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Observatório | As “novas” eleições de 2020: o que mudou?
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04 out 2020 | Por Juliana Alves (juliana_mendonca@usp.br) e Mateus Dias (mateusdesouzadias10@usp.br)

Máscara no rosto. Álcool em gel nas mãos. Distanciamento social. Essas são frases que todos estão acostumados a ouvir para a prevenção contra o novo coronavírus. Tais medidas foram incorporadas às nossas realidades, inclusive nos atos políticos e votações. Confira aqui como vão funcionar as eleições 2020.

 

O dia das eleições e os protocolos de segurança

As votações foram adiadas para os dias 15 e 29 de novembro, por meio da PEC nº 18/2020, estabelecida em julho. O TSE também aumentou o tempo de votação, passando a ser das sete da manhã às cinco da tarde. O TSE também estabeleceu o horário das 7h às 10h como preferencial para pessoas acima de 60 anos e recomenda que os demais, se possível, não compareçam nessas primeiras horas aos locais de votação para evitar aglomeração.

A suspensão da biometria também foi uma decisão tomada neste ano. A justificativa é evitar a formação de muitas filas e a impossibilidade de higienização do leitor de coleta digital sem que haja danos. Nas seções não ocorrerá medida de temperatura, visto que o ato pode causar filas e aglomeração, além de não detectar infectados que sejam assintomáticos ou estejam em período de incubação. A recomendação é para que fique em casa aqueles com febre no dia da votação ou que estiveram infectados nos últimos 14 dias.

Para os mesários, as recomendações são que o treinamento ocorra de forma virtual, por meio de ensino a distância, pelo aplicativo para mesários e programação da TV Justiça. Quando presencialmente, a orientação é pela preferência de ambientes ventilados naturalmente ou áreas externas. O treinamento contará com informações sobre o protocolo e medidas sanitárias adotadas. Entre essas medidas estão o uso de máscaras, protetores faciais (face shields), álcool em gel e distanciamento de um metro entre mesário e eleitor. Matheus Sanchez, um dos voluntários de São José dos Campos (SP),  conta que se sente seguro em ser mesário. “Eu acho que é algo importante. Mesmo com a pandemia, tomando todos os cuidados, é possível exercer bem a função” aponta ele. 

Para os eleitores, as recomendações são parecidas. O uso de máscaras é obrigatório nas seções eleitorais e nos locais de votação. É recomendado que mantenha distanciamento de um metro; evite apertos de mão, abraços e toques no rosto e que faça uso de álcool em gel antes e depois da votação. 

No local da seção, o eleitor deverá apresentar o documento de identidade a distância do  mesário, solicitar o comprovante de votação caso deseje e  guardá-los. Em seguida, deve assinar o caderno de votação e dirigir-se a urna, votar, higienizar-se e, logo após, retirar-se da seção de votação. O TSE recomenda que os eleitores levem suas próprias canetas para assinatura. 

Conforme pesquisa recente divulgada pelo Datafolha, um a cada cinco eleitores ainda se sentem inseguros em votar. Antonio Carlos (PCO) acredita que o baixo comparecimento nessas eleições pode ir além da Covid-19, “Eu acho que o receio é grande, mas não só por causa da Covid, o problema também é que as pessoas estão desestimuladas”, lembrando que é uma tendência desde as eleições de 2018.

André (PSL) acrescenta que essa eleição deve quebrar recordes de abstenções: “Acredito que haverá uma abstenção recorde. Muitos devido  à insegurança provocada pela Covid-19. Ou porque simplesmente vão usar esse motivo para não votarem. Boa parcela da população brasileira ainda é descrente com política”.

 

Campanha Eleitoral

No dia 27 de setembro, foi autorizado o início das campanhas eleitorais com novo formato, já que estas tiveram que se adaptar ao “novo normal”. Mesmo assim, muitas cenas de aglomerações foram provocadas por candidatos.

Além de multidões, casos polêmicos ocorrem ao longo de campanhas. Em Sirinhaém, Pernambuco, o prefeito Franz Hacker (PSB) é flagrado ao agarrar a máscara de um eleitor e colocando sobre seu rosto para uma foto. Já em Salvador, Bahia, um político octogenário é carregado pelos braços de eleitores para o palco como apoio ao sobrinho a candidatura.

