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Resenha: EVERYTHING IS LOVE – The Carters
Escuta Aí
02 ago 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Capa do álbum / Divulgação

Lançado no dia 16 de junho de 2018, “EVERYTHING IS LOVE” é o primeiro álbum do The Carters, dupla formada por Beyoncé e Jay-Z. Além do casal, o álbum ainda conta com a participação de nomes de peso, como Pharrell Williams e o grupo Migos.

O disco pode ser considerado como o encerramento (até o momento) de uma “trilogia”, que se iniciou em 2016 com o álbum “Lemonade”, da Beyoncé. Nele, entre outros assuntos, a cantora faz uma jornada de autoconhecimento, tomando como base os casos de infidelidade de seu marido e todo o drama que isso gerou em seu casamento. Mas “Lemonade” vai além, também aborda a identidade negra, como mostrado em Formation, que critica, principalmente, a violência policial.

Após o disco de Beyoncé, em 2017, Jay-Z lança 4:44, segunda parte da trilogia. É visível a grande influência que “Lemonade” teve sobre esse álbum, além do pedido de desculpas na faixa que leva o nome do disco, Jay explora toda a sua vulnerabilidade como marido, pai e artista, sendo esse seu trabalho com maior pessoalidade.

Tudo isso nos traz a EVERYTHING IS LOVE. Como o título sugere, o casal reatou o relacionamento após 4:44, mas como os dois últimos, ele não se resume apenas a isso:  é uma síntese de tudo que ambos conquistaram juntos, expondo todas as vitórias que o casal teve apesar das inúmeras dificuldades que enfrentaram.

Inicialmente, o álbum traz uma canção romântica: SUMMER, que retrata esse retorno do romance entre os dois, com uma temática de praiana; assim como Beyoncé fez em Sandcastles, no seu álbum de 2016, mostra uma primeira conexão entre os discos. A música final LOVEHAPPY, também aborda esse retorno, mas diferente da primeira, essa é menos romântica e mostra como os dois estão bem, colocando o amor deles acima de tudo e de todos: “As vezes, eu pensava que nunca veríamos a luz/ Nós estivemos no inferno com o céu ao nosso lado”. O interessante é que SUMMER soa mais como alguns trabalhos de Beyoncé, mais romântica e sentimental, com uma sonoridade mais relaxante, já LOVEHAPPY parece uma versão do Jay-Z, com toda a ostentação e aquele beat para cima que estamos acostumados a ouvir em suas músicas.

O primeiro single é APESHIT, produzido por Pharrell Williams e conta com a presença de Quavo e Offset, ambos do grupo Migos. O vídeo, lançado junto com o álbum, foi inteiro gravado no Museu do Louvre, mas essa escolha não foi feita sem um motivo. A música fala sobre todo o luxo que é a vida do casal, que juntos, possuem um patrimônio de cerca de 1 bilhão de dólares. Ostentar tudo o que conquistaram dentro do museu, conhecido por conter diversas obras do período colonial, é como uma forma de mostrar gratidão à todo o sofrimento de seus ancestrais e esfregar na cara dos colonizadores onde eles chegaram.

Logo na sequência, temos BOSS e NICE, mais duas músicas que falam sobre o estilo de vida do casal. Na primeira, eles se colocam no topo, como os chefes no ramo da música e no verso de Beyoncé, ela aproveita para mostrar como o patrimônio dos dois é grande: “Meu tatara- tatara- neto também será rico”, já Jay-Z aproveita seus versos para alfinetar outros artistas, assim como ele fez na sua música Family Feud, do 4:44 : “Aqui, dizemos que você quebrou se todo mundo fica quebrado, exceto por você”. NICE segue uma vibe parecida com a sua antecessora, mas o dupla esbanja mais suas conquistas, como no verso: “Meu sucesso não pode ser quantificado/ Se eu desse a mínima para números de streams/ teria colocado Lemonade no Spotify”. Essa música também marca a segunda participação de Pharrell no disco, dessa vez não só produzindo mas também cantando. Ainda nessa pegada, HEARD ABOUT US, também celebra o estilo de vida e a felicidade, porém essa funciona mais como uma resposta para as pessoas que colocaram “olho gordo” em seu casamento.

