podem ser lidos em seu blog (Idas e Milhas) ou Instagram (@idasemilhas).

 

“Queria passar mais tempo com os meus cachorros”

Mochileira com animal de estimação

Debbie e sua cachorrinha Lisa em Bansko, na Bulgária [Imagem: Reprodução/Instagram]

Debbie Corrano é formada em Publicidade e Propaganda e decidiu se jogar no mundo há seis anos. Atualmente, está em Berlim, na Alemanha, mas já passou por mais de dez países com seus dois cachorros, a Lisa e o Luca (que faleceu recentemente). 

Desde que começou a faculdade, Debbie acreditava que seria feliz trabalhando dentro de uma agência publicitária. “Naquele momento eu amava tudo que fazia e as coisas que eu vivia. Eu amava trabalhar até tarde, achava super glamuroso”, conta. A nômade disse, em entrevista à J. Press, que a única coisa que a preocupava era a falta de tempo para seus cachorros. 

Foi pensando no tempo que passava longe dos animais que decidiu trabalhar como freelancer. “Quando comecei a passar mais tempo em casa e só ver meus clientes pela internet eu pensei que dava na mesma se eu estivesse em São Paulo ou Berlim”, conta Debbie. 

Quando resolveu sair do Brasil, o plano era levar os cachorros para onde ela fosse. Por isso, conta que o precisou pensar a longo prazo — comprou passagem de ida e volta, para caso as coisas dessem errado. Debbie alerta que viajar com animais é mais trabalhoso que viajar sozinho. “Seu dia precisa de uma certa rotina, é bem diferente de só ir sozinha por aí. Te dá um senso de responsabilidade muito diferente, já que um bicho depende de você”, disse. É preciso, inclusive, ter atenção quanto às leis de cada país: a nômade conta que, quando estava na Tailândia, onde a presença de animais é proibida em condomínios, foi expulsa de três hospedagens diferentes em menos de 72 horas.

Alguns planos de Debbie também foram interrompidos pela pandemia: teve um vôo cancelado cinco vezes, acabou precisando comprar outra passagem e quase não conseguiu embarcar com a sua cadela. A nômade também pensava em morar na Itália e viajar pela Espanha e pela Bulgária em 2020, ideias que também foram suspensas.

Hoje, Debbie não pensa em se fixar num local novamente, mas conta que gostaria de ter uma base no Brasil, para quando viesse visitar o país. A nômade posta seus relatos no Instagram (@debbiecorrano).

 

“A liberdade é muito grande e isso eu não troco por nada no mundo”

Casal de mochileiras

Maria Laura e Victoria [Imagem: Arquivo pessoal/Maria Laura Bertolatto]

As argentinas Maria Laura Bertolatto e Victoria Santillán namoram há quatro anos e sempre tiveram uma paixão em comum: conhecer novos lugares. Resolveram se tornar nômades em 2019 e, desde então, viajam de carona pela América do Sul. Atualmente, estão no Brasil, mas a meta é chegar até o México.

Antes de serem nômades, Maria Laura e Victoria costumavam fazer viagens curtas pela Argentina, até que um dia, ao voltar para casa, pensaram que poderiam viver viajando. “Percebemos que o que a gente vivia na nossa cidade era muito pequeno. Nós queríamos conhecer outras pessoas, outras culturas, outros idiomas e também compartilhar nosso conhecimento e deixar nossa contribuição no mundo”, conta Maria Laura. 

Começaram a vida nômade ainda em seu país natal. Fizeram voluntariado em algumas cidades argentinas, até que, em janeiro de 2020, chegaram ao Brasil. Aqui, as nômades viveram um tempo na praia, mas na época da entrevista estavam morando em uma ecovila no interior de São Paulo. “Gostamos muito de ir trocando de lugar. Já moramos em barraca, em quartos compartilhados, de tudo. Conhecemos muitos bichos e muita natureza”, conta Victoria.

Maria Laura fala que a maior preocupação que tinham era com a parte econômica. “Mas pensamos que, primeiramente, não tem nada no nosso controle.”, acrescenta, usando a pandemia da Covid-19 como exemplo. As mochileiras também falam sobre a necessidade da comunicação e de ser flexível às mudanças quando se adere ao nomadismo. “Temos que nos adaptar todo tempo a uma nova cultura, a um novo idioma. Também precisamos nos comunicar sempre, quando precisamos de ajuda, ou de trabalho. Esses são grandes desafios”, dizem as nômades.

Mas Victoria conta que, mesmo nos momentos difíceis, não sentiu vontade de parar. “A liberdade é muito grande e isso eu não troco por nada no mundo”, conta a nômade. Já Maria Laura se diz um pouco mais resistente em algumas ocasiões, mas acredita que todos os desafios uma hora passam. “Nós vemos a parte negativa da vida, mas buscamos focar sempre no positivo. Se você pensar que não vai dar certo, seu sonho se tornará impossível. E eu acho que nessa vida tudo é possível. Se você quiser vai ser possível”, acrescenta.

As nômades compartilham suas vivências no Instagram (@mochilerascosmicas).

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