Home Descobrir Cinema O tabu na América Latina: Como é recebido o cinema que ousa cutucar estruturas rígidas de um povo tradicional?
O tabu na América Latina: Como é recebido o cinema que ousa cutucar estruturas rígidas de um povo tradicional?
CINÉFILOS
14 out 2018 | Por Jornalismo Júnior

(Imagem: Matheus Oliveira/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior)

Nos últimos tempos, filmes que retratam tabus vêm aparecendo com cada vez mais força no cenário do cinema mundial, e mais recentemente no latino-americano. Pode-se considerar a premiação do filme Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantástica, 2017) com o Oscar de melhor roteiro o maior símbolo da laureação deste movimento em terras latinas. Houve, todavia, uma espécie de confronto ao longo dos últimos anos, para que fosse possível realizar esse tipo de película na região. Em grande parte da sociedade ocidental estigmas com a homossexualidade, a questão de gênero e de raça, a prostituição e o aborto foram muito marcantes, e sendo a América Latina sempre delineada por sua tradição religiosa e cultural, acabou por ser um lugar ainda mais propício para a consolidação desses tabus, até no fazer artístico.

Grande sucesso no Oscar, Uma Mulher Fantástica levantou a questão da transfobia. (Imagem: Distribuição)

Para tentar entender essa nova cena do cinema latino-americano, e seu recente sucesso, é necessário buscar mais a fundo sobre sua origem, o seu confronto com os dogmas religiosos e tradicionais da região, bem como as conquistas dos movimentos LGBT+, feminista e negro, que possibilitaram colocar nas grandes telas o que antes seria visto com maus olhos. Ademais, buscar alguns dos empasses enfrentados pelos realizadores destes filmes, e como alguns  deles mudaram o jeito da própria sociedade enxergar o que nas grandes telas estava representado.

A América Latina como um todo é conhecida por ser um reduto cristão, predominantemente católico, e é o lar de 425 milhões, ou seja, 40% da população mundial. Ao mesmo tempo, a porcentagem da população latino americana protestante só aumenta: enquanto 9% da população diz ser criada dentro de igrejas protestantes, 19% professam essa religião atualmente, tudo isso de acordo com o estudo Religion in Latin America: Widespread Change in a Historically Catholic Region (Religião na América Latina: Mudança Generalizada em uma Região Historicamente Católica) da organização Pew Research Center.

Pode-se concluir, pois, que a fé cristã sempre teve uma influência considerável na formação cultural do povo latino. A Espanha, grande colonizadora dessa parte do mundo, surgiu da união de reinos cristãos, em prol da expulsão dos mouros, povos do norte da África praticantes do islamismo, de seu atual território. Portugal, semelhantemente, surgiu de um reino formado pela aliança do estado com a igreja católica, com o objetivo de possibilitar a Reconquista, processo de “retomada” da península Ibérica. Embora pessoas de outras origens também componham a população dos países latinos, ambos foram os grandes ocupadores, ou invasores, da América Latina.

Liberdade religiosa x Aceitação do casamento entre pessoas do mesmo sexo. (Imagem: Matheus Oliveira/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior)

De acordo com o estudo citado anteriormente, e com dados do estudo de opinião pública Latinobarómetro, a sociedade latino-americana tende predominantemente a ter visões mais tradicionais, conservadoras, sobre sexualidade, casamento e grupos sociais minoritários. O Pew Research Center também relata uma tendência dos protestantes a serem mais tradicionalistas quanto a esses temas do que os católicos.

Há, por consequência, um fenômeno de crescimento de figuras religiosas e políticas que defendem uma postura mais conservadora da sociedade. Aqui no Brasil temos a escalada política de Jair Bolsonaro (PSL), o capitão reformado do exército ascendeu rapidamente na corrida presidencial, sobretudo pelo sentimento antipetista, mas também sustentando-se em deturpações de dogmas religiosos, valores regressistas e muitas vezes arbitrários, os quais chocam até a populista francesa, Marine Le Pen. O presidenciável, de qualquer maneira, quase arrebatou o pleito ainda no primeiro turno e há mobilizações por todo o país defendendo uma frente democrática.

