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Quanto custa o seu prazer?

Pornografia: como essa indústria bilionária impacta negativamente a vida das pessoas

JPRESS
11 set 2020 | Por Por Natalia Nora Marques (natalianoramarques@usp.br)

[Alerta de gatilho: esse texto contém relatos de violência física e psicológica, abuso sexual, e prostituição. Não leia se for um tema sensível para você]

Maddy Perez, personagem da série Euphoria da HBO, participava de concursos de beleza desde criança: ela gostava de ser vista, de chamar atenção e da ideia de ser como as mulheres que sua mãe atendia no salão de beleza. Quando cresceu, Maddy tinha um plano traçado: ela agradaria ao homem que pudesse lhe proporcionar a vida que desejava. Para isso, ela seria a namorada perfeita, faria tudo da forma que ele quisesse, inclusive no sexo. A série mostra que, para aprender a performar durante as relações, ela se inspirou na pornografia. Por mais que este seja um exemplo da ficção, a situação é presente na vida de muitas pessoas que, mesmo inconscientemente, aprenderam a reproduzir os padrões do pornô.

Alexa Demie e Jacob Elordi

Alexa Demie e Jacob Elordi, que interpretam respectivamente Maddy e Nate em Euphoria [Imagem: Reprodução/ Instagram kirinrider]

 

Sexualidade no Brasil

Durante o período colonial no Brasil, a Igreja Católica enfrentava sérios problemas de perda de adeptos na Europa para as religiões protestantes. Para resistir a essa batalha, a instituição passou por uma reforma que endureceu suas normas para a sociedade. Houve, na época, o surgimento de uma lista de livros proibidos, a reorganização do Tribunal do Santo Ofício, também conhecido como Inquisição, e a criação da Companhia de Jesus. Tal companhia foi uma solução para a manutenção do número de adeptos da religião, já que era responsável pela disseminação do catolicismo no Novo Mundo.

Como Portugal era um país extremamente católico, a Igreja encontrou no Brasil um terreno muito fértil para se expandir, e o sucesso dessa expansão pode ser visto no povo brasileiro, que até os dias de hoje é majoritariamente cristão. Dessa forma foi moldada a moralidade da época que, segundo a historiadora Luanna Jales, “era tão ferrenha que fez com que o sexo fosse pintado como um pecado extremo”. A forma com que a Igreja Católica tratava o sexo não mudou muito desde então, a visão que se tinha era de sujeira, necessidade de procriação acima do prazer e de que era permitido apenas dentro do casamento. 

Porém, no início da colonização, vieram apenas os homens de Portugal para o Brasil. Suas esposas permaneceram na terra natal, e eles se depararam com o contraste entre sua forma de pensar e a forma com que os indígenas lidavam com questões sexuais e corporais. Ao mesmo tempo em que ocorreu um choque por parte dos colonizadores, eles se aproveitaram desse modo de vida dos povos nativos pelos quais se sentiam atraídos. Esses portugueses pregavam a pureza, o respeito ao casamento e o sexo para a procriação, mas se comportavam de maneira bastante diferente. Luana explica que o molde da família tradicional brasileira na época “era um português amancebado com algumas escravizadas, tanto indígenas quanto africanas, ou até com indígenas livres, mas ilegítimos de qualquer forma”. Mais do que simplesmente romper com a fidelidade matrimonial, eles estupravam muitas dessas mulheres, algo que a Igreja Católica nunca fez questão de punir.

O tabu em relação à sexualidade não melhorou com a vinda das famílias legítimas daqueles portugueses e as esposas foram punidas com a moralidade cristã. Elas não tinham acesso ao próprio corpo, eram cercadas pelas questões de casamento e virgindade, e até mesmo os banhos eram um tabu, como explica Luanna. A relação dos povos indígenas com a sexualidade era completamente diferente, mas também foi reprimida pela colonização, que impôs sua forma de pensar aos nativos.

Apesar de todas as repressões à sexualidade que foram vistas no Brasil e que perduram até hoje, em meados dos anos 1960 surgiu um gênero cinematográfico que fez muito sucesso no cinema nacional, a pornochanchada. Esse tipo de filme misturava a comédia e o erotismo, não havia uma grande preocupação com roteiro ou profundidade dos personagens, mas sim uma comicidade rasa com a exibição do corpo nu. Esse gênero foi o tema do artigo científico de Giovana Floriano, estudante de jornalismo, que relata a “discrepância entre repressão e liberação sexual”, já que o auge da pornochanchada coincidiu com o período da ditadura militar. Para Giovana, esse gênero foi o pontapé para a indústria pornográfica no Brasil.

