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Ensaio sobre a cegueira: a humanidade que não pode ser reparada
Na Estante
25 dez 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Audiovisual / Jornalismo Júnior

Por Samantha Prado (sampradogp@gmail.com)

Saramago abre uma de seus livros mais célebres com uma epígrafe retirada do chamado “Livro dos Conselhos”: Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. Mensagem aparentemente simples, mas que brinca com toda complexidade da obra e seu enredo.

Trabalhando entre o cotidiano e o dadaísmo literário, o autor constrói em Ensaio sobre a cegueira (Companhia das Letras, 1995) uma linha tênue intensa que é dificilmente encontrada em outras narrativas. Nenhum personagem tem nome – todos são identificados a partir de características óbvias (“primeiro cego”, “mulher do médico”, “rapariga do óculos”, etc). Muitas cenas deixam seu resultado em aberto. Há uma ausência notável de explicações e justificativas: é confiado ao leitor o preenchimento de significado. A tragédia aqui não busca nenhuma fábula moral – apenas oferece reflexões subjetivas sobre a condição humana. O pequeno momento é o portador de grandes consequências que ecoam ao longo da história.

A obra se inicia em um dia comum e em momento habitual: um homem está em seu carro aguardando o fim do sinal vermelho e, de repente, cega. Está cego e, sem qualquer aviso prévio ou justificativa posterior, não vê mais que um clarão branco leitoso. Pequeno momento, grandes consequências: a partir desse caso, a cegueira passa a se espalhar como uma epidemia sem explicação. O que se inicia como a morte de um dos sentidos (a visão), passa a ser a morte de pessoas, das instituições, das regras, da paz e da dignidade.

A primeira medida tomada é a retenção e isolamento dos afetados pela misteriosa cegueira: centenas de pessoas são trancadas e abandonados à própria sorte em ambientes de contenção. O projeto não tem o efeito esperado e a epidemia se espalha de maneira indeterminada.

Dois pontos, em especial, ganham destaque ao longo da narrativa: o poder e o caráter animalesco da condição humana.

Como marca do autor, o livro contém grande dose de crítica à autoridade. O poder do Estado e dos militares é falho, deixando os cidadãos vivendo em estado de exceção. A partir desse abandono, surge o poder paralelo exercido por aqueles que, mesmo vitimados pela cegueira, detinham algum tipo de vantagem sobre os demais – armas ou comida, por exemplo. Se o caos não nasce das próprias instituições de poder, é fomentado e agravado por elas.

No cenário apocalíptico que é criado, revela-se o lado mais primitivo do homem. “Fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que estávamos tratando de negar com a boca.” Sentimentos e racionalidades perdem espaço para o extinto de sobrevivência, dando origem a episódios desconfortantes de ler por tamanha sinceridade contida neles. Estamos sempre a negar o caráter animalesco em nossa condição humana e tê-lo exposto de maneira tão crua gera um certo incômodo reflexivo.

Há, entretanto, momentos de fina delicadeza e ternura. A figura da mulher, por exemplo, é retratada com respeito e grandeza – sendo ela forte e até mesmo dona das rédeas da história. Os momentos de simplicidade também ganham amplitude comemorativa e emocionante – como o simples tomar banho na chuva, beber água potável em copos ou  conversar sobre o futuro em um ambiente seguro. “Se eu voltar a ter olhos, olharei verdadeiramente os olhos dos outros, como se estivesse a ver-lhes a alma.”

Por fim, Saramago faz um misto entre o cru e o delicado a fim de mostrar aquilo que vai além do óbvio, do visível. Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. A humanidade é algo que vai além dos olhos, se ela é impossível de reparar – se já não a têm – se está cego antes mesmo de cegar.

 

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