A campanha do PSL carregou consigo uma série de parlamentares ao êxito eleitoral, sendo que já existia uma forte representação das igrejas neopentecostais em nosso congresso, caldo engrossado por Marco Feliciano e Silas Malafaia, pastores cujas características mais emblemáticas são as ideias retrógradas. A Colômbia, na mesma toada, elegeu Ivan Duque, candidato populista de direita, que sustentava seu discurso no fracasso da política venezuelana, e em seu passado alegadamente ilibado- o que vai na contramão de sua forte articulação com o ex-presidente Álvaro Uribe, que fundamentou a coalizão direitista que ganhou o pleito, conhecido por sua relação espúria, tanto dentro da política colombiana, como com grupos paramilitares.

Marco Feliciano, deputado federal, um dos políticos mais contrários as causas dos grupos minoritários. (Imagem: Reprodução)

Muitas vezes, portanto, a produção cultural que ousa expor determinados assuntos sofreu represálias nos países latino-americanos. Os períodos marcados por ditaduras na região têm a censura como uma de suas características, e em muitos dos casos essa restrição era também composta por questões morais. O doutor em relações internacionais Renan Honório Quinalha define em sua pesquisa Contra a moral e os bons costumes: A política sexual da ditadura brasileira (1964-1988): “Marcado centralmente pelo lema da defesa da “moral e dos bons costumes”, o regime autoritário brasileiro estruturou um complexo aparato repressivo orientado não apenas para eliminar dissidentes políticos, mas também para regular e normalizar os corpos marcados por orientação sexual e/ou identidade de gênero dissidentes.”

Com os fins dos respectivos regimes autoritários, houve resquícios de censura propriamente dita. No governo Sarney, por exemplo, Je vous salue, Marie (1985) teve sua exibição vetada pelo próprio presidente, por em uma obra de ficção trazer a personagem bíblica Maria como uma adúltera, o que foi usado para acusar o filme de vilipendiar a fé cristã do povo brasileiro. Essa postura conservadora ainda dá sinais de vez em vez, como no caso do filme E Sua Mãe Também (Y Tu Mamá  También, 2001), no qual o governo mexicano proibiu que menores de 18 anos assistissem. O diretor Alfonso Cuarón reclamou, também, que teve de “castrar” seu filme para conseguir vendê-lo, visto que as locadoras não aceitavam longas sem uma recomendação de idade.

O filme E sua Mãe Também retratou uma nova juventude mexicana, com todas as suas contradições, bem como a busca de uma mulher por sua liberdade sexual. Imagem: Divulgação)

No começo de Abril, após todo o sucesso do longa Uma Mulher Fantástica, a atriz Daniela Vega usou da projeção conseguida com a película para impulsionar a tramitação do projeto de lei sobre identidade de gênero no Chile. O arcebispo Ricardo Ezzati, não obstante, fez uma comparação pejorativa da situação ao dizer “É preciso ir além do nominalismo, é preciso ir à realidade das coisas. Não é porque eu ponho um nome de cachorro em um gato que ele passa a ser cachorro”. Fazendo a atriz trans chamá-lo para um debate, o padre não só se recusou a admitir a ofensa cometida, como também tentou se passar por incompreendido.

A ascensão destes filmes, outrora polêmicos, já é inevitável. Produções como Tatuagem (2013), Anjos do Sol (2006), Uma Mulher Fantástica, Maria Cheia de Graça (María, llena eres de gracia, 2004), Do Amor e Outros Demônios (Del amor y otros demonios, 2009), que alcançaram grande sucesso de crítica, uma bilheteria considerável, alguns deles premiados em mais de um festival, são a maior prova disso.

