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O legado das Spice Girls
Escuta Aí
24 out 2016 | Por Jornalismo Júnior

A cantora e compositora Claire Boucher — mais conhecida como Grimes — comentou certa vez, em uma entrevista, sobre o que constituía a sua visão de música pop. “Eu considero o pop como a sonoridade que é, em seu ápice, extremamente gratificante; a música que busca somente atingir bem no centro de prazer [do cérebro]”, ela disse.

Ainda que possa parecer purista ou simplista, essa definição serve como um indicador bastante útil no propósito de distinguir entre o pop que cumpre a sua tarefa — agradar ao ouvido do público — e o que não cumpre. Por trás de camadas de michês, vídeos hiperproduzidos e jogadas de marketing, o que ainda faz com que o pop sobreviva é justamente essa relação com o prazer auditivo.

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Antes da fama, 1995. Imagem: Reproudução.

 

O começo

Em meados do anos 90, aquela década inconstante e estranha para a música, um grupo feminino começou a aparecer a todo o momento na MTV — e, logo em seguida, em todos os veículos de mídia. Chamadas de Spice Girls, elas eram jovens, britânicas e vendáveis; cada uma incorporava uma persona diferente e a seguia à risca, como variações de uma boneca Barbie.

As meninas, que beiravam os vinte anos e vinham, em sua maioria, do interior da Inglaterra, tinham sido reunidas dois anos antes a partir de um anúncio de jornal que procurava cantoras “malandras, extrovertidas, ambiciosas e dedicadas”. Após passarem pelas diversas etapas do processo seletivo, sob o nome provisório — e um pouco bobinho — de Touch, elas tiveram que morar juntas durante um ano, em uma espécie de apartamento-estúdio. Durante esse período, financiado diretamente pela gravadora, ensaiavam incessantemente, compunham músicas próprias e experimentavam harmonizar as vozes duma na outra.

Talvez essa incubação inicial, um processo coletivo e simultâneo de virar gente, tenha sido justamente o que as permitiu tornar-se o que seriam: um grupo autêntico ao extremo, vigoroso, desbocado, com atitude própria e um carisma que emanava de dentro de cada uma. As Spice Girls eram extraordinariamente sérias sobre os seus objetivos — comerciais, artísticos, pessoais —, e, ao mesmo tempo, não ficavam um minuto sem contar piadas escrachadas, imitar sotaques, rir, estapear-se. Se não eram irmãs, eram algo muito próximo.

https://www.youtube.com/watch?v=gJLIiF15wjQ

O sucesso

Wannabe, lançado em 8 de julho de 1996, foi um tsunami com jeito de marolinha. A letra, gostosa e bobinha, quase infantil, foi montada em meia hora a partir de versos pré-escritos e ideias espontâneas das meninas. A gravação da canção não durou uma hora, e o clipe — que, por si só, também não parecia particularmente promissor — foi filmado em um único take e com recursos claramente limitados. Uma vez lançado, no entanto, foi um sucesso inegável e francamente absurdo, num bom exemplo de fama obtida da noite para o dia. Duas horas após a estreia do clipe na TV paga britânica, ele já liderava a lista de mais pedidas no Reino Unido. Semanas depois, uma turnê internacional já havia sido organizada, e o álbum de estreia estava vendendo até esgotar, seu sucessor prontamente a caminho.

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Vendendo um celular, 1997. Imagem: Reprodução.

Uma coisa puxou a outra e, no seu ápice, as Spice Girls eram uma marca conhecida: vendiam-se estojos, cobertores, mochilas, roupas, figurinhas, refrigerantes, revistas, adesivos, chicletes, câmeras fotográficas descartáveis e até telefones celulares — um luxo para a época — sob o nome do grupo. (Boa parte do fator da memória afetiva e nostalgia relacionada ao grupo vem justamente da imensidão de produtos temáticos, largamente voltados ao público infantil, que foram sucessivamente adquiridos, guardados em sótãos ou armários, e revisitados vários anos mais tarde.)

Evidentemente, toda a vivacidade e as piadas escrachadas e o jeitão desencanado que permeava as atitudes das meninas também foi reciclado como uma estratégia de marketing, envolto no breve momento cultural em que os artistas britânicos convenciam, com efeito, o resto do mundo de sua aura cool e despojada. Spice World, o longa-metragem protagonizado pelas Spice Girls e lançado em 1998, é a forma máxima disso, contando com toda a iconografia ufanista de que se tem notícia.

Mas isso não importa; afinal, não foi a comercialização ou selling out — por sinal, a coisa mais temível do mundo durante os anos noventa — que destruiu as Spice Girls. Se, por um lado, elas tivessem começado a carreira sem grandes perspectivas de sucesso, pelo outro elas não se levavam suficientemente a sério para se importar com a probabilidade de vender demais e se corromper. Era uma vida mais simples. Menos pensada.

A subversão

Vender tanto e tão rápido possibilitou que as meninas explorassem livremente seu lado menos comercial, quase como numa contradição. O álbum de estreia já contava com um quê de subversão em suas faixas menos conhecidas, mas foi nas apresentações ao vivo e nos b-sides e no álbum seguinte que essa possibilidade estética desabrochou.