A Dama da Lotação

A Dama da Lotação [Imagem: Reprodução/ Adoro Cinema]

Mesmo com o sucesso de bilheteria que a pornochanchada tinha, Luanna explica que a aceitação da sociedade não era tão grande. Esse tipo de entretenimento era considerado “uma deturpação, uma imoralidade” por parte das pessoas, “ou seja, sempre houve uma reação contra”. O que acontece, porém, é que essa reação era cercada de hipocrisia, pois assim como os portugueses que pregavam o cristianismo agiam contra seus dogmas, a sociedade conservadora se mostrava contra o erotismo, mas não deixava de consumir.

O fim da pornochanchada, como explica Giovana, se deu com a popularização da “pornografia mainstream”, que começou principalmente nos EUA e de certa forma “dominou, subjugou os conteúdos eróticos audiovisuais de outros países e acabou se tornando um modelo a ser seguido”. Com a internet, houve uma revolução: o que antes só era exibido em cinemas e alguns canais de televisão, pode agora ser acessado livremente, o que tornou a indústria pornográfica extremamente difundida. Atualmente os sites pornográficos estão entre os mais acessados de toda a internet, tendo mais visitas que os sites da Amazon, Netflix e Twitter juntos.

 

Educação sexual

Com a influência da mentalidade cristã e do conservadorismo muito presentes no Brasil, é comum encontrar pessoas que se posicionam contra a educação sexual nas escolas. Entre os argumentos utilizados, há a ideia de que ensinar sobre sexualidade acarreta na sexualização infantil. Sobre o tema, Luanna disse que, da forma com que a onda conservadora está lidando com as questões no Brasil, “daqui a pouco vão achar que educação sexual é ensinar pornografia, quer dizer, já acham isso”. Apesar de ser uma espécie de senso comum, isso não é verdade. A ONU (Organização das Nações Unidas), por exemplo, é favorável à implementação de uma disciplina escolar para orientar crianças e adolescentes a respeito de questões que envolvem seus corpos. 

A idade dos alunos é levada em consideração para decidir quais são os temas abordados e o consentimento é um conceito muito importante para que as crianças saibam que determinadas partes de seus corpos não devem ser tocadas por outras pessoas. A noção dos limites que se deve ter com o próprio corpo e com corpos alheios permite que, caso a criança venha a sofrer algum abuso, ela saiba que deve comunicar alguém.

Em um formulário anônimo, divulgado em grupos de Whatsapp compostos majoritariamente por jovens, a palavra “tabu” foi uma das mais utilizadas para se referir à forma com que a escola tratou o tema da sexualidade. Há, também, diversos relatos de escolas que não abordaram o tema em momento algum, ou que apenas trataram de questões reprodutivas, sem considerar o sexo como um componente da vida dos estudantes. Além do alerta para a gravidez e transmissão de ISTs, as escolas poderiam agir como um espaço de tirar as dúvidas dos alunos para que eles possam recorrer a profissionais responsáveis em vez de aprender com a internet e a pornografia, que podem ter conteúdos prejudiciais para os jovens.

Mas por que a escola deveria ser esse espaço de aprendizado e descoberta sobre o corpo e a sexualidade? Muitas pessoas defendem que falar sobre sexo é da responsabilidade das famílias, mas isso não garante que todas tenham conversas a respeito por conta do tabu que envolve o tema. A ONU considera que educação sexual é importante para a promoção dos direitos humanos, portanto deveria ser garantida pelos países, e não delegada para os pais ou responsáveis. Além do fato de que alguns pais não tratariam do tema, algo ainda mais perigoso pode acontecer: segundo os dados do Ministério dos Direitos Humanos, em 2019 cerca de 90% dos casos de abuso sexual infantil foram cometidos por familiares próximos, sendo que 70% envolviam pais, padrastos ou mães. Se a denúncia já é bastante difícil de ser feita por parte da criança, fica ainda pior quando ela é abusada por seus próprios pais e não entende por que isso é errado.