Em entrevista ao Cinéfilos, o cineasta Lufe Steffen de São Paulo em Hi-FI (2013) e A Volta da Pauliceia Desvairada (2012) , conhecido por abordar a temática LGBT, foi perguntado sobre como minorias como LGBT+, negros e profissionais da prostituição são representados no cinema, e sobre como essa representação vem mudando ao longo dos anos.

Lufe ateve-se à comunidade LGBT+, foco de seus estudos, e forneceu um completo panorama da reprodução da imagem desse grupo nas grandes telas. Pode-se, todavia, fazer algumas comparações interessantes do desenvolvimento desse cinema com o retrato traçado de outras minorias e tabus em outras cinematografias.

A representação nas grandes telas está intimamente ligada com as crenças da sociedade, o que o cineasta reforça sempre. “Essa representatividade de personagens LGBT no cinema é um reflexo da sociedade em que a gente vive, e vem mudando ao longo dos anos”. Este cenário não se limita à comunidade LGBT, negros e mulheres vêm aparecendo de uma maneira diferente no cinema, a medida que através de muita luta ganham mais espaço e respeito dentro da coletividade em que vivem.

Todo esse processo histórico de mudança de paradigmas aconteceu aos bocados, não foi uma quebra espontânea de todos os dogmas. Lufe, quando fala dos primórdios da representação de personagens gays, ressalta o escárnio. “No começo do cinema, quando apareciam personagens LGBTs, eles apareciam em uma chave cômica, eram personagens bizarros, daí a palavra Queer, ‘estranho’ em inglês”. O mesmo acontece com a população negra, que sempre teve sua imagem vinculada a estigmas sociais. João Carlos Rodrigues aponta em seu livro que o cinema brasileiro produziu arquétipos que corroboram com as imagens negativas do negro como o “Escravo”, o “Negro de Alma Branca”, a “Mulata Boazuda”, entre outros.

Grande Otelo, um dos grandes símbolos da Produtora Atlântida, aparece travestido, representando essa visão do escracho. (Imagem: Divulgação)

O movimento LGBT, no entanto, começou a usar desta representação estereotipada como forma de resistência ao adotar para si a expressão Queer, que de acordo com a especialista em temas LGBTs e escritora Annamarie Jagose é um termo guarda-chuva que engloba uma coalizão de autoidentificações sexuais culturalmente marginalizadas. O pesquisador Daniel van Halsema, em estudo sobre o filme Tatuagem, define: “Cinema queer focaliza a experiência de fragmentação e nos encoraja a refletir em vez de somente criticar.” Não se pode esquecer, em vista disso, que todos esses grupos minoritários lutam pelo direito de traçar sua própria imagem, de deixar de ser elemento passivo nas mãos de uma minoria que impõe seus valores.

No filme Tatuagem, a Trupe Chão de Estrelas é um verdadeiro retrato da diversidade! (Imagem: Divulgação)

A ocupação destes espaços nos filmes latino-americanos, por temas outrora polêmicos, ganha lugar progressivamente. Apesar de alguns empecilhos como a epidemia da AIDS que limitou o crescimento do cinema LGBT, retomou e ratificou alguns dos estigmas sociais referentes não só a esse grupo, mas também a outros como prostitutas e pessoas mais vulneráveis socialmente. Lufe reforça esse retrocesso causado: “A segunda metade da década de 80 é influenciada pela epidemia do HIV, os filmes voltam a ficar pesados e mostram os gays como o principal  grupo de risco do vírus e nos anos 90 os personagens LGBTs quase desaparecem dos longa-metragens.”

A cinematografia LGBT entra em franca expansão, ainda sim, nos anos 2000, de acordo com o cineasta. “De 2000 para cá o cinema LGBT explode, muito impulsionado pela internet, pelas redes sociais que ajudaram a fazer que as comunidades LGBTs aumentassem sua visibilidade, seu empoderamento”.

