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O segundo ano de Dear White People: críticas ácidas e ironia na medida certa
Controle Remoto
16 maio 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Maria Eduarda Nogueira/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Após uma icônica primeira temporada, Dear White People (Querida Gente Branca, em português) retornou, no dia 4 de maio, com dez episódios fresquinhos para o público assinante do Netflix. Os capítulos designados em números romanos trazem desdobramentos, novas intrigas e, é claro, mais críticas ácidas feitas por Samantha White em seu programa de rádio, homônimo ao nome da série.

A nova temporada de DWP reafirma o timing perfeito dos roteiristas e produtores. Em um contexto de ascensão da direita conservadora, de haterismo (disseminação de ódio) na internet e de expressões como “racismo reverso”, os novos capítulos são cirúrgicos em abordar tais temas. O dualismo na abordagem também permanece: as denúncias sociais sérias são acompanhadas por cenas cômicas e irônicas, que nos fazem rir e refletir ao mesmo tempo.

Outro ponto notável nesse segundo ano da série é a preocupação com o desenvolvimento dos personagens, além da protagonista. Embora os episódios do ano anterior tivessem adotado narrativas de diferentes pontos de vista, é somente nos novos capítulos que vemos Lionel, Joelle, Coco, Reggie e Troy desenvolverem de forma plena seus núcleos individuais, não atrelados à Sam.

Lionel

Depois de ter dado o furo jornalístico sobre o financiamento do “The Independent” e ter se assumido homossexual, Lionel parte para uma jornada de autoconhecimento mais profunda, que se revela como uma das mais notáveis ao longo de todos os capítulos, em especial naqueles que possuem a sua percepção sobre os acontecimentos.

O jovem desajeitado agora lida com um novo universo, do qual se sente meio deslocado, seja por não entender as referências à cultura pop, seja por não se vestir como a maioria dos outros gays. Além disso, com uma nova investigação em curso, percebemos a paixão do estudante por jornalismo e seu intenso comprometimento com o ofício, mesmo após o fim do jornal em que trabalhava. Sua incessante busca pela verdade é um dos pontos condutores da nova trama, que levam a um desfecho um tanto quanto incerto no último capítulo, a ser comentado posteriormente.

Troy

O célebre filho do reitor de Winchester retorna, nesta temporada, totalmente perdido e confuso em relação à própria identidade. Após um ato de vandalismo no motim, Troy quebra não somente o vidro, mas também as expectativas do pai enquanto “legado”, algo que é abordado de maneira extremamente sensível na série.

Em meio à drogas, festas e relacionamento fugazes, Troy tenta se encontrar, sem sucesso. Apenas através da reconciliação com o pai – retratada em uma cena simples, mas significativa – o personagem consegue se aceitar, revelando seu verdadeiro potencial, não enquanto ativista político ou aluno de honra, mas como comediante e um ótimo amigo.

Reggie

Reggie Green foi o personagem que passou pela situação mais traumática na primeira temporada: teve uma arma apontada para sua cabeça. Tal cena, que carregou muito mais do que drama e tensão, é reverberada em seus pensamentos a todo momento nos novos episódios.

Em uma espécie de estresse pós-traumático, Reg tem dificuldade em superar o momento. A ajuda simplória e ineficiente do psicólogo da universidade é denunciada pelo personagem, na medida em que ele se sente injustiçado por ter que ir na “maldita terapia”, enquanto o policial que o atacou anda tranquilamente pelas ruas. A denúncia social presente na trama de Green é profundamente significativa, em face das constantes denúncias de abuso policial nos Estados Unidos, país onde a série é ambientada.

Joelle

A nova temporada trouxe para a personagem um protagonismo já exigido anteriormente: ela deixa de ser apenas a melhor amiga por trás das câmeras (ou microfones, no caso); assumindo, agora, um posto de “co-locutora” no programa “Dear White People”. Somado a isso, a sua própria trama amorosa é desenvolvida, podendo ser dividida em dois momentos. O primeiro, quando Joelle se vê atraída por um cara, tão inteligente quanto ela, mas que acaba resultando em uma decepção; o segundo, quando finalmente o seu interesse por Reggie é exposto de forma explícita e se revela recíproco, deixando um gancho para a próxima temporada, no qual essa nova relação tem o potencial de se tornar um dos principais fios condutores da série.

Outro aspecto a ser abordado é a tamanha inteligência e dedicação da personagem para com a graduação na faculdade. Embora esse comportamento fosse o esperado se tratando de uma “Ivy League” (conjunto das universidades mais conceituadas dos Estados Unidos, na qual a fictícia Winchester se encaixa), é simbólico que Joelle seja a representação da estudante de destaque, uma vez que, sendo uma mulher negra, ela se encaixa em dois demográficos que só tiveram acesso à educação superior após muitas lutas e reivindicações.

