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Há esperança na revolta
Na Estante
19 jan 2019 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Companhia das Letras / Reprodução 

Por Giovana Christ | giovanachrist@usp.br

“Está de malas prontas?

Aproveite bastante

Leia jornais não ouça rádio de jeito nenhum

Tudo de bom

Não volte nunca”

Quem fala (Francisco Alvim)

 

50 poemas de revolta (Companhia das Letras, 2017) é uma antologia (ou seja, um conjunto de poesias, como o título já diz) de pessoas #revolts: com o mundo, com a situação política do país ou com a própria vida.

A cada página, o leitor se depara com um autor renomado que perdeu as esperanças e tenta desesperadamente encontrar em algo para se apegar e não desistir de um cotidiano tão difícil. Em meio a guerras, repressão, autoritarismo, censura, intolerância e ódio, a arte, se mostra um instrumento de fuga da realidade e um caminho para aliviar pelo menos um pouco do peso que cada ser humano carrega por ser tão falho e suscetível a esse tipo de mal.

 

Receita (Nicolas Behr)

“ingredientes

 

2 conflitos de gerações

4 esperanças perdidas

3 litros de sangue fervido

5 sonhos eróticos

2 canções dos beatles

 

modo de preparar

 

dissolva os sonhos eróticos

nos dois litros de sangue fervido

e deixe gelar seu coração.

 

leve a mistura ao fogo,

adicionando dois conflitos

de gerações às esperanças perdidas.

 

corte tudo em pedacinhos

e repita com as canções dos

beatles o mesmo processo usado

com os sonhos eróticos, mas desta

vez deixe ferver um pouco mais e

mexa até dissolver.

parte do sangue pode ser

substituído por suco de

groselha, mas os resultados

não serão os mesmos.

 

sirva o poema simples

ou com ilusões.”

 

Os poemas vêm dos cantos mais distintos e das vozes mais dissonantes. Cada um revoltado de sua maneira e procurando um caminho próprio para seguir. No livro, há poetas novos e tradicionais. Vozes que acabaram de ressoar e algumas que, mesmo com o tempo, não se apagam.

A única coisa que me revolta na antologia é a sua organização. Assim como em um momento de revolta e revolução, os poemas não seguem uma ordem lógica ou são divididos por tipo de opressão. Às vezes a aleatoriedade dos textos atrapalha uma compreensão melhor de cada autor.

Por mais explosivo que seja, o livro traz um alento ao coração. Você não está sozinho. Cada um vive sua batalha e tem que lidar com muita revolta e tem que lutar com cada pedacinho (que sobrou) do ser para tentar melhorar o contexto em que se vive e diminuir as opressões de uma vida que deveria ser simples. E livre.

“Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus”

(Os ombros suportam o mundo – Carlos Drummond de Andrade)

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