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As Últimas Testemunhas: as dores pessoais de lembranças históricas
Na Estante
15 jan 2019 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Capa do Livro / Companhia das Letras / Reprodução

Por Samantha Prado | sampradogp@gmail.com

Este não é um livro fácil de ser lido. A autora de As Últimas Testemunhas (Companhia das Letrras, 2018), Svetlana Aleksiévitch, é conhecida por dar voz a histórias doloridas de vítimas silenciadas em diferentes tragédias históricas – como em Vozes De Tchernóbil e A guerra não tem rosto de mulher. Para essa obra, que demorou 28 anos para ser concluída, a jornalista revirou lembranças impactantes de crianças e adolescentes que viveram durante a Segunda Guerra (1939-1945). Suas recordações são descritas da forma mais natural possível – mantendo diversas marcas da oralidade – encerrando-se com o nome do narrador, sua profissão na vida adulta e a idade que tinha na época de sua memória.

Ao final da Segunda Grande Guerra, cerca de três milhões de crianças morreram. Só na Bielorrússia, país invadido pelos alemães em 1941, 27 mil delas passaram a viver em orfanatos. Cada capítulo do livro corresponde a uma história diferente e é nomeado a partir da frase mais impactante da narrativa. Tudo na obra parece ter sido milimetricamente colocado para trazer a tona todo choque e terror com que esses anos deveriam ser lembrados.  É um olhar inédito ao tema: o jornalismo literário da autora não busca dar atenção aos detalhes das batalhas, nomes militares ou tiros. Ela olha o mundo peculiar e único da visão daqueles que perderam sua infância para o maior conflito mundial já ocorrido.

Cada página da obra parece que pede piamente para ser lembrada, é um livro de história íntimo, humanizado. Por meio desses relatos pessoais é possível entender de maneira um tanto quanto profunda o contexto social no qual a guerra estava inserida. É surpreendente a quantidade de relatos que citam crianças brincando de guerra, sonhando em fugir para as trincheiras e até mesmo uma menina que beijava os retratos de militares soviéticos dos livros. A ideologia da guerra é assustadoramente enraizada na cultura daquele período, mesmo após toda tragédia provocada pela Primeira Guerra Mundial.  Além disso, diversos tópicos abordados e estudados em aulas de história – como a resistência russa feita por mulheres e a epidemia de tifo – ganham uma dimensão muito mais pessoal e próxima do leitor.

A realidade é posta de maneira tão crua que é quase impossível ler muitos capítulos seguidos. Crianças veem suas casas pegando fogo, atos de tortura, seus pais sendo assassinados diante de seus olhos, seus parentes morrendo de tifo. Nada podem fazer e quase nada se faz por elas. Toda sua inocência é sugada pelo conflito de maneira repentina e, por diversas vezes – especialmente para os mais novos – em meio a uma densa confusão. Os traumas advindos desse episódio de seus crescimentos são irrecuperáveis e até os dias de hoje essas pessoas vivem em sombra destas lembranças.

Através de Svetlana Aleksiévitch é possível se ter contato com histórias que desapareceriam sem deixar rastros, afogadas pela “narrativa oficial” e todos os detalhes técnicos e militares desses conflitos. Da guerra nada mais sobra além do sofrimento alheio – em especial o das crianças e jovens que se veem impedidos de seguir seu crescimento de maneira comum. Da guerra sobram lembranças da fome, do sangue, da dor, da confusão, do cheiro e até mesmo da cor. As Últimas Testemunhas não é um livro fácil de ser lido, mas é um livro necessário.

 

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