713 é mais uma canção no estilo Jay-Z, tanto é, que todos os versos e metade do refrão são cantadas por ele. Nela, o rapper relembra como foram seus primeiros momentos ao lado de sua esposa, desde o momento em que se conheceram até quando ele percebe que está apaixonado por ela. Em alguns trechos o casal também lembra de onde vieram, o próprio nome da música é o código de área da cidade natal de Beyoncé, Houston. A batida é bem gangsta, com o piano repetindo as notas, lembrando os raps dos anos 90. Inclusive, os versos mais marcantes do refrão, que são cantados por Bey, são uma releitura de Still D.R.E, música de Dr. Dre e Snoop Dogg, que foi escrita pelo próprio Jay-Z. Outra curiosidade que passa mais despercebida é que, a outra parte do refrão cantada pela artista, também é uma releitura, dessa vez ela empresta o ritmo de Summer Love de Justin Timberlake.

A dupla ainda dedica uma faixa inteira aos seus amigos mais próximos. Em FRIENDS, ambos elogiam e agradecem seus amigos verdadeiros por tê-los ajudado a chegar onde chegaram.  Como de costume, Jay-Z aproveita para dar algumas alfinetadas no seu “ex irmão mais novo”, Kanye West. Ele cita o caso que ocorreu em 2014, quando se recusou a ir no casamento do mesmo, por estar passando por um momento difícil em seu próprio casamento. Outra pessoa que é citada por Jay, mas de maneira positiva é Ty, ou Ty-Ty. É assim que o rapper chama Tyran Smith, seu amigo de infância, ele sempre trabalhou como seu braço direito e acabou até se tornando agente de outros artistas famosos como a Rihanna.

Ainda falta falar de uma das músicas mais importantes do álbum, BLACK EFFECT. Seguindo a pegada do disco, tem um ar de celebração do casal, mas como o nome sugere, ela celebra suas conquistas enquanto negros e mostra os reflexos que isso tem para a comunidade. A canção traz referências a Malcolm X, ao grupo ativista dos anos 60 “Viajantes da Liberdade” (Freedom Riders) dentre muitos outros artistas e personagens históricos da cultura negra. O beat é um sample da música “Broken Strings”, da banda japonesa de rock psicodélico dos anos 70, Flower Travellin’ Band. Sua letra, fala sobre contemplar o passado, o que casa bem com o sentimento que o casal quer passar. O auge da batida é quando passa de um verso para o refrão, onde parece que ela “levanta” e, à medida que se passam os refrões, a música vai ficando cada vez mais para cima.
É muito supérfluo falar que EVERYTHING IS LOVE é apenas o disco de reconciliação entre Beyoncé e Jay-Z, da mesma forma que é superficial dizer que Lemonade é o álbum em que ela expõe o marido e 4:44 é apenas um pedido de desculpas. Todos os três vão muito além disso, e esse último funciona como a síntese de tudo que eles conquistaram, seja financeiramente ou pessoalmente. Muitos também podem achar exagerado e mesquinho o jeito que ambos (mas muito mais o Jay-Z) ostentam o seu império bilionário, mas vale lembrar o quão importante para eles foi ter conseguido chegar onde estão, principalmente se tratando de um mundo racista e machista. Além de ambos carregarem a bandeira do movimento negro, Beyoncé também levanta em diversas músicas as causas feministas, muito bem exploradas no já citado álbum de 2016. Jay-Z teve um início de vida pobre marginalizada, foi traficante de drogas antes de começar a fazer sucesso, coisa muito comum entre os jovens da classe mais baixa, e tudo que construiu foi literalmente com seu próprio esforço, já que desde o começo ele grava pelo seu próprio selo. Então esse disco não é somente sobre ostentar ou mostrar que ao mundo que  reataram o casamento, é para mostrar onde os dois chegaram apesar de tudo e, até certo ponto, inspirar aqueles que o casal representa.

Por João Vitor Ferreira
jvitorsilva7@gmail.com

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