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Rainhas do Crime – Empoderamento feminino no mundo da máfia
CINÉFILOS
08 ago 2019 | Por André Derviche (andrederviche@usp.br) e Mariana Carrara (marianacarrara@usp.br)

O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972), Os Bons Companheiros (The Goodfellas, 1990), Os Infiltrados (The Departed, 2006)… Não são poucos os exemplos de obras cinematográficas que tratam do submundo da máfia norte-americana. Porém, são raríssimos os casos em que esses longas adaptam histórias em quadrinhos. Mais inusitado ainda é tê-los protagonizados por mulheres. É justamente misturando essas duas excentricidades que encontramos Rainhas do Crime (The Kitchen, 2019).

A história do longa gira em torno de Kathy (Melissa McCarthy), Ruby (Tiffany Haddish) e Claire (Elisabeth Moss), três mulheres que, diante da prisão de seus maridos e da consequente falta de dinheiro, decidem seguir juntas os negócios ilícitos da família.

Trazer à tona questões relacionadas ao empoderamento feminino tem se tornado uma tendência nas telonas. Nesse sentido, o primeiro ponto alto de Rainhas do Crime é justamente abordar questões como essas em um cenário de Estados Unidos na década de 1970. Porém, explorá-las em um enredo sobre máfia e crimes, sem dúvidas, é uma situação pouco convencional.

Para isso, o roteiro acerta ao transpor o protagonismo da trama para as três mulheres, sem abrir mão de apresentar interessantes arcos individuais. É a partir deles que o filme trata das diferentes formas que alguém pode lidar com o poder. Mais do que isso, também busca entender as motivações e valores dessas mulheres que, inseridas em um espaço-tempo dominado por homens, para sobreviver sem depender de seus maridos, tomam o controle dos negócios.

Entre os mais chegados aos quadrinhos, chama a atenção uma influência sutil, porém essencial proporcionada pela adaptação: tornar uma das integrantes do grupo uma mulher negra. Isso foi outro importante passo para o filme mergulhar em questões sociais, como o racismo institucionalizado, reunindo fatores que lhe dão profundidade e que o fazem ultrapassar um simples filme de ação e violência sobre máfia.

Capa de The Kitchen, a história em quadrinhos que inspirou o filme. [Imagem: Vertigo/DC Comics]

Para longas desse gênero, Nova York se tornou um dos principais planos de fundo. Aqui não podia ser diferente. Ambientada na década de 1970, a produção do longa, com tomadas aéreas, músicas da época e cenários imersivos, busca construir o clima hostil da era de ouro do crime norte-americano. A cidade torna-se fidedigna e vívida para o espectador. Cria-se o cenário ideal para explorar os pormenores desse universo de pecados, como a violência inerente a ele e a conflituosa relação entre seus integrantes.

O êxito em construir essa ambientação também pode ser colocado na conta da diretora e roteirista Andrea Berloff. A cineasta já era conhecida por explorar esse ambiente urbano em outras obras, como Straight Outta Compton: A História do N.W.A. (Straight Outta Compton, 2015), e o faz mais uma vez com muito domínio.

Ainda em relação a esses aspectos técnicos, o uso de uma trilha sonora que constantemente remete a elementos da época, apesar de conveniente, se torna em alguns momentos redundante. Ela passa a ser um elemento narrativo que, quando apresentado de uma mesma forma em diferentes cenas, fica enfadonho. Como resultado, a sensação transmitida é a de que a obra se alonga mais do que deveria.

Por outro lado, em filmes de máfia, é essencial termos personagens com os quais o público possa se relacionar. É nesse momento que a história que está contada se mantém estimulante. Aos moldes de Michael Corleone (Al Pacino) e Tommy DeVito (Joe Pesci), de O Poderoso Chefão e Os Bons Companheiros, Kathy, Ruby e Claire ganham destaque por suas respectivas evoluções na trama. Junto a isso, com personagens bem definidos, o longa consegue oscilar da maneira ideal entre uma proposta mais violenta e dramática e um ar mais cômico e leve que também marca a realidade do crime. Com isso, o público se depara com um enredo fluido e intrigante.

Como todo bom filme de máfia, Rainhas do Crime também não poderia escapar de certas reviravoltas no roteiro. Presentes ao longo de boa parte do terceiro ato, os chamados plot twists dão a obra uma identidade própria e a tornam memorável até certo ponto. Porém, apesar de serem oportunos, essas viradas no enredo parecem não encontrar embasamento e concordância no restante do longa. Com isso, o impacto pretendido pelos roteiristas acaba não sendo tão grandioso.

[Imagem: Reprodução]

Do lado dos personagens, é difícil encontrar defeitos. Melissa McCarthy, Tiffany Haddish e Elisabeth Moss como Kathy, Ruby e Claire contribuem para aproximar o espectador do espetáculo quando suas performances tornam-se a base da relação entre essas três mulheres. Em outras palavras, a química entre elas funciona e acaba sendo elemento primordial para o funcionamento do enredo. Vale lembrar também que o tempo de tela dessas personagens é bem calculado, não ofuscando membros do elenco de apoio.

Ainda assim, Rainhas do Crime não escapa de certas lacunas ao longo de sua narrativa. Personagens e situações esporádicas aos quais não são atribuídos os devidos pesos narrativos tiram da obra parte de seu fator imersivo. Junto a isso, podem ser citadas sequências que desviam o foco da história a ser contada em personagens não essenciais e até mesmo pouco desenvolvidos, como é o caso de integrantes da trama que mudam de status repentinamente.

O filme trata de uma jornada através da emancipação de mulheres. Com um plano de fundo inusitado, a obra utiliza a atmosfera de violência urbana — característica de filmes de máfia — para tratar de questões profundas, geralmente com a sutileza ideal. Cenários bem construídos, protagonistas interessantes e reviravoltas inesperadas garantem a diversão do espectador ao longo da uma hora e quarenta minutos de filme.

O longa chega as telas brasileiras no dia 8 de agosto. Confira o trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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