educação sexual

Foi dessa forma que Vanessa Danieli, atualmente youtuber, foi levada à prostituição e posteriormente à pornografia. Um de seus familiares abusou sexualmente dela quando ainda era muito nova, e depois disso ele fez com que ela acreditasse que “só servia para aquilo”, como contou Vanessa. Diferentemente do que muitas pessoas pensam ao consumir pornografia, aquelas que estão participando da cena não estão ali porque querem, mas por necessidade. Vanessa conta que a pornografia se mostrava como uma oportunidade de “ganhar uma grana, mas fazer menos sexo”, pois a vida na prostituição fazia com que ela sofresse mais. Ela passou a produzir diversos conteúdos adultos dos quais não se lembra com precisão “por causa da quantidade de Rivotril [remédio receitado para tratamento de ansiedade, humor e síndromes psicóticas] que eu passei a tomar quando descobri que era bom para depressão, então meio que destruiu minha memória”. Esses conteúdos estão na internet e podem ser acessados por qualquer pessoa, inclusive por pré-adolescentes.

Existem pais que acreditam que, caso conversem com seus filhos sobre sexo, estarão induzindo a prática ou busca  na internet, e assim poderão encontrar a pornografia. O que acontece, segundo estudo canadense, é o oposto: quanto mais informados os adolescentes são a respeito da sexualidade, mais tarde eles iniciam suas experiências sexuais. Mas, quando não existe uma abordagem, a busca por conhecimentos na internet é a solução. No resultado do formulário citado anteriormente, quase 80% dos 270 jovens afirmaram ter se educado sexualmente pela internet, e essa busca pode levar a conteúdos importantes e responsáveis, ou para “vídeos pornográficos traumatizantes”, como contou Isabella*.

A jovem tinha entre 8 e 9 anos quando teve seu primeiro contato com um vídeo pornográfico, e isso ocorreu por influência de colegas de escola. Ela disse que tinha ido para uma escola nova em que as crianças eram “bem precoces”, e mesmo com essa idade já sabiam o que era sexo e falavam sobre isso. Como Isabella não tinha entendido muito bem quando uma colega explicou o que era, ela resolveu recorrer à internet. “Eu cheguei em casa e joguei no Google ‘vídeos de sexo’, e cliquei no primeiro link que apareceu. Logo que abriu a página eu já fiquei traumatizada”. Ela contou que não esperava ver uma coisa tão forte com essa idade e nunca mais sentiu vontade de assistir pornô. 

Falar de sexo com os filhos não parece levar adolescentes ao consumo pornográfico – apenas 41% dos jovens que responderam o formulário afirmaram ter buscado a pornografia intencionalmente. A maior parte, 54%, teve seu primeiro contato acidentalmente, como uma garota que disse ter cerca de 6 anos quando isso aconteceu.

Gráfico indústria pornográfica

Gráfico resultado do formulário do Google

A questão da comparação entre a pornografia e o sexo na vida real foi bastante citada pelos jovens. Isabella comentou que nos vídeos o prazer do homem é supervalorizado, “acontece só essa penetração constante e forte até que o homem goze e aí acabou o vídeo” e contou como isso se refletiu na sua vida sexual: “eu já cheguei a achar que é isso na vida real também. No meu primeiro relacionamento, inclusive, eu achava que tava ali pra satisfazer o cara, ele gozava e o sexo acabava ali mesmo”. A personagem Maddy foi mostrada copiando e treinando a forma como as atrizes pornô se comportavam durante o sexo e, por mais que isso pareça artificial, aprender a reproduzir os padrões encontrados nesses filmes pode acontecer de forma inconsciente.

 

Autoestima e padrão de beleza

Os padrões de beleza estão em todas as mídias e no pornô não seria diferente. Além das comparações entre seus corpos e os de celebridades, pelas quais principalmente mulheres passam, a pornografia acaba por intensificar essa insegurança. As mulheres mais representadas na mídia têm corpos dentro do padrão, o que provoca baixa autoestima em muitas das espectadoras. Desde os 4 anos meninas já se sentem insatisfeitas com seus corpos – mais especificamente 38% delas –, segundo a organização australiana Pretty Foundation. Essa taxa só aumenta com o passar do tempo, como constata uma pesquisa realizada pela UFRGS, entre os 8 e 10 anos ela chega a 82%.

