Home Controle Remoto ‘Pink money’: consumo LGBTQI+
‘Pink money’: consumo LGBTQI+
Controle Remoto
12 out 2020 | Por Juliana Alves (juliana_mendonca@usp.br)

Poder rosa

O “dinheiro rosa”, poder de consumo de produtos e serviços da comunidade LGBTQI+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queers, intersexuais), é impactante. Uma pesquisa realizada em 2018 pela corporação LGBT+ Capital demonstra que a comunidade fez circular 3,7 trilhões de dólares. Só no Brasil foram 103,7 bilhões de dólares. Com esses dados percebe-se que a comunidade é um novo nicho relevante de mercado. Também há a estimativa de que 10% da população brasileira é LGBTQI+, mas há subnotificação, pois muitas pessoas optam por não declarar sua orientação sexual ou identidade de gênero. 

10% da população brasileira é LGBTQI+. [Imagem: Stock Photos]

10% da população brasileira é LGBTQI+. [Imagem: Stock Photos]

No entanto, vale ressaltar que há desigualdade imensa entre as siglas do termo LGBTQI+. Dentro dessa comunidade quem tem poder aquisitivo maior são os homens homossexuais brancos de classe média alta. De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% da população trans tem como fonte de renda a prostituição. Outra grande parcela vive do mercado informal. 

 

Turismo LGBTQI+

O turismo focado ao público LGBTQI+, segundo os dados da Organização Mundial do Turismo, é o mais rentável do planeta. Os destinos que se preocupam com esse tipo de turismo são diferenciados, como aponta Ricardo Gomes, presidente da Câmara do Comércio e Turismo LGBT do Brasil. Ele diz que a diferença é que o público LGBTQI+ é um público que considera mais o valor agregado do produto ou do serviço. E acrescenta que um lugar que trabalha bem esse turismo, também está trabalhando a aceitação, a recepção e o bem-estar do LGBTQI+ que vive na cidade. 

Há cidades que são mais procuradas pelos viajantes LGBTQI+, onde eles se sentem mais à vontade para viver experiências e mais acolhidos pelas pessoas. No Brasil, os destinos mais procurados são as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, onde há bares, hotéis, casas de shows LGBTQI-friendly, ou seja, são locais que focam na clientela da comunidade e se comprometem a recepcionar e acolher da melhor maneira essa freguesia.

Marsha P. Johnson. [Imagem: Wikimedia Commons]

Marsha P. Johnson. [Imagem: Wikimedia Commons]

Também há datas especiais e eventos que buscam atrair a comunidade e, consequentemente, o pink money. Comemorações como as paradas, nas quais a comunidade sai em defesa de seus direitos, movimentos que se iniciaram com as organizadoras Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, na década de 1970 nos Estados Unidos. Hoje o maior exemplo é a Parada Orgulho LGBTQI+ de São Paulo, considerada a maior do mundo. Todo ano atrai milhões de turistas que manifestam, festejam e movimentam cerca de R$ 400 milhões para o município

Além disso, os eventos trazem outros benefícios, aos quais os poderes públicos devem estar atentos, não apenas em datas específicas. Ricardo descreve que qualquer governo que seja responsável com a geração de renda, empregos e divisas a partir do turismo deveria trabalhar o turismo LGBTQI+ como prioritário, porque ele é a forma mais rápida de arrecadação de fomento de emprego e de negócios.

Parada Orgulho LGBTQI+. [Imagem: Flickr]

Parada Orgulho LGBTQI+. [Imagem: Flickr]

 

Universo da música: entre aliados e oportunistas

A arte é um meio para expressar os sentimentos e as ideias que defendem. A comunidade LGBTQI+ faz o mesmo uso da arte, uma maneira de expressão do ser livre. Manifesta-se por todas as sete artes.

Nesse sentido, muitas pessoas do meio artístico, principalmente da cultura pop, levantam a bandeira LGBTQI+ para defender as causas e direitos da comunidade através da arte. Dois exemplos de artistas são Lady Gaga e Cindy Lauper. Gaga criou a fundação Born This Way, uma organização sem fins lucrativos que visa cuidar da saúde mental dos jovens LGBTQI+. Já Lauper fundou a ONG True For Colors, que ensina as pessoas sobre questões de gênero e busca erradicar a falta de moradia entre adolescentes LGBTQI+.

No Brasil, há vários artistas em destaque que levantam e defendem as causas LGBTQI+ e cuja maior parcela de fãs pertence à comunidade. Pabllo Vittar, por exemplo, alavancou a carreira, principalmente, devido aos fãs LGBTQI+. Assim conseguiu várias conquistas, como ser a primeira drag queen a ganhar o prêmio de “Melhor Artista Brasileira” no MTV EMA (Europe Music Awards).

