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História Universal da Infâmia: Borges entretém e diverte com a enciclopédia da canalhice
Na Estante
20 jan 2019 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Letícia Vieira – Audiovisual / Jornalismo Júnior

Por Hugo Vaz | hugo.vaz.reis@gmail.com

A história universal da infâmia (Companhia das Letras, 2012) , como contada por Jorge Luís Borges, atravessa séculos, oceanos e dimensões físicas e espirituais para descortinar a vida de criminosos, piratas, canalhas, falsários e profetas que, em sua breve passagem na Terra, marcaram seus nomes nos registros infortunados da humanidade. Para isso, Borges se utiliza de uma bibliografia pré-existente, apropriando-se do que outros autores e historiadores escreveram acerca destes personagens.

“São a irresponsável brincadeira de um tímido que não se animou a escrever contos e se distraiu falsificando […] histórias alheias”, revela já no prólogo. São sete narrativas seguindo essa diretriz. A figura central de cada uma tem sua vida apresentada do nascimento à morte, em relatos curtos, focados na fonte de sua infâmia. Com pinceladas largas, Borges retrata cenários, circunstâncias e motivações. O autor dá um novo sopro de vida às histórias, injetando fantasia à realidade e sentimento aos fatos.

Habitam as páginas deste livro: um ‘libertador’ de escravos que os vendia novamente, prometendo-lhes uma parcela do valor arrecadado, sem nenhuma intenção de cumprir sua promessa. Um impostor que se aproveita do luto materno para tornar-se o filho desaparecido que retorna triunfalmente. Uma viúva que lidera um grupo de piratas e governa com mãos de ferro em busca de vingança. Um amoral chefe de gangue, que cobra “15 dólares por uma orelha arrancada” e “cem pelo negócio completo”. Um jovem pistoleiro que retirou uma vida por cada ano que viveu – “sem contar os mexicanos”. Um serviçal do imperador, tão detestável, que sua morte concedeu glória aos mais de 40 homens que se juntaram para assassiná-lo. E, por fim, um falso profeta no deserto do Turquestão, que comandou uma legião de seguidores sem revelar o rosto.

Ao final, o conto original do homem da esquina rosada. Sobre covardia e coragem e de moralidade duvidosa, faz com que revisemos nossas certezas para perceber que ninguém está isento de, um dia, habitar as páginas da infâmia. A coletânea de textos breves, intitulada et cetera, encerra a edição com traduções livres de textos clássicos, com viradas surpreendentes e de impacto rápido.

Jorge Luis Borges está no panteão dos grandes escritores de todos os tempos e sua imaginação e a força de suas narrativas mesclam as eras com o poder de sua erudição e presenteiam o leitor com tudo que ele possa imaginar. Da infâmia brota o prazer de uma leitura inesquecível.

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