Além da tradicional magreza, do corpo branco e dos traços finos, que são valorizados na mídia, na pornografia são criadas várias outras exigências para os corpos femininos. Isabella aponta a questão da cor dos mamilos e genitais, que precisam ser claros para serem considerados bonitos. A depilação também é outra exigência lembrada pela jovem: o que fora do Brasil é chamado de “brazilian wax” é a depilação total da região íntima, muito comum aqui, mas não tanto em outros países. 

A questão dos pelos nem sempre foi assim, o padrão de beleza muda conforme o local e a época e a depilação completa da vulva é algo recente. A ideia de que mulheres adultas têm pelos era bastante comum até pouco tempo, e isso era considerado atraente nelas. Por isso os anjos da Igreja Católica eram retratados sem pelos, para não serem sexualizados, como explicou Luanna, que acredita haver uma relação entre a infantilização dos corpos e o histórico dos casamentos com meninas menores de idade no Brasil.

Seios e glúteos também têm exigências rigorosas, flacidez e estrias não são aceitas, celulites também não, precisam ser grandes e firmes. Na indústria pornográfica o silicone é muito comum e Vanessa conta a cobrança de colocar silicone para que seus vídeos vendessem mais. Nos seios ela se recusou a colocar, mas para aumentar os glúteos ela recorreu a um procedimento muito perigoso. “Eu coloquei silicone industrial na bunda, eu nem sabia o que era, só falaram onde eu podia ir, a mulher me riscou com lápis de olho, foi sem anestesia, sem nada, foi punk”. 

Depois de cerca de um ano, vieram as consequências do procedimento, o silicone começou a necrosar e ela precisou fazer um cirurgia de raspagem para se livrar do material que deixou sequelas em seu corpo. Vanessa disse que a ideia de que precisava alterar seu corpo foi uma imposição masculina, “hoje eu sei que a sociedade é patriarcal”, e mesmo não sabendo disso na época, reconhece que sua autoestima “era baseada no que vendia”.

Vanessa Danieli [Imagem: Arquivo pessoal]

Outros fatores muito importantes na indústria eram não ter tatuagens nem cabelo colorido, pois “loira sempre vendeu mais”, segundo Vanessa. Mas ela insistia em manter seu gosto pessoal pelos cabelos diferentes e tatuagens, o que desagradava muitos produtores. “Você quer gravar comigo? Vai ser assim” dizia a ex-atriz. Todos esses fatores impactam na autoestima de quem faz parte dessa indústria e de quem consome. As comparações sempre deixaram Isabella insegura, ela conta que seu primeiro namorado consumia pornografia e mesmo depois desse relacionamento o pensamento de que “ninguém vai me querer” apareceu outras vezes. Ela disse que chegou a se olhar no espelho e pensar “eu não sou nem metade disso, eu sou feia porque o bonito é aquilo” quando se comparava com as mulheres do pornô. A jovem imaginava que para ser atraente para um garoto que assiste à pornografia, ela precisaria ser parecida com as mulheres que ele via, porque “se é aquilo que ele assiste, é aquilo que ele vai buscar em uma mulher na sociedade”.

 

Diversidade

A comunidade LGBTQIA+ sofre muita discriminação na sociedade brasileira. Esse é o país que mais mata pessoas trans no mundo, mas, segundo os dados divulgados pelo PornHub, esse foi um dos termos mais pesquisados no Brasil, o que demonstra uma contradição entre o discurso e a atitude da nossa sociedade. 

Os povos indígenas brasileiros tinham uma forma de lidar com a sexualidade que envolvia muito menos tabus, e isso se enquadra na aceitação de relações não heterossexuais. Luanna conta que alguns desses povos possuíam até mesmo termos para se referir a casais homoafetivos, e “eles desempenhavam as funções assim como o restante do grupo”, mostrando que não havia essa discriminação trazida pela cultura cristã. Camila Rodrigues, estudante de jornalismo que estudou a sexualidade e preconceito para um artigo científico, explica que já havia entre alguns povos indígenas, na época da colonização, a noção e aceitação da transsexualidade. “Em alguns lugares da América do Norte os transsexuais eram um terceiro espírito” disse Camila, visão que não correspondia com a dos colonizadores europeus que corromperam a sexualidade dos indígenas. 

