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‘Onisciente’: segurança e privacidade inatingíveis
Controle Remoto
01 jul 2020 | Por Wálace de Jesus (walace.jesus@usp.br)

Em janeiro deste ano a Netflix lançou mais uma produção original e nacional. Com apenas 1 temporada de 6 episódios até o momento, Onisciente mostra uma sociedade utópica na qual um sistema tecnológico torna a privacidade e a segurança pública impecáveis. No cenário apresentado as pessoas são monitoradas por drones em formas de libélulas, de uma empresa privada chamada Onisciente. 

O seriado conta a história de Nina Peixoto (Carla Salle), trainee na Onisciente, e do assassinato de seu pai, Inácio Peixoto (Marco Antônio Pâmio). O suspense é alimentado pela dúvida do porquê o sistema falhou em não detectar o assassino do pai de Nina; e acompanha o plano da jovem. Ela busca ser efetivada na empresa e conseguir acesso aos dados do pai através do computador central, nunca acessado por humanos. Para isso, Nina se alia ao irmão Daniel (Guilherme Prates) e à assessora do prefeito da cidade, Judite (Sandra Corveloni).

Nina e Daniel sendo observados pelos drones [Imagem: Reprodução/Netflix]

Nina e Daniel sendo observados pelos drones [Imagem: Reprodução/Netflix]

Cada pessoa tem um drone que analisa comportamentos e os julga de forma computadorizada e instantânea, ou seja, pune automaticamente qualquer tentativa de furto, assédio, violência física e verbal, entre outros. A segurança pública é perfeita no seriado, já que os números de crimes cometidos na cidade não chega à casa decimal. 

Um aspecto da série é que as pessoas são disciplinarizadas por meio do medo, já que são monitoradas a todo instante. A visibilidade dos indivíduos se torna uma armadilha e surge como uma estratégia de poder por parte da Onisciente, que passa a controlar as ações dos cidadãos.

Na série, a privacidade é um chiclete de sabor infinito. Os dados coletados pelos drones são inacessíveis até mesmo para quem está sendo vigiado. Eles ficam armazenados no computador central e a tentativa de violação deste hardware tem uma das penas mais severas promovidas pelo sistema. Incentivada por Judite, cabe a Nina arriscar sua liberdade e acessar a central sem ser flagrada por nenhum drone para conseguir as imagens do assassino do seu pai. 

Uma curiosidade é que o primeiro episódio da série foi lançado um dia após o Dia Internacional da Privacidade de Dados (28 de janeiro), o que chama atenção quanto à relevância da produção, um convite para refletir sobre o que está acontecendo no mundo real. 

Mesmo com tantos fatores positivos, a desigualdade persiste na narrativa. A bolha que o sistema Onisciente criou na cidade se diferencia de outras realidades sociais sem a intervenção dele, nas quais a segurança pública e a privacidade são relativas.

Além de um desfecho completamente inesperado para Nina, a séria ainda fornece um romance da protagonista com Vinicius (Jonathan Haagensen), supervisor de segurança da Onisciente, que fica dividido entre o amor e o trabalho.

Onisciente, da Netflix [Imagem: Divulgação]

[Imagem: Divulgação]

Em analogia aos filmes O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001) e Elysium (2013), percebemos que Nina, além da fabulosa similaridade com a protagonista do primeiro filme, muda completamente sua perspectiva a respeito da empresa Onisciente, tal como Amélie Poulain o faz diante à procura de um personagem do enredo. Ainda, há uma segregação completa em dois mundos, tal como em Elysium: um “mundo” onde a ordem é imperativa e ao qual poucos têm acesso; e outro, no qual as pessoas vivem em total relatividade com as questões de sobrevivência, segurança e privacidade.

Comparada com as utopias presentes nos episódios de Black Mirror, a série consagra mais uma produção nacional de ficção científica e traz muitas reflexões da sociedade atual. 

Confira o trailer de Onisciente:

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