Entretanto, muitos artistas aproveitam esse nicho de mercado poderoso e utilizam as causas da comunidade de maneira oportunista, com enfoque no lucro. Como foi a polêmica do clipe Me Solta, do Nego do Borel, heterossexual. O cantor cria a personagem Nega da Borelli, com figurino de estética de travesti, e beija um homem no clipe, com a intenção de levar mais visibilidade à comunidade. Porém, várias pessoas LGBTQI+ apontaram que o cantor poderia ter representado melhor se colocasse de fato alguém da comunidade e não o próprio cantor hétero retratando alguém que não é. Além disso, Nego do Borel teve atitudes LGBTQI+fóbicas, como a ofensa no Instagram à travesti Luísa Marilac, ao chamá-la de homem. Também já foi acusado de apoiar políticos com históricos de preconceito. A comunidade LGBTQI+ condenou essas atitudes, muitos o chamaram de oportunista, visto que levantou a bandeira da comunidade no clipe, mas os atos o contradizem. Assim, o cantor perdeu, de certa forma, credibilidade.

Clipe de Me Solta de Nego do Borel. [Imagem: Reprodução/YouTube]

Clipe de Me Solta de Nego do Borel. [Imagem: Reprodução/YouTube]

 

Indústria audiovisual: inclusiva ou conveniente?

Já faz alguns anos que a indústria cinematográfica aumentou o conteúdo de filmes com temática LGBTQI+. Mesmo assim, a parcela de personagens que representam a comunidade ainda é pequena. Conforme o levantamento do índice de Responsabilidade dos Estúdios, divulgado pelo grupo de defesa de gays e transgêneros Glaad, dos 109 lançamentos dos sete maiores estúdios em 2017, apenas 14 incluíram personagens LGBTQI+, o que representa apenas 12,8%

Além de poucos personagens, é importante analisar de que maneira eles são retratados no cinema. Muitas vezes esses personagens não são os principais e estereotipam a comunidade. Em entrevista ao Sala33, o cineasta e youtuber do canal Transcendendo, Gael Jardim, faz uma análise de que o estereótipo não representa a realidade de milhões de pessoas LGBTQI+ e afeta os membros da comunidade porque são caricaturados, e faz com que a sociedade generalize e coloque um grupo à margem e vidas em risco.

Em muitos filmes e séries, quando há algum personagem da comunidade LGBTQI+, frequentemente essa figura é atrelada a um roteiro que envolve sua orientação sexual e raramente outra temática. O cineasta entende que apenas o que a sociedade cisheteronormativa imagina para uma pessoa LGBTQI+ é o que costuma ser roteirizado.

Não só há falta de personagens, mas também de atores que pertencem à  comunidade, principalmente os trans. Gael explica o motivo dessa  marginalização: “As produções com pessoas trans não são nada comparadas à quantidade de filmes produzidos por e para pessoas cisgêneros. E quando se acha acervos sobre transexualidade, a maioria não contempla, por não serem feitas por pessoas trans, por reforçar estereótipos, por simular sempre situações de sofrimento e dor, como se a vida de todas as pessoas trans fossem as mesmas. Que tipo de estatística as produções se baseiam para determinar por exemplo que toda pessoa LGBTQI+ é expulsa de casa? E em grandes produções isso acontece o tempo inteiro, fazendo com que um grupo continue marginalizado, mesmo havendo mais do que as qualificações necessárias em alguns casos e acabam por interpretar um papel menor sempre”.

Já no mainstream há diferenças da tradicional Hollywood, como Gael demonstra: “A Academia continua sendo um reflexo de anos de uma hegemonia branca, cisgênero e heterossexual, só que hoje com uma grande diferença, da obrigação de ter que acompanhar a realidade mundial. Com as plataformas digitais cada vez mais necessárias para a comunicação da humanidade, os grupos que são para a sociedade ‘minorias’ mostram suas forças e nada mais fica despercebido. Com a mudança de exibição através do streaming, quem consome quer cada vez mais se ver representado e com isso terá cada vez menos espaço para oportunismos”.

A Netflix é um exemplo de plataforma que busca maior visibilidade à comunidade. Conforme a pesquisa da Glaad, 85% dos brasileiros LGBTQI+ sentem que a plataforma ajudou a gerar mais compreensão sobre o tema em suas famílias. 

Já outras produtoras, como a BBC, na série Sherlock, que têm sido acusadas de aplicar o queerbaiting, uma estratégia da indústria do entretenimento para atrair o público LGBTQI+. O mecanismo implica em criar uma tensão sexual entre personagens, no caso, Sherlock e John, de maneira sutil, para não desagradar o público mais conservador. Essa tática foi utilizada pois as últimas temporadas foram mal avaliadas. Mesmo assim, vários fãs perceberam a tática, já que não foi construída a tensão desde o início da série.