A sigla T é uma das mais afetadas pela violência na sociedade, pela dificuldade de encontrar empregos, pelo preconceito que tira muitas pessoas trans dos espaços de aprendizado, e o trabalho sexual acaba sendo uma das únicas opções para elas. Existe muito fetiche no mesmo lugar em que há essa discriminação e agressão, o que gera ainda mais estigmatização e marginalização da comunidade trans, que cresce sem representatividade e perspectiva de ter um futuro que não envolva trabalhos sexuais.

Já a difusão da ideia de que relações homossexuais eram inaceitáveis teve bastante influência da Igreja, que em vez de punir as agressões contra mulheres, por exemplo, perseguia as pessoas que se relacionavam com outras do mesmo sexo. Luanna explica que “a moral judaico-cristã, que é a moral que construiu a base da família tradicional brasileira, não condenava essas violências pois ela tinha uma outra agenda para lutar contra”, e essa agenda era justamente a homossexualidade.

A violência sofrida por essa comunidade torna mais difícil a autoaceitação e o entendimento da própria sexualidade. Victoria Fiori, estudante de jornalismo que também pesquisou sobre a indústria pornográfica para um artigo científico, disse que da mesma forma com que a sociedade trata essa comunidade, isso se reproduz no pornô. É comum que pessoas neguem sua sexualidade por conta da repressão a tudo que não se encaixa na heteronormatividade, o que pode gerar frustração ou ódio para com a própria comunidade. Victória completou dizendo que “a relação da comunidade LGBT com a pornografia é de violência, até mais física do que as outras”.

 

Abusos, traumas e a reprodução da violência

O namorado de Maddy na série, Nate Jacobs, é um exemplo da reprodução dos padrões de violência dos conteúdos pornográficos. Acostumado com filmes em que homens enforcam mulheres durante o sexo, ele repete isso em suas relações, sem se importar com o que a outra pessoa sente, seja prazer ou dor. O resultado do formulário já citado mostra que 94% das pessoas acreditam que a violência no pornô pode gerar violência durante o sexo na vida real, e a vítima dessa violência na maioria dos vídeos é a mulher. Segundo a organização Culture Reframed, 88% dos conteúdos mais acessados e baixados contém cenas de violência contra mulheres. 

Gráfico resultado do formulário do Google

Dentro do mundo da prostituição e da pornografia, Vanessa desenvolveu alguns problemas psicológicos. Como ela conta: “eu adquiri sexofobia, que é quando você tem medo do sexo oposto, mas de modo geral”. Ela explica que não pode ser atendida por homens, seja por um médico, um psicólogo ou mesmo em uma loja de calçados. “Eu fiz pornô de fetiche, e existe a podolatria, então eu vou achar que o homem que está me atendendo está se excitando com o meu pé”. Esse trauma de Vanessa se deve aos ambientes em que teve que trabalhar, que ela descreve como sendo muitas vezes precários. Ela conta que toda a glamourização que se tem em volta da pornografia não corresponde com a realidade, muitas das gravações eram feitas em casas alugadas com muitos quartos para várias cenas serem gravadas ao mesmo tempo. Também é comum que elas aconteçam em motéis, sítios ou mesmo oficinas, que Vanessa descreve como lugares muito sujos. A noção de higiene nem sempre é das melhores, ela conta que “tem casas que eles alugam que nem trocam os lençóis da cama, é sujo, eles usam camisinha de posto, o gel lubrificante é o mesmo para todo mundo”. 

O que pode acontecer durante a produção da pornografia varia no quesito dos danos físicos; Vanessa já sofreu lesões durante uma gravação. “Eu tenho hemorroida interna, descobri isso da pior maneira possível, indo pro hospital”, e mesmo depois desse caso ela continuou na indústria por necessidades financeiras. Quando produtores falavam com ela sobre o contrato, eles ainda insistiam que ela fizesse sexo anal na cena, mesmo sabendo o que isso causaria. Para “compensar” o fato de que ela tinha se recusado, seu cachê caía pela metade quando a cena era para o site Brasileirinhas, e para outros produtores, a exigência era que ela fizesse uma cena extra de sexo lésbico.

