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Observatório | A crise energética no Amapá: sem água e sem energia no meio de uma pandemia
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30 nov 2020 | Por Gustavo Zanfer (gustavozanfer@usp.br) e Luisa Costa (luisa.mc@usp.br)

No dia 3 de novembro, treze das dezesseis cidades do estado do Amapá sofreram um blecaute. Um incêndio causado por explosão após chuva forte danificou transformadores da subestação em Macapá, que fornece energia elétrica para grande parte do estado. Isso deixou o Amapá preso em um apagão que perdurou por 22 dias de extrema dificuldade na aquisição e preservação de alimentos, acesso a serviços de telefonia, à água, entre outros problemas.

A Linhas de Macapá Transmissora de Energia S.A., empresa privada responsável pelo abastecimento de energia elétrica no Amapá, só restabeleceu 100% do fornecimento de energia no dia 24 de novembro, quase 1 mês depois do primeiro dia de apagão.

Mas como o transporte de energia elétrica funciona? Por que os estados da Região Sudeste não enfrentam problemas de abastecimento elétrico como o Amapá?

 

O transporte de energia no Amapá e no Brasil

Daniel Szente Fonseca, engenheiro eletricista mestrando pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, explicou ao Observatório que toda rede de transmissão do Brasil é conectada, o que significa que podemos gerar energia em qualquer ponto – em Itaipu, por exemplo – e, através do Sistema Interligado Nacional (SIN), ela chega às pessoas.

O mapa do SIN mostra as linhas de transmissão que existem no Brasil, mais concentradas na Região Sudeste. “Geralmente, a motivação para a construção dessas linhas são os consumidores, então faz um certo sentido que haja mais linhas onde há mais consumidores. Observe que o Amapá só tem uma linha, e o incêndio aconteceu no final dela”, comenta Fonseca.

O engenheiro ainda explica que, “quando algo de ruim acontece nessa única linha, acontece em todo o estado”. Isso porque, no sistema de transmissão do Amapá, não existe redundância como em São Paulo, onde mesmo que uma linha de transmissão deixe de operar, existem várias outras que podem substituí-la.

Linhas de transmissão de energia no Brasil [Imagem: Reprodução/SINDAT]

A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) aprovou a interligação do Amapá ao SIN apenas em agosto de 2015. Antes disso, sua energia vinha, assim como acontece em Roraima, de geradores a diesel, pequenas centrais termelétricas. Daniel aponta que o Operador Nacional do Sistema Elétrico alertava sobre os riscos de se retirar as termelétricas do Amapá após sua integração junto ao SIN, “porque, se a nova linha de transmissão caísse, o Amapá não teria energia o suficiente para se manter sozinho”. Sem as termelétricas, o Amapá não tem outras linhas de apoio.

 

O apagão

Daniel alerta para o fato de que, ao contrário do que foi veiculado com frequência, não foram todos os três transformadores da subestação em Macapá que explodiram. “Um dos transformadores foi danificado e a sua explosão danificou o outro. O terceiro estava em manutenção desde dezembro de 2019, um descaso”.

A subestação tem o papel de captar a energia que estava condicionada a caminhar longas distâncias e prepará-la para ser distribuída para as pessoas. Na subestação estão os transformadores e o que pode ter facilitado a explosão deles, segundo Daniel, é a utilização de um óleo isolante que, dependendo de sua qualidade, provoca incêndios em altas temperaturas. Usado para fazer o controle térmico do transformador. Este óleo é aplicado no lugar de óleos não inflamáveis, que são mais caros.

Moradores do conjunto habitacional popular São José sofreram com a falta de luz constante, agravada pela falta de água e o calor no interior dos prédios [Imagem: Reprodução/Gustavo Basso – Jornalismo Júnior]

Após dois dias de apagão, o Gabinete de Crise criado pelo Governo Federal lançou um plano de ação para a retomada da energia, prevendo a reparação de um dos transformadores atingidos pelo incêndio, a aquisição de termelétricas e a chegada de um novo transformador. Mais tarde, no dia 7, a Justiça Federal determinou o prazo de três dias para que a situação fosse completamente resolvida, sob pena de multa de R$ 15 milhões.

Em entrevista ao Observatório, o agente social e coordenador do Centro de Atividades Sociais da Periferia, Izam Cabreiro, afirmou que o fornecimento de energia no Amapá sempre foi precário, principalmente nos bairros periféricos, onde os próprios moradores fazem o trabalho de “puxar” a energia elétrica para dentro de casa, de forma clandestina. Ele afirma que o apagão aconteceu justamente por conta da precariedade do serviço de distribuição de energia e que a situação só piorou.

