Home Na Estante “O Apanhador no Campo de Centeio”: um mergulho poético no fim da inocência
“O Apanhador no Campo de Centeio”: um mergulho poético no fim da inocência
Na Estante
28 fev 2020 | Por Suzana Petropouleas (suzana.petropouleas@gmail.com)

O Apanhador no Campo de Centeio é um clássico romance da literatura norte-americana, publicado em 1951 nos Estados Unidos e em 1956 no Brasil. Escrito pelo recluso J. D. Salinger e considerado sua maior obra, o livro de 240 páginas foi inicialmente publicado parcialmente em forma de série para um público adulto. Conquistou o público mais jovem e, desde então, é apontado como uma das maiores obras já escritas sobre as angústias da adolescência e o tornar-se adulto num mundo marcado pela superficialidade e, paradoxalmente, profundamente complexo.

“Eu acho que um dia desses … você vai ter que descobrir  para onde quer ir. E então você terá que começar a ir para lá.” 

Costumamos criar expectativas e fantasias sobre clássicos que ainda não lemos. Por isso, imagina-se que O Apanhador no Campo de Centeio teria, de fato, um campo de centeio. Imagina-se que Holden Caufield, o protagonista, seria um jovem adulto angustiado que salvaria as crianças de sua região rural da morte acidental caindo do tal campo de centeio — um cenário perfeito para expor as angústias e conflitos internos do brilhante rapaz, levando-o a muitas epifanias melancólicas e verdadeiras sobre a vida e a juventude.

Nada disso! Não há nenhum campo de centeio, nem trigo, nem abobrinha. Só metaforicamente, mas que aparece rapidamente e não é retomada de maneira recorrente na história. Nela, o protagonista se imagina como um salvador de crianças que se aproximam de um precipício enquanto correm por um campo de centeio. O precipício é símbolo da perda da infância e da inocência e Holden, aquele que os salvaria da desesperança da queda.

 O romance desenrola-se na cidade, principalmente em Nova York, e todos os dilemas e conflitos do protagonista são apenas sugeridos nas entrelinhas. O começo do livro é vagaroso. Holden abandona seu caro colégio interno após uma briga e decide ir para a casa dos pais. Mas Holden parece nunca de fato chegar em casa. Imagina-se que, entre os dias que separam sua saída prematura de seu colégio e o dia que seus pais esperam que ele chegue em casa, Holden aprontaria muitas aventuras com uma galerinha do barulho, ou iria para um campo de centeio salvar umas criancinhas. 

Na verdade, ele passa dias arrastando-se de hotel em hotel, de festa caída pra festa caída, deprimido demais para fazer algo além de ver o tempo passar e procurar companhia. Considera “cretinas” quase todas pessoas com as quais interage ou que observa. Ao mesmo tempo, é pouco provável que o leitor não se sensibilize com o menino angustiado e solitário implorando por conexão e alguém para conversar. É fácil sentir empatia pelo protagonista quando ele fala sobre sua irmã menor, Phoebe, por quem realmente parece ter carinho, ou sobre a dor e o trauma sugeridos pela morte de um de seus irmãos. 

O Apanhador no Campo de Centeio

[Imagem: Editora Todavia]

Embora Caufield eventualmente encontre seu caminho de volta pra casa, a história é muito mais sobre a jornada do personagem dentro de si mesmo no final, entende-se que ele é hospitalizado devido a sua saúde mental. Mesmo então, Caufield parece não entender bem o que está acontecendo. O leitor é transportado para dentro da cabecinha confusa do personagem, num momento de crise e, em muita medida, dor.

“Era aquele tipo de tarde doida, terrivelmente fria, sem sol nem nada, e você sente como se estivesse desaparecendo a cada vez que cruzava a rua.”

O personagem não traz um auto-diagnóstico pronto, como na maioria dos dramas adolescentes, e cabe ao leitor ler e reler e perceber que Salinger tenta construir um personagem deprimido e perdido, que pouco consegue perceber-se assim. Embora Holden sinta profunda pena e compaixão por outros e queira salvar os menores de um mundo que mostra-se implacável, ele é obrigado a buscar ajuda para si mesmo, primeiro. 

Apesar do tamanho curto e a simplicidade do enredo em si, a obra não é uma leitura leve. Nada é explícito. Mesmo a interação do adolescente com um antigo professor de Literatura, Sr. Antolini, embora recheada de lirismo e boas lições, é marcada por uma ambiguidade dilacerante em um certo momento, Holden questiona as reais intenções do professor para com ele. 

No entanto, a sutileza com que Salinger entrega a complexidade e as nuances da história e das dificuldades de seu protagonista também gera trechos memoráveis e bastante especiais. Não é a toa que o livro tornou-se um ícone para as gerações de adolescentes que sucederam Salinger e Holden. Diversos trechos continuam a inspirar diferentes gerações de jovens, num mundo onde não há apanhador ou salvador algum para a inevitável perda da inocência e mergulho nas angústias da vida adulta a que todos estamos submetidos.  

“Entre outras coisas, você descobrirá que não é a primeira pessoa que se confundiu, amedrontou e até adoeceu com o comportamento humano. Você não está sozinho nessa, ficará animado e estimulado em saber. Muitos, muitos homens já estiveram tão perturbados moral e espiritualmente como você está agora. Felizmente, alguns deles mantiveram registros de seus problemas. Você aprenderá com eles – se quiser. Assim como um dia, se você tem algo a oferecer, alguém aprenderá algo com você. É um belo arranjo recíproco. E isso não é educação. É história. É poesia.”

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