A expectativa de vida das atrizes pornô é extremamente baixa – 36 anos – e essa era a perspectiva de Vanessa quando estava na indústria. Ela contou que não tinha educação financeira e que não via a necessidade de guardar dinheiro, “eu achava que ia morrer aos 30 anos, por que eu ia juntar dinheiro? Por que eu ia comprar uma casa? Por que eu ia estudar?”. Quando estava no meio pornográfico, Vanessa disse que não tinha coragem de consumir nada que oferecessem nas gravações, “as meninas se drogavam para ficar mais suscetíveis, eu não tomava nem água”. O medo que ela desenvolveu ao longo do tempo trabalhando com sexo é tratado com terapia, mas as marcas psicológicas demoram para se curar. Depois de sair do meio, Vanessa começou a estudar, mas conta que levou meses até que seus colegas da faculdade pudessem ver a cor dos seus cabelos ou suas tatuagens. 

Até hoje a youtuber não se sente confortável ao sair na rua, “antes do pornô eu era mais feliz, eu saía na rua, eu não tinha medo”. Ela disse que quando precisa utilizar transporte público veste roupas muito largas, compridas e que mostrem o mínimo possível seu corpo. Os calçados também não são mais os mesmos, ela não mostra os pés por conta do medo e dos comentários. “No instagram eu tenho que cortar todas as fotos em que aparece meu pé e ficar bloqueando os comentários de gente pedindo foto dele”. 

Danos físicos também são muito comuns no meio pornográfico. Gabriela Henrique, estudante de jornalismo que também pesquisou sobre a indústria pornografica para um artigo científico, lembrou o caso de uma camgirl –  mulher que recebe pelo tempo que a pessoa passa em uma chamada de vídeo com ela – que passou muito tempo utilizando um vibrador e teve lesões em sua genital. No documentário Hot Girls Wanted (2015) é possível perceber a diferença entre a animação das garotas antes e depois de suas primeiras gravações. A princípio existe uma alegria, a ideia de ganhar dinheiro rapidamente e de fazer uma coisa “fácil”, depois isso é substituído por uma sensação de estranhamento, elas se mostram menos alegres e contam que não foi como esperavam. Uma das garotas do documentário inclusive conta que foi gravar uma cena e quando chegou no local foi forçada a fazer mais do que havia sido combinado. Ela disse, nesse momento, que sentiu o que uma vítima de estupro sentia. Essa garota não percebeu, mas foi sim estuprada.

A cultura do estupro no Brasil tende a culpar a vítima sempre, as roupas tornam-se desculpas para justificar a atitude do estuprador, assim como o local, o horário, o fato de estar sozinha entre vários outros fatores. Quando uma mulher que não trabalha com sexo denuncia uma violência ela é desacreditada, mas uma mulher que trabalha no meio pornográfico muitas vezes nem entende que pode sofrer agressões. O pornô ensina que a submissão é a única opção das mulheres, que os parceiros devem sempre ser satisfeitos e que reclamar não é permitido. Essa forma de lidar com a violência contra a mulher não é recente e tem forte ligação com as tradições religiosas que formaram a sociedade patriarcal brasileira. Luanna explica que a Igreja foi uma das responsáveis por colocar a culpa na mulher que foi violentada e “por ela colocar o pecado, a culpa, esse peso, essa vergonha em cima da mulher, e não do homem, isso com certeza afeta a visão que as pessoas têm do estupro”.

 

Quem lucra 

Na conversa com Vanessa, ela contou sobre a “era de ouro” do pornô, e disse que entrou no que chamou de “era podre” da indústria, em que a internet já existia e a ideia de ganhar dinheiro facilmente já era bastante ilusória. No início da indústria pornográfica, os produtos eram vendidos diretamente para os consumidores, a maior parte, senão toda a pornografia era cobrada. Filmes, revistas, canais por assinatura eram os meios mais comuns de se consumir pornô. Com a internet, o acesso gratuito e facilitado do pornô modificou a forma com a qual essa indústria ganha. Mas como é possível lucrar com a exibição gratuita de filmes e vídeos? Essa pergunta se assemelha bastante à forma do YouTube de trabalhar, conteúdos diversos, publicados por qualquer pessoa, que recebem milhares ou milhões de acessos ao longo do tempo e que movimentam muito dinheiro.