Em primeiro lugar, elas fizeram questão de deixar bem claro que não levavam ordem de homem nenhum. Wannabe dizia isso de um jeito bonitinho, Love Thing de forma mais agressiva. Too Much passava uma mensagem surpreendentemente forte sobre satisfação sexual feminina e consentimento, e o cover incendiário de Sisters (Are Doin’ It For Themselves), delegado a Mel B e Mel C, foi possivelmente o mais próximo que o pop chegou do riot grrrl sem abrir mão de sua essência, o tal prazer auditivo universal — algo honrável.

https://www.youtube.com/watch?v=OnS0IglgRKo

As apresentações ao vivo do grupo não deixavam por menos. Nenhuma artista feminina, independente do que faça, está imune a ser objetificada sexualmente ou julgada por padrões machistas; as Spice Girls eram completamente conscientes disso, durante todos os momentos. Se, por um lado, elas não podiam mudar um sistema inteiro de submissão feminina — nem o queriam fazer —, pelo outro, elas brincavam sempre que possível com a relação desequilibrada entre o que se espera das mulheres e dos homens no pop. O exemplo mais engraçado disso eram os Spice Boys, dançarinos seminus que entravam rebolando no palco durante os shows, num momento levemente constrangedor. Era uma forma sutil de dizer, “é isso que nós temos que fazer a toda hora para sobreviver na mídia. Não é ridículo?”

Além disso, as meninas se recusavam a interpretar a alternância exaustiva entre os papéis de “santa” e “puta” que é constantemente cobrada às cantoras pop. Elas não cabiam em arquétipos tão rasos; o álbum de estreia conciliava faixas claramente sexuais com uma canção na qual elas agradeciam às suas mães pelo apoio emocional. Não se tratava de uma contradição, mas de mulheres que não se limitavam somente a um outro aspecto da vida e a abraçavam por completo.

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Mais exemplos: elas se recusaram a refazer o vídeo de Wannabe sob acusações da parte de executivos da TV de que estariam “mostrando demais”. Não pediram desculpas quando um ensaio fotográfico de anos antes, em que Geri posava nua, foi descoberto por tabloides e causou certo furor midiático. E, quando Victoria e Mel B engravidaram, simultaneamente — o grupo ainda em seu auge —, elas não deixaram de trabalhar, nem abdicaram da sexualidade em prol de uma performance de gênero mais maternal (como Madonna fez, à mesma época, ainda que temporariamente). Apenas continuaram a ser o que eram.

O gesto simbólico mais representativo dessa atitude, a tal da girl power, foi quando as Spice Girls decidiram, em conjunto, por demitir o próprio empresário e cuidar dos negócios da banda sozinhas. Elas já detinham o poder sobre todo o conteúdo autoral de seu trabalho — sempre escreveram as próprias letras — e agora queriam priorizar a própria saúde e investir seu tempo e dinheiro nos projetos em que acreditavam. Qual artista pop de grande alcance teria a coragem de fazer isso hoje?

O legado

O produtor musical Richard Stannard esbarrou certa vez com as Spice Girls no corredor de um estúdio. Ele não as conhecia e elas, que ainda não eram famosas, estavam pulando e cantando no local, sem nenhum motivo em particular. Sobre esse episódio, ele comentou:

“Mais do que qualquer coisa, elas só me fizeram rir. Eu não podia acreditar que tinha me deparado com essa situação. Você não ligava se elas estavam dançando na sincronia certa, ou se uma delas estivesse acima do peso, ou se não fosse tão boa quanto as outras. Era algo além disso. Algo que simplesmente te deixava feliz. Como nos melhores álbuns pop.”

Essa é a essência das Spice Girls, e dialoga diretamente com a visão de Grimes sobre o pop. Foi uma felicidade que permeou todo o trabalho do grupo durante seus cerca de três anos de sucesso mainstream, e que pode ser sentida com a mesma intensidade cada vez que nos voltamos a esse trabalho.

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Nos EUA, em 1997. Imagem: Reprodução.

Uma hora, ela acabou: a chegada do terceiro milênio coincidiu com a dissolução das identidades e da proposta que haviam alavancado o grupo ao topo das paradas. As meninas já não eram mais meninas, e tampouco podiam se dar ao luxo de esconder isso. Elas agora tinham filhos e gravavam demos solo quando sobrava tempo. Ainda tentaram se apropriar da sonoridade futurista do pop produzido do ano 2000 em diante, mas sem êxito.

Sua carreira pode ter sido curta — especialmente quando comparada à de outros artistas —, mas as Spice Girls mudaram para sempre o modo de se produzir um grupo pop. Em conjunto, elas eram dedicadas ao extremo, e emprestavam uma qualidade riquíssima às performances e aos arranjos vocais. Suas letras cumpriam uma dupla tarefa: descreviam a experiência feminina como ela é, complexa e nuançada, ao mesmo tempo que eram grudentas e viciantes — no melhor sentido. Respeitavam os fãs em todos os momentos. Nunca fizeram nada que não tivessem vontade.

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Em Paris, 1996. Imagem: Reprodução.

O legado das Spice Girls é um legado de ecos: há um pedacinho delas em cada canção pop de qualidade que surgiu depois do grupo, por menor que possa parecer. Que elas tenham feito tamanho sucesso e, posteriormente, reduzidas a seus casamentos ou seus filhos, diz muito sobre o que a sociedade espera das mulheres. Também por isso, elas merecem ser estudadas e homenageadas com a mesma profundidade e entusiasmo reservados aos grandes cânones da cultura pop. Sem tirar nem pôr.

Por Laura Castanho
laura.castanho.c@gmail.com

 

 

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