Coco

Coco Conners é a marca da mulher ambiciosa. Desde o debute da série, a personagem sempre foi tida como “a garota que quer tudo”, muitas vezes priorizando o seu desenvolvimento e ascensão pessoal em detrimento do ativismo, característica que a opõe diretamente a Sam – mas que, graças a responsabilidade social dos roteiristas, não abre espaço para a rivalidade feminina, sendo apenas um desacordo entre as duas colegas, que chama atenção ao destacar a heterogeneidade do movimento negro.

Na segunda temporada, o traço mais forte na personalidade de Coco – a ambição – é reforçado por um episódio um tanto quanto traumático: a gravidez inesperada em meio à faculdade. Por ser tão focada em seu futuro, tendo aspirações a cargos de alta relevância no Governo, a personagem vê esse acontecimento como um impedimento para seu pleno sucesso. Apesar de lidar com a indecisão em diversos momentos, levando em conta as emoções, Conners se mantém firme em sua posição.

Tal enredo traz à tona a questão do aborto em casos de uma gravidez inesperada, nos quais a escolha entre ser mãe precocemente ou abortar em prol do plano de vida é colocada em xeque. Geralmente, essa pauta é abordada quando se trata de mulheres brancas, tidas como as detentoras do “privilégio da escolha”. No entanto, o admirável vanguardismo de DWP retrata a situação envolvendo uma jovem negra, que, como é mostrado nos episódios, também possui ambições pessoais e deseja um futuro profissional de sucesso.

Sam

A protagonista, como já visto na primeira temporada, não é uma militante perfeita. Um texto já publicado no Sala 33 debateu exatamente essa característica e pode ser lido aqui . O segundo ano da série, no entanto, inova essa perspectiva de uma Samantha White profundamente sensível às críticas, sempre presentes, além de retratá-la como uma pessoa cheia de dúvidas, como todas as outras. Ainda que se posicione de forma tão eloquente em seu programa na rádio, a personagem é mostrada como, acima de tudo, um ser humano, que está sujeito a frustrações e tristezas.

A trama de White agora gira em torno do haterismo, simbolizado numa conta de extrema direita da rede social Twitter. O @AltIvyW, supostamente um aluno da própria Winchester, parece exteriorizar os sentimentos da massa estudantil, em sua maioria branca, que discorda do posicionamento de Sam. No entanto, não o faz de uma forma sensata ou respeitosa, reduzindo-se a preconceitos, estereótipos e insultos, travestidos enquanto “liberdade de expressão”. A protagonista, inicialmente, se porta como alguém inabalável, respondendo freneticamente às opiniões. Com o passar dos dias, o escudo de Sam vai rachando, revelando uma jovem abalada e perturbada com tamanho ódio disseminado.

Além disso, a cena em que ela e Gabe discutem em relação aos erros cometidos durante seu relacionamento e às atitudes de cada um após o término pode ser considerada uma das melhores de toda a temporada, uma vez os dois estão excepcionalmente vulneráveis.

 

A sororidade em Dear White People

Um dos capítulos mais marcantes da segunda temporada foi definitivamente aquele em que Coco, Joelle e Sam se reúnem em uma viagem de carro, motivada por um episódio traumático na vida da protagonista. Apesar de não serem exatamente um trio de melhores amigas digno de filme americano, as personagens se apresentam como solidárias umas com as outras e dispostas a confortar-se em momentos de necessidade.

A sororidade, traduzida como amizade e acolhimento entre mulheres, é sinalizada em Dear White People menos como uma pauta militante feminista e mais como um comportamento genuíno e acolhedor. Justamente por esse motivo, é um aspecto da série a ser valorizado, admirado e explorado em possíveis próximas temporadas.

A cena mostrada acima é uma das mais memoráveis no capítulo por ser uma expressão da felicidade em meio à crise, da amizade em meio aos conflitos e do cotidiano em meio à militância.

Desfecho?

Por fim, o desfecho da segunda temporada é algo que deixa a desejar. Associando-se diretamente com as descobertas de Lionel e com o protagonismo de Sam, o cliffhanger no capítulo X intriga, mas não empolga. As dúvidas em relação às sociedades secretas são tantas, devido ao fato de terem sido pouco desenvolvidas, que o aparecimento de um novo personagem nos minutos finais classifica-se como um questionamento a mais. O que é um tanto quanto revoltante para o espectador, que embora tenha tido resposta para vários mistérios da primeira temporada, termina essa segunda não sabendo nem o que perguntar.  

Apesar disso, é inegável que a espera por uma terceira temporada será difícil de aguentar. Que Dear White People continue sendo uma série digna de aplausos e desempenhando um papel crucial na conscientização do público! E, também, que passe a ter o reconhecimento merecido!

Por Maria Eduarda Nogueira
mariaeduardanogueira@usp.br

 

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