Os anúncios são a forma mais comum de um site monetizar, e os sites pornográficos são cheios deles, que geralmente levam o espectador para outro site pornô ou para sites de camgirls – esses últimos costumam cobrar por um conteúdo considerado exclusivo. Pode até parecer que isso não seja tão rentável, mas um dos mais populares sites pornográficos, o PornHub, teve uma média de 115 milhões de acessos diariamente em 2019 e os números só aumentam neste período de isolamento social. Mas além dos anunciantes, quem contribui para essa indústria bilionária são os assinantes. Assim como as plataformas de streaming estão crescendo e atingindo cada vez mais pessoas, os sites pornô oferecem conteúdos exclusivos por assinaturas mensais, novamente com um lucro crescente durante a pandemia. No início da quarentena, em alguns locais do Brasil, em março, o site Brasileirinhas chegou a dobrar o número de assinaturas diárias, enquanto a plataforma Sexy Hot teve um aumento de 25% no número de usuários.

 


Que parte desses bilhões lucrados vai para as atrizes? A menor parte possível, Vanessa contou que durante a “era de ouro” o que se recebia por um filme chegava ao valor de um carro, mas que os produtores, sabendo da necessidade financeira de muitas atrizes, oferecem muito pouco. “As pessoas acham que atriz pornô é rica, mas é mentira, eu já vi menina gravando por um lanche com Coca-Cola, eu já vi menina gravar por promessa de que as próximas seriam muito bem pagas”. As atrizes também passam pouco tempo na indústria, se a entrada foi aos 18 anos, o que estaria dentro da lei, em alguns meses ou poucos anos ela já não é mais atraente para a pornografia.

O quanto essas atrizes com mais de 20 anos recebem também diminui, assim como as que possuem características com menor demanda. Segundo Vanessa, os produtores conseguem ganhar mais dinheiro, eles gravam cenas com várias atrizes diferentes e como sua idade e aparência não os impede de trabalhar podem passar muito tempo no ramo. Ela conta que o produtor pode colocar qualquer vídeo em sites pornográficos e receber uma parte do dinheiro dos acessos, “é parecido com o YouTube”.

Outra categoria que é muito encontrada na pornografia é a das camgirls. Durante a chamada o que pode acontecer varia bastante, mas os conteúdos de exibição sexual são muito comuns. Os sites que hospedam essas “salas” cobram uma taxa das camgirls, um dos mais famosos, o Camera Prive, chega a cobrar 50% do valor recebido, como explica Bianca Dias, estudante de jornalismo que estudou a uberização do pornô para um artigo científico. Essa comparação das camgirls com os profissionais de aplicativos se dá pela “falta de vínculo empregatício, então caso alguma coisa aconteça com essas mulheres a responsabilidade é delas”. Bianca ainda explica que esses sites funcionam baseados nas avaliações de usuários e rankings entre as camgirls, além de terem mecanismos que fazem com que seja necessário um alto número de horas trabalhadas para que o valor recebido seja o esperado por quem começa a trabalhar com isso.

 

Pornografia feminista?

O termo “pornografia feminista” vem sendo usado com maior frequência nos últimos anos, mas essa forma de se fazer pornô tem uma origem antiga, como explicou Pamela Brito, estudante de jornalismo que também estudou a indústria pornográfica para um artigo científico. Ela contou que nos anos 1970 algumas atrizes estavam se sentindo objetificadas na indústria e passaram a produzir os próprios filmes dando mais ênfase no prazer feminino e com menos submissão aos homens. Mas isso é feminismo? A própria Pamela disse que prefere chamar de pornografia alternativa, “eu me recuso a chamar de feminista” porque o uso do termo remete à apropriação de um movimento por parte do mercado. “É uma forma de ir na onda do feminismo porque está em alta”, ela disse.

Vanessa contou que está conhecendo e começando a estudar o feminismo agora que deixou a indústria pornográfica. Sobre a pornografia que se diz feminista ela apontou não entender como essa forma de pornô pode fazer parte do movimento “se as próprias mulheres aprenderam sobre o pornô com os homens”. Um grande nome nessa indústria hoje em dia é Erika Lust, que divulga seus filmes e dá palestras ao redor do mundo. Apesar de as produtoras afirmarem que estão pensando no consumo e prazer feminino, a visão de Vanessa é de que “no fundo elas vão produzir para homens, é tudo igual”.

A vertente liberal do feminismo trata, entre outras coisas, da liberdade sexual e da nudez como forma de empoderamento, por isso é a mais aceita entre as pessoas e a que é vendida pela mídia e pelo capitalismo. A ideia de que as mulheres devem ter direito de exercerem sua sexualidade e exibirem seus corpos com liberdade a princípio parece empoderador, mas serve justamente aos interesses patriarcais. Apesar disso, esses princípios defendem que a mulher deve ter direito ao consumo e produção do pornô.

