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O menino se tornou Deus – Djonga com nova sonoridade
Escuta Aí
18 abr 2018 | Por Jornalismo Júnior

Exatamente um ano após lançar o seu primeiro disco (“Heresia”, 2017), Djonga retorna com “O Menino Que Queria ser Deus”, mostrando uma outra face do rapper mineiro. “É o mesmo Djonga só que de outro jeito” é como ele próprio se descreveu nesse disco, em entrevista para a Onerpm. Esse outro jeito citado é um Djonga menos ácido e violento do que o apresentado ano passado e que explora mais a sua voz, mas que continua abusando de punch-lines agressivas e das suas famosas referências. A parceria com Coyote Beats, seu companheiro nos tempos de DV Tribo, está de volta para esse álbum, só que dessa vez o beat maker assina a produção de praticamente todas as faixas, diferente do disco antecessor , onde ele é creditado em quatro músicas.

A primeira faixa, ATÍPICO, funciona como uma ponte entre os dois trabalhos do rapper,  mantendo o flow característico, mas intercalando com um refrão cantado por ele. A letra transita entre diferentes assuntos, falando sobre o racismo, muito abordado no primeiro disco, sobre como algumas coisas mudaram após a sua fama (“Quando era menor no quesito beleza ganhava a pior nota/ Hoje as filha da puta que me deram zero, fala: crush me nota”) e também traz algumas referências (“Problemático, foda e focado/ Rap jogado aos seus pés”), mantendo uma das suas principais características desde o início da sua carreira.

JUNHO DE 94 é uma das faixas mais pessoais do disco, Djonga basicamente rima sobre ele mesmo, falando dos erros que cometeu após atingir a fama, sobre a incoerência entre suas letras e o seu eu (“Eu sou daqueles que dá o papo reto e vive torto”) entre outros pesos da sua consciência. O destaque da música é quando o beat muda e ela se transforma num desabafo de Djonga com os seus “haters”: fica mais pesada e ele extravasa sua raiva trocando o refrão cantado por uma sequência de rimas gritadas e finalizando o som com scratches (é literalmente quando o DJ arranha os discos de vinil para frente e para trás produzindo um efeito sonoro), feitos pelo DJ Cost, de frases consagradas do rap nacional que, juntas, concluem essa segunda parte da música.

Além das rimas de Djonga o álbum também conta com participações em algumas músicas, uma delas é UFA, que tem a presença do já reconhecido na cena Sant e do jovem Sidoka, rapper de 18 anos natural de Belo Horizonte. O refrão dessa faixa foi escrito por Sidoka e é o mesmo da sua música Nativo, só que dessa vez é cantado em um outro ritmo por Djonga, que também o aproveita para construir todo o seu verso em cima da temática do mesmo, se enaltecendo (“Minha autoestima tem crescido tanto/ Que hoje eu chamo ela de dívida externa”) e se colocando como alguém importante para aqueles que estão a sua volta e para quem é seu fã (“Sou referência pros menor/ Vivência é com os camarada/ Conceito na minha área e ainda sou rei na sua quebrada”). Falando das participações, Sidoka mostra um flow bem original, que ele tem como marca registrada e também mostra um bom jogo de palavras (“Onde já se viu? /Cê não tem a view/ Nem as view/ Mano cê mentiu! / Taqueopariu mas nessa beat é Sidoka”). Já o Sant não tem muito o que falar, não escreve o melhor dos seus versos, mas passa longe de ser uma participação ruim, resumindo: foi algo bem regular.

E nesse CD também sobra espaço para falar de relacionamentos em duas faixas. A primeira, 1010, é uma love-song, mas não das que estamos acostumados, está mais para uma “Te Amo Disgraça” versão Djonga. Nela, ele canta sobre uma garota pela qual está completamente apaixonado, mas ela demonstra um pouco de insegurança devido ao seu estilo de vida (Não me chama de cafajeste, o pai te ama). A música é uma declaração de amor do jeito Djonga (“Pra eternizar eu vou gravar um Dvd/ Com canções que compus enquanto você dormia/ Não com a minha DGK/ Mas sim pelada, e que bunda/ Maior que “Poetas no Topo 3”). Destaque para a carta de Tupac Shakur à Madonna lida no fim da música.

Logo na sequência vem SOLTO que fala completamente o contrário da anterior. Nela, Djonga rima sobre uma menina que conhece desde a sua adolescência (“Eu te vi dançando, nós dois tinha 15”) e a reencontra depois dela curtir suas fotos no Instagram Mas diferente da 1010, ele não está perdido de amor por ela ( na verdade ele não quer nada) mas também não quer que fique magoada por conta disso, até porque tem um grande carinho por ela, pois é a mãe de seu filho (“Um milhão de traumas criamos juntos/ Um filho lindo fizemos juntos”). Por algum motivo, a palavra “filho” é cortada no verso, mas fica subentendida. A faixa também conta com a participação do ex-colega de DV Tribo de Djonga, Hot Apocalypse, com um bom segundo verso, dando destaque para as referências astrológicas ao Djonga que explicam o porquê das atitudes cantadas no refrão.