Cabreiro também denuncia a situação de “atraso total” que a população do Amapá vive e lembra que sua desigualdade social é muito grande, com as pessoas que moram nas periferias vivendo de forma totalmente precária. O agente acredita que é necessária uma denúncia dos órgãos internacionais para dar visibilidade à situação do Amapá. “A gente já vive isso há décadas, muito tempo mesmo”, completa.

O apagão persistia e a corrida por água também se fazia presente. A falta de energia elétrica compromete o fornecimento de água pela Companhia de Água e Esgoto do Amapá (Caesa) e também atinge aqueles que não são atendidos pela companhia, mas utilizam bombas d’água em poços artesianos. Francinete Almeida, moradora de uma área alagada de Macapá, conta que saía de casa de madrugada para buscar água e conseguia, no máximo, encher dois baldes.

Izam acusa que o sistema de distribuição de água é “horrível” e precário tanto quanto o de energia elétrica. Ele afirma que a água distribuída pela Caesa é barrenta, e muitas pessoas sequer têm acesso à água.

Além da falta de água potável – que causou uma alta no atendimento de crianças com irritações gastrointestinais – e dos serviços de comunicação e saúde prejudicados, com hospitais recebendo energia através de geradores, a população também teve sua alimentação comprometida. O apagão prejudicou a aquisição e o armazenamento de alimentos e a insegurança alimentar tornou-se uma tônica dessa situação de calamidade. “A gente tava comendo só enlatado. Tava muito difícil mesmo”, conta Francinete.

Tudo isso ocorria em meio à pandemia da Covid-19. As filas em supermercados e caixas eletrônicos e toda a situação de vulnerabilidade deixou a população mais exposta aos perigos do vírus, agravando a pandemia no Amapá. Foram registrados 742 casos e 15 óbitos pela doença no dia 10 de novembro, após período em que o estado deixou de divulgar dados devido às falhas de comunicação em decorrência do apagão, entre os dias 4 e 9.

Macapá é cortada por canais e áreas que alagam com as águas do rio Amazonas [Imagem: Reprodução/Gustavo Basso – Jornalismo Júnior]

No dia 8, após cinco dias de apagão, a energia começou a ser restabelecida com fornecimento alternado de 6 horas por região. Dois dias depois, a Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA) anunciou que a eletricidade passava a ser fornecida em turnos de 3 ou 4 – entretanto, moradores reclamaram sobre o não cumprimento do fornecimento nos horários estabelecidos. “A gente ficava sempre esperando aquela hora da energia voltar e às vezes não chegava naquela hora que o povo falava”, afirma Francinete.

Enquanto isso, o Tribunal de Contas da União aprovou a realização de auditoria para verificar possíveis irregularidades e omissões no apagão e a Polícia Civil divulgou resultado de laudo preliminar sobre as causas do incêndio no transformador – que mostrou que o fogo que atingiu a subestação começou em uma bucha, descartando a possibilidade de que o transformador tivesse sido atingido por um raio.

No dia 13, a Justiça Federal também determinou que a União viabilizasse auxílio emergencial de R$ 600 por 2 meses para moradores dos municípios que foram prejudicados pelo apagão. Mais tarde, no dia 21, após 19 dias de crise energética e um segundo apagão (ocorrido no dia 18), o presidente Jair Bolsonaro visita o Amapá e afirma que o governo federal fez “todo o possível para restabelecer a energia”. Ele também anunciou medida provisória (publicada dia 25) que viria a isentar os consumidores atingidos com o apagão de pagarem a conta de energia nos 30 dias anteriores. Entretanto, mesmo com o acionamento dos geradores, bairros seguiram sem energia em Macapá.

Somente no dia 24, após 22 dias de apagão, a CEA e o Ministério de Minas e Energia anunciaram que a energia foi retomada em 100% do estado e que o rodízio, portanto, estava suspenso. A retomada foi possível com a energização do segundo transformador na subestação incendiada.

Mesmo com a retomada, os moradores ficaram apreensivos. “A gente ficou com esse medo de começar tudo de novo, porque a gente não sabe o que pode acontecer, do nada teve esse apagão”, afirma Francinete.

*Capa: [Imagem: Reprodução/Gustavo Basso – Jornalismo Júnior]

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COMENTÁRIOS
Luciana dos Santos Martins
Muito boa a reportagem. É lamentável essa desigualdade que existe no Brasil. Um descaso dos governos estadual e federal.
03 dez 2020
 
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