A pornografia alternativa, como disse Pamela, prega que é de certa forma mais humanizada, respeitosa e profunda. Mas o fato de as mulheres serem respeitadas durante a gravação, de não serem agredidas nem forçadas a fazerem o que vai além do contrato não torna nenhuma produção de conteúdo feminista. O respeito e a não violência deveria ser uma realidade. Outro ponto a respeito dessa forma de pornografia é a questão dos roteiros supostamente complexos, novamente, isso não faz de um filme uma produção feminista, mesmo que todas as pessoas envolvidas na gravação sejam mulheres. 

Ainda na conversa com Vanessa, ela contou que caso tivesse conhecido o feminismo antes de se desvincular da pornografia sua vida não teria sido diferente, “eu acredito que o feminismo é um privilégio”. A explicação para isso é o fato de que durante o tempo em que trabalhava com sexo, ela “dependia de seu corpo para poder comer”. Ela disse  ainda que na época que trabalhava com pornô algumas feministas entravam em contato com ela pelas redes sociais e alertavam sobre a exploração que ela sofria, mas Vanessa acreditava que tinha o direito de vender o próprio corpo. “Elas falavam que eu podia trabalhar com outra coisa e eu pensava ‘mas por que eu vou trabalhar com outra coisa se eu não vou ter futuro nenhum?’ Elas estavam em uma bolha e eu estava em outra.”

 

O custo para a imagem

Vídeos de conteúdos sexuais, quando vazam, marcam a vida das pessoas que aparecem. E isso acontece de forma diferente entre os gêneros, mulheres são visivelmente mais impactadas do que homens. Sobre isso, Luanna disse que independentemente da forma física da mulher, sua moral vai ser afetada, “ela com certeza vai ter a reputação e o trabalho prejudicados”. Para os homens, os efeitos são outros, o emprego e reputação não são afetados e mal recebem comentários, “a não ser que seja para ridicularizá-lo por sua performance sexual ou seu pênis diminuto”. Um exemplo recente da visão de Luanna é o do governador de São Paulo, João Dória, que teve um vídeo íntimo associado à sua imagem  no período eleitoral e mesmo assim foi eleito.

Mulheres que entram para a pornografia não são esquecidas e muito menos respeitadas., A ex-atriz pornô Mia Khalifa, por exemplo, movimentou a internet com uma petição para que seus vídeos sejam tirados do ar e banidos dos sites pornográficos. Ela trabalhou por poucos meses na indústria e acabou se tornando uma das pessoas mais conhecidas mundialmente pelo pornô. Isso dificultou sua vida em diversos aspectos, como quando anunciou que se casaria e recebeu muitas críticas e comentários ofensivos, que mostram a forma com que a sociedade trata uma mulher que já trabalhou com sexo. 

Outro exemplo é Linda Lovelace, uma das mais famosas atrizes pornográficas de sua época, que tem sua história contada no filme Lovelace (2013). Ela foi mais uma jovem manipulada para entrar na indústria e teve mudanças drásticas em sua vida por conta da pornografia. Quem fez Linda se prostituir e depois gravar um filme pornô foi o homem que era seu marido na época, e ele também a agredia de diversas outras formas. Além disso, o dinheiro de um dos filmes mais vistos daquele tempo não foi para Linda, uma vez que era controlado por seu ex-marido. O tempo em que ela trabalhou com pornografia foi de 17 dias, mas sua imagem nunca mais foi a mesma.

Vanessa conta que desvincular sua imagem do pornô tem sido uma tarefa difícil, que começou com assumir o seu verdadeiro nome. Hoje em dia, ela tem um canal de games e entretenimento no YouTube, mas parte do público ainda a vê como atriz. “Os comentários são sempre os mesmos”, ela contou que existe um filtro para os termos que são proibidos nos comentários de seus vídeos, “mas eu enfrento o hate, talvez se eu continuar na internet eu me torne símbolo de alguma coisa boa pela qual eu gostaria de ser lembrada”. Atualmente Vanessa conta sua história para que outras mulheres possam evitar passar pelos mesmos sofrimentos que ela passou na indústria pornográfica.

*O nome sinalizado foi modificado a pedido da entrevistada

J.Press
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