CANÇÃO PRO MEU FILHO é o carro-chefe desse álbum. Carregada de sentimento, Djonga fala sobre a dificuldade de ter um filho sem planejamento (“Eu tive medo, mas fingi coragem/ Quis passar confiança/ Mas que moleque passa confiança?”), sobre como a criança vai ensiná-lo a ser mais forte (“Meu pequeno Ogum/ Me ensina a Batalhar) e, principalmente, ela é um ensinamento para o pequeno Jorge (“Entenda que o próximo nada mais é/ Do que um espelho do seu ser”). A música tem uma sonoridade calma, que encaixa perfeitamente com o refrão, e é a que Djonga mais canta em todo CD. Sua letra faz você se aproximar mais do rapper como pessoa. No refrão, o autor também faz referências a religiosidade, comparando seu filho a Ogum, que na mitologia Iorubá é o orixá ferreiro e senhor da guerra, relacionado a São Jorge no catolicismo.

Corra é outra obra-prima do álbum, tentando exemplificar melhor, ela é a vontade de se jogar de um abismo(“Vi meu povo se apavorar/ E às vezes eu sinto que nada que eu tente fazer vai mudar”), mas também é a mão que te segura e te puxa de volta (“Existirei pra fazer tu sorrir amor/ Sou seu colete a prova de balas/ Seu ouvido a prova de falas/ Eu vou tomar nosso mundo de volta). Essa é a faixa em que Djonga mostra todo o sofrimento das pessoas que diariamente têm que conviver com o racismo e como isso afeta a autoestima dos mesmos, mas sem deixar de dar ânimo para que possam lutar diariamente. A faixa conta com uma bela voz da cantora Paige, que faz o backing vocal no refrão e em versos mais importantes, dando uma ênfase maior a eles.

O último “feat” do álbum fica por conta da renomada Karol Conká. Na música ESTOURO ela e Djonga fazem algo muito inteligente com a letra: ambos rimam os mesmos versos, praticamente, mas com perspectivas um pouco diferentes e em alguns pontos até respondendo um ao outro (“Karol, tô indo atrás do meu te espero lá/ Djonga, a caminhada é longa então vamo lá”). Um trecho de destaque é durante os versos mais importantes de ambos os MC’s, em que a caixa e o bumbo padrão param e o beat de funk tem maior destaque, encaixando perfeitamente com a levada de ambos.

Djonga também faz menção às religiões afro-brasileiras, como no refrão de CANÇÃO PRO MEU FILHO, só que a faixa DE LÁ é inteira dedicada à espiritualidade. A música é feita com dedilhado no violão e tambores, tendo uma sonoridade bem típica dessas religiões,  tornando-se algo como um “afro-folk”, fugindo completamente do rap e se tornando um cântico religioso, passando uma vibe bem positiva.

Para fechar o disco, Djonga vem com ETERNO, uma faixa onde ele se coloca humilde diante de tudo que já conquistou, afirmando que todas as suas conquistas são irrelevantes se as coisas continuarem do jeito que são (“Esse trono de rei do rap, não vale nada/ Enquanto morrer menor pra ser rei na quebrada”). Mantendo-se na ideia de humildade, o segundo verso é praticamente todo falando do lado humano dele e como  comete erros igual a uma pessoa comum (“Eu crio e destruo, prometo e não cumpro/ Pareço e destoo, eu sujo e não limpo”). E se o forte desse MC sempre foram as referências, nessa faixa ele traz uma das mais inteligentes de todo o seu trabalho “Dizem que sou da nova Golden Era/ Meu coração de gold era/ Já me esqueci que nem Dori, hoje procuro Dorothy/ Para me lembrar se ainda sei amar”.

Diferente do seu trabalho anterior, Djonga buscou trazer algo para se aproximar mais do público, mostrando seus erros, defeitos e sentimentos e conseguiu fazer isso sem perder o foco nas lutas sociais, algo que foi sua prioridade em “Heresia”. Essa síntese que alcançou nesse trabalho mostrou uma grande diversidade dele como músico, construindo assim um álbum diverso porém, coeso, que não deixou a desejar e com certeza vai aparecer entre os melhores discos de rap de 2018, assim como seu antecessor fez no ano passado.

Por João Vitor Ferreira
jvitorsilva7@gmail.com

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