Aglomeração

Aglomeração na campanha eleitoral em Nova Cruz (RN) [Foto: Reprodução]

Esses registros contrapõem o protocolo do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), publicado no dia 27 de setembro, que recomenda evitar a realização de eventos com grande número de pessoas. O candidato a prefeito de São Paulo, Jilmar Tatto (PT), aponta, em entrevista à Jornalismo Júnior, que durante a campanha deve tomar cuidados sanitários determinados pelas autoridades médicas. Ele pretende cumprimentar as pessoas usando carro de som, carreatas, “bicicletadas” e caminhadas, com distanciamento social. “É a maneira de manter a tradição do ‘corpo a corpo’, não vamos fazer grandes aglomerações, mas vamos manter o diálogo com a população”.

Além disso, o TSE recomenda o uso de espaços amplos e abertos para contato com outras pessoas. O candidato à prefeito de São Paulo, Antônio Carlos (PCO), lembra da importância de vestir as máscaras, álcool em gel e manter o distanciamento. Para ele, essas medidas não impedem um trabalho de panfletagem, uma das estratégias utilizadas, “já que não tem horário eleitoral [na televisão]”. “Vamos procurar fazer pequenos atos políticos em muitos bairros, nas estações de metrô, em locais de trabalho, nas fábricas”.

Até o dia 12 de novembro, o TSE permite a prática de comícios na campanha eleitoral das 8h até a meia noite,  exceto comícios de encerramento de campanha, concedidos até às 2h da manhã. A candidata a vereadora em Belém, Márcia Kambeba (PSOL), afirma que não pode reunir com um grande número de pessoas, é uma campanha sem que possa pensar o coletivo com o coletivo. Segunda ela, seria um grande problema promover comícios, pois ainda há pessoas sofrendo devido à Covid-19. “Não foi extinto a pandemia do nosso país, pensar em comício seria um risco a saúde de todos”.

Para o candidato a vereador em Santos, Henrique Nunes (PP), a realização de um comício é arriscada porque são locais fechados (ambiente que favorece a circulação da Covid-19). Segundo ele, uma opção seria fazer o comício com distanciamento em lugares abertos, mesmo assim, é arriscado. “O candidato tem que estar atento com a distância e tomar cuidados: fazer uma campanha consciente”.

A adaptação da campanha eleitoral a fim de garantir a segurança de eleitores, candidatos e suas equipes, fez com que a criatividade fosse determinante em 2020. Por exemplo, a candidata a prefeita de São Paulo, Marina Helou (Rede), tem o projeto de implementar uma espécie de bolha de proteção para os panfleteiros, que também utilizarão máscaras, para entregar materiais impressos.

Campanha eleitoral

[Foto: Campanha Marina Helou /Divulgação]

Os tradicionais debates também foram reformulados. Em Porto Alegre, a Rádio Gaúcha inovou com o debate no formato “drive in”. O local escolhido foi um estacionamento e todos os candidatos a prefeitura de Porto Alegre convidados ficaram dentro de seus carros.

Já em Lages, Santa Catarina, a coligação “Lages em Boas Mãos”, liderada pelos candidatos a prefeito Antônio Ceron (PSD) e Juliano Polese (PP), criou um sistema de “drive thru”, que entrega o material de campanha e fornece a colagem de adesivos no carro sem que o apoiador precise sair do veículo.

 

Redes Sociais

As redes sociais podem ser grandes aliadas dos candidatos na pandemia, visto que grandes aglomerações podem ser perigosas nesse momento. Henrique Nunes (PP)  destaca a vantagem do uso das redes sociais, pois as publicações ficam online por tempo ilimitado, diferente do rádio e da TV, em que a campanha política tem horário e tempo limitado. “As redes sociais estão sendo e serão cada vez mais o foco das eleições” comenta.

Andre Rozendo (PSL), candidato  a  Câmara do Rio de Janeiro, RJ, aponta que mesmo tomada por jovens, a sua campanha nas redes sociais é focada no público de trinta a cinquenta anos, pois acredita que esses buscam conteúdos nas postagens ao invés de entretenimento. “A qualificação do meu eleitor será uma forte chave na busca dos meus votos e eleição” acrescenta. 

Marcia Kambeba (PSOL) concorda com Henrique nesse ponto, mas levanta a importância dos outros meios de comunicação: “No Rádio e TV há uma delimitação de tempo muito curta, mas necessária para que a sociedade conheça cada candidato e suas propostas”. Jilmar Tatto (PT) aponta também que a TV se torna importante nesse contexto, pois muitas pessoas estão ficando em casa.

É preciso ficar atento às campanhas nas redes sociais. Usar robôs para divulgação de mensagens, terceirizar impulsionamento de postagens, shows em lives e divulgação de fake news são proibidas, conforme o TSE. 

Eleições 2020

[Foto: Campanha TSE / Divulgação]

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