Lufe ressalta também o mercado de nicho que ajuda a quebrar o tabu mercadológico em torno desse cinema: “Os filmes LGBTs vão conseguir, talvez até mais facilmente, captar recursos, apesar dessa dificuldade existir para qualquer tipo de filme no Brasil”; porém, no quesito bilheterias ainda relata o seguinte problema: “Quanto às bilheterias, acho que pode ter um pouco, vai ter gente que vai falar ‘Não quero ver esse filme, porque não quero ver filme gay, não gosto disso’, mas existe um público que vai querer assistir isso, principalmente um público jovem que quer ver essas coisas, então o problema já não é tão grande”.

Esta maior independência é sentida em diversos espectros, como a liberdade religiosa, um assunto muito delicado em uma região fervorosamente cristã como a América Latina. Filmes retratando religiões minoritárias como a umbanda e cultos indígenas ganham mais destaque. Recentemente um dos indicados ao Oscar de Melhor filme estrangeiro foi O Abraço da Serpente (El abrazo de la serpiente, 2015),  que além de mostrar a cultura e religiosidade de um grupo indígena no começo do século XX, apresenta o uso de plantas medicinais para fins religiosos e acusa os efeitos da subtração desses elementos devido a catequização imposta por missionários católicos.

O filme O Abraço da Serpente retrata o impacto estrutural e emocional da subtração antropológica decorrente das Missões Capuchinhas, que foram criadas por padres ao longo do rio de mesmo nome e cuja encosta era lar de diversas tribos indígenas. (Imagem: Divulgação)

Do mesmo modo, filmes com papéis femininos fortes, e que tratam de temas que incomodam a sociedade, uma vez que envolvem alguns destes tabus, vêm crescendo nos últimos anos. A tese de doutorado de Tiago de Almeida Moreira, Representações sobre a mulher no cinema brasileiro contemporâneo, traz alguns exemplos de personagens femininas que saem do antigo lugar comum, da mulher objeto do desejo masculino, para aparecer buscando sua liberdade sexual, para mostrar a dureza da prostituição, os impasses da mulher negra na periferia, ou mesmo mulheres associadas ao crime. Aparecem nesta lista: Anjos do Sol (2006); Antônia (2006); Jogo de Xadrez (2014); Elvis & Madona (2010).

O filme Anjos do Sol faz um retrato fiel e certeiro da exploração sexual de jovens menores de idade no Brasil. (Imagem: Divulgação)

O cinema, à vista disso, sofre cada vez menos com estereótipos sobre grupos minoritários, bem como se torna mais solto destes tabus, a medida que a sociedade busca cada vez mais pelas garantias das liberdades civis. Em contrapartida há uma virada política ao conservadorismo na América Latina, e não sabemos que consequências esperar deste movimento. Este processo de luta e transformação, contudo, ainda está em seu desenrolar e as pessoas agora estão formando suas imagens e conceitos sobre essas transformações, até então existem muitos preconceitos arraigados, portanto. Como Lufe afirma, vivenciamos uma grande transformação nos últimos 100 anos e para os anos 2020 podemos aguardar muito mais.

Esmiuçando o tema diversidades em uma entrevista ao Blog eai?, a filósofa brasileira Marcia Tiburi deu uma declaração, que muitos ainda precisam ler, sobre como lidar com o preconceito com o diferente: “Fisicamente, ninguém é igual a ninguém. Por mais que a indústria cultural tente homogeneizar e transformar os corpos em corpos iguais, as pessoas são muito diferentes. O quociente de diversidade nos ajuda a pensar o lugar dos preconceitos na vida. Se pensarmos bem, todos nós podemos ser objeto de preconceito. E, se usarmos o conceito de diversidade, conseguiremos desmontar pouco a pouco todo esse processo.

por Pedro Teixeira
pedro.st.gyn@gmail.com

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