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Pequeno (exagerado) Segredo
CINÉFILOS
11 nov 2016 | Por Jornalismo Júnior

No dia 12 de setembro, uma comissão especial do Ministério da Cultura escolhia Pequeno Segredo (2016) como o representante brasileiro por uma vaga na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar. A discussão pouco se atentou ao quase desconhecido filme, preferindo discutir a legitimidade da votação, e de modo mais geral, da conjuntura nacional. A polêmica girou em torno de Aquarius – obra que causara muita repercussão em festivais internacionais, entre eles o de Cannes – não ter sido o escolhido no lugar. Mas o que poucos sabiam é que a história verídica das três famílias relacionadas pelo segredo de Kat (Maria Goulart) – Robert (Erroll Shand) e Jeanne (Maria Flor), Barbara (Fionulla Flanagan) e seu marido (Ryan James) e Heloísa Schurmmann (Júlia Lemmertz) e Vilfredo Schurmmann (Marcello Antony) – já vinha sendo um projeto idealizado há seis anos por um dos próprios filhos do casal Schurmmann, David. Tendo vivido diversos dos fatos transpostos à tela, ele – que nem parece pertencer à família diante da ridícula ponta que faz no filme – narra a história de sua irmã de forma bastante romântica: frente ao segredo trágico do título, três famílias serão unidas pelas esperanças, sonhos e destinos de uma vida mais bela. Num segundo plano ainda, parte dessa memória transmuta-se também numa obra exagerada e por vezes melodramática demais.

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Sendo assim, é sintomático observar como os aspectos técnicos expressam exatamente essa sensação. A trilha sonora, por exemplo, surge evocativa desde o primeiro minuto do filme. Conforme a projeção se sucede, no entanto, vê-se um uso indiscriminado dela para qualquer cena de maior apelo emocional. O mesmo ocorre com a delicada fotografia que, embora bastante bonita à primeira vista, compõe espaços de iluminação estourada e à contra-luz a fim de dar um tom sublime à circunstância. Isso faz com que várias das cenas pareçam se tratar quase de um sonho, como a sala de balé quase que incorpórea de tanto branco da luz que entra pelas janelas. Ainda nisso, é irritante como o filme para repetidamente para contemplar o mar, simulando-o até mesmo em piscinas e banheiras, como se sua imagem simplesmente evocasse sentimentos maiores. Todas essas são estratégias baratas de um roteiro que, precisando recorrer a aspectos que maqueiem a emoção, acaba pedindo pelo choro ao invés de desenvolvê-lo através do momento por si só. Não sendo injusto com a obra, a cena de um acidente de carro no meio da narrativa, e o último terço do filme possuem uma emoção espontânea. O problema, contudo, é que esses momentos são sempre sabotados logo a seguir pela trilha, fotografia ou imagens exageradas.

Tratando-se do roteiro, mesmo que as ações se sucedam de maneira lógica, é problemático o maniqueísmo dele. Por se tratar de uma história de superação e amor, algumas personagens, como Kat, acabam sendo quase que beatificadas. Por outro lado, é desnecessário o fato de todo o mal da obra estar concentrada em uma antagonista, Barbara, a mãe de Robert. Ela é sim racista e implacável, mas é ridículo que ela não só tenha que representar tudo isso sozinha, como também precise acabar com um artificial arco de redenção. Isso sem contarmos que Vilfredo surja quase como que um turista na trama. Pelo menos, ele guarda os momentos mais risíveis do filme, quando passa basicamente três quartos de suas aparições olhando para o nada.

Prejudicado por tantos lados, é impressionante que Júlia Lemmertz e Maria Goulart consigam dar naturalidade à dinâmica de suas personagens. Muitas das emoções reais virão justamente das descobertas, das derrotas e das pequenas conquistas que as duas compartilharão. Se o filme pretendia retratar a felicidade, serão as duas as responsáveis por mais se aproximarem dela. Felicidade esta que obviamente teria que estar escancarada na mensagem positiva (e um tanto artificial) de seu final. Talvez pela memória afetiva do diretor, talvez como expurgo dos males que acometeram a família. A realidade é que, mesmo aos trancos e barrancos, o filme consegue perto de seu fim nos sensibilizar… rasamente.

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Pequeno Segredo tem cara de filme de Oscar? Talvez não para Melhor Filme Estrangeiro, embora em coletiva, o diretor David diga que “nosso estrategista, que trabalhou no Labirinto do Fauno (El laberinto del fauno, 2006) e fez o Mar Adentro (2004) vencer o Oscar, falou assim: ‘pessoal não entende como funciona a mecânica do Oscar, eu entendo’”; pena que esses dois títulos sejam infinitamente superiores ao dele. Se concorresse junto às obras da categoria principal, com certeza seria bastante considerado, o que mais uma vez não significa que o filme seja necessariamente bom; Brooklyn (Brooklin, 2015) e A Teoria de Tudo (The Theory of Everything, 2014), por exemplo, facilmente se enquadrariam junto a este como obras esquemáticas e emocionalmente apelativas que sempre despontam nas premiações. Assim, em meio a muita polêmica, Pequeno Segredo tem algumas poucas virtudes, mas nada que seja suficiente para que o pôster de Aquarius na saída da sessão não nos rememore a sensações muitíssimo mais poderosas.

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Na coletiva de imprensa de divulgação do filme, da esquerda para a direita: Marcello Antony, Heloísa Schurmann, David Schurmann, Maria Goulart, Vilfredo Schurmann e Júlia Lemmertz | Crédito: Natan Novelli Tu

Trailer:

 

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por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

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