Queerbaiting, uma estratégia que se aproveita do pink money. [Imagem: Divulgação/Netflix]

Queerbaiting. [Imagem: Divulgação/Netflix]

 

Marcas e a cultura do “cancelamento”

Diversas marcas observam o nicho de mercado LGBTQI+ e procuram atrair esses consumidores. Skol, Doritos e Burger King são grandes exemplos de marcas que apoiam as causas LGBTQI+, promovem campanhas publicitárias e fazem doações para projetos que ajudam a comunidade. Conforme a publicitária e youtuber do canal Sapatão Amiga, Ana Claudino, os clientes que pertencem a essa comunidade são mais críticos e observam os posicionamentos das marcas durante o ano inteiro. “Não só em junho”, completa Ana referindo-se ao mês que se comemora o Orgulho LGBTQI+.

Entretanto, em sua maioria, as empresas acabam focando a representação publicitária para homens homossexuais brancos de classe média. Ana Claudino comenta que a comunidade está nessa luta para mostrar que existem outras vivências da sigla e que cada letra da sigla representa um grupo com uma demanda específica. Ela conclui: “Tem que colocar outras narrativas”.

Diversidade também deve fazer parte da estrutura da empresa. A publicitária analisa que não adianta colocar apenas uma pessoa LGBTQI+ para trabalhar na campanha, deve haver pessoas do coletivo trabalhando dentro da companhia e ocupando cargos de liderança. Dessa maneira, a empresa irá demonstrar de fato o empenho de defesa das demandas da comunidade.

De olho nas políticas de diversidade e nos posicionamentos perante a atos LGBTQI+fóbicos das empresas, a cultura do “cancelamento” tornou-se uma prática mais crescente, sobretudo, nas redes sociais, pela comunidade. O “cancelamento” é o boicote de marcas ou celebridades que se denominam apoiadores das causas da comunidade, mas não se posicionam quando há uma repercussão de ato preconceituoso. Isto é, as marcas aplicam o pinkwashinguso de discurso favorável à comunidade LGBTQI+ como estratégia de marketing mas não fazem nada na prática, visando o pink money. A publicitária faz esse apontamento: “É importante criticar marcas que reproduzem o pensamento e atos preconceituosos. Nós não vamos dar dinheiro para marcas que têm alinhamento com pensamento que lutamos contra”.

 

Mais diversidade nas empresas gera mais benefícios

A política de diversidade de empresas e um mercado de trabalho de LGBTQI+ maior podem trazer vários benefícios, principalmente econômicos, aos negócios. Ricardo Salles, consultor de diversidade e pesquisador da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), observa que um ambiente mais diverso é mais inovador e criativo, ele tem taxas de engajamento maiores porque há ali uma pluralidade de pessoas pensando em soluções e alternativas para os problemas que se colocam. Para as corporações é vantajoso, pois elas têm a sociedade representada ali dentro por um grupo diverso. “Ele é mais capaz de se antecipar às demandas”, conclui Ricardo.

Conforme o consultor, uma empresa mais diversificada e plural possui um ambiente inclusivo e um espaço de segurança psicológica, onde as pessoas sentem que elas podem se elevar por inteiras. Isso, além de fundamental do ponto de vista socioemocional, é importante também porque vai garantir um engajamento e uma identificação maiores com a organização. “É um lugar que pode tanto reforçar estereótipos e ideias equivocadas como fazer o contrário disso tudo, no sentido de dar espaço e voz para narrativas, que possam inspirar as pessoas, do ponto de vista que seja bastante transformador”, afirma Ricardo.

Muitas pessoas da comunidade não se sentem confortáveis onde trabalham, devido a fatores que vão desde o comportamento dos colegas e chefes preconceituosos até os detalhes como um crachá sem o nome social e a desconstrução da placa do toalete por gênero. Há um estudo feito pela consultoria Santo Caos, “Demitindo Preconceitos”, que revela dados preocupantes das empresas brasileiras.

Infográfico sobre pink money. [Imagem: Jorge Fofano/Jornalismo Júnior]

Para melhor transformar realmente o corpo de funcionários e a política da empresa é necessário aplicar algumas medidas. Ricardo explica que é necessário investimento para capacitar as pessoas e a realização de pesquisas a fim de incentivar o debate. “É fundamental esse envolvimento de liderança em torno da crença de que a diversidade e inclusão são caminhos importantes para aquela organização”.

Assim, se aumenta o engajamento das empresas por diversidade de maneira consistente e ética, o poder aquisitivo da comunidade também cresce. Dessa maneira, amplia-se o movimento econômico, favorece tanto as empresas como a comunidade. Ao defender as causas LGBTQI+ pela economia, será mais fácil influenciar a sociedade como um todo para valorizar e respeitar a comunidade.

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*