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Resenha: Utopia – Björk
Escuta Aí
11 dez 2017 | Por Jornalismo Júnior

Imagem de capa: Björk para a W Magazine / Tim Walker

Em 2015, Björk lançou o disco que foi, possivelmente, um dos mais importantes da sua carreira. Para uma artista de seu porte, é uma afirmação pesada: o álbum representou a manifestação audiovisual do término do seu relacionamento de anos com o também artista  Matthew Barney. A cantora nunca esteve tão visceral: as composições eram densas, carregadas tanto na melodia quanto na mensagem. Canções como Black Lake ajudaram a impulsionar “Vulnicura” a se tornar um álbum forte e intenso ao mesmo tempo que era vulnerável e exposto.

Durante esse processo, a cantora trabalhou com Arca (Alejandro Ghersi), produtor venezuelano que vinha, naquele momento, aumentando sua exposição ao fazer algumas colaborações significativas: participou da produção do EP2 e LP1 da inglesa FKA Twigs e auxiliou na de Yeezus, de Kanye West. O lançamento e repercussão de “Vulnicura” ajudaram o produtor a se consolidar como nome da sonoridade experimental e fixar sua marca na própria discografia da Björk: o venezuelano não apenas co-produziu mais da metade das canções com a cantora, como auxiliou nas letras e fez parte, segundo ela mesma, de todo o processo de “cura”.

A islandesa chegou a destacar seu novo projeto, “Utopia”, como uma evolução de Vulnicura, afastando-se da energia pesada e melancólica presente no último. A artista se juntou novamente com Arca, no que parecia ser a evidência de uma Björk sanada dos males que a afetaram e inspiraram em seu último projeto.

Ao mesmo tempo, não é necessário saber de tudo isso para perceber a clara influência do jovem de 28 anos não apenas na produção das músicas, mas em todo o processo criativo. Em “Utopia”,  Arca produz, escreve e recebe crédito como elaborador do conceito do LP.

 

Capa do álbum / Jesse Kanda

Em relação à sonoridade, Utopia de fato se consolida como uma evolução do “Vulnicura”, mas contempla a adição de diferentes elementos, que se mesclam para produzir um compilado de sons eletrônicos com a presença orgânica de acordes de flauta e harpa, além de batidas associadas a sons da natureza que enaltecem uma sensação de tranquilidade e plenitude.

O auge disso são canções como a de abertura (Arisen My Senses), e a que dá ao álbum seu título. Arisen My Senses é primeira a exposição ao conceito do álbum, e apesar de não ser um destaque no contexto total da obra, permite obter noção de como se desenvolverá o resto em relação à sua parte lírica e sonora. A própria cantora chegou a  classificar essa como uma “rebelião otimista à narrativa melódica normal”. A segunda (Utopia) é uma imersão num contexto mais puro e biológico, sendo sua composição cheia de sons de flautas e pássaros (constantes em diversas canções), remetendo a um contexto estético externo e ideal, associado à noção de natureza.

As músicas têm sucesso em sua proposta, mas a repetição e o descompasso entre as batidas eletrônicas e o resto da composição as tornam relativamente repetitivas e cansativas. Isso é um problema que aparece em torno do álbum como um todo: apesar de possuir várias camadas melódicas e com altos pontos de experimentalidade, a repetição de padrões de som gera uma certa monotonicidade, e ao invés de haver um complemento entre a produção de Arca e o resto, em muitos momentos ambas se chocam para disputar a hegemonia da música, ao invés de diversificá-la.

Mesmo que tenha momentos monótonos, há algumas evidências de sucesso, sendo o caso da segunda música da lista, Blissing Me. Nela, a combinação orgânica dos acordes de harpa é complementada pela voz calma e precisa da cantora e alimentada por uma das letras mais bem escritas do álbum. A inserção dos sintetizadores ocorre de forma sutil e não entra em descompasso com o todo da música, ajudando a ser um complemento para uma noção mais natural da canção. Blissing Me é o relato de uma conexão entre dois indivíduos do ponto de vista romântico e é, de certa forma, metalinguístico com o processo criativo de produção de um álbum. A canção aborda a evolução dessa relação e metaforiza a paixão por uma música associada a uma pessoa.

Outros momentos também oferecem um encaixe bem elaborado de melodias, como ocorre em Body Memory e Losss. A primeira é uma resposta direta a uma das canções mais carregadas do “Vulnicura”, Black Lake. Assim como essa, Body Memory possui dez minutos de duração, e faz alusão à superação do que era relatado. Os versos retomam aspectos diferentes da vida da cantora, explorando tanto sua vivência interna (frustrações, ansiedade, desejos) quanto sua vivência externa (há uma oposição entre o natural e o urbano, o instintivo e o técnico) e nesse sentido se encaixa no todo do álbum como uma das canções mais amplas e bem elaboradas. Ao longo de seu desenvolvimento, a cantora aceita a perda exposta em Black Lake mas o faz relatando toda a insegurança que ocorre por trás, todos os problemas que a afetaram, indo desde a superação do sentimento amoroso até a batalha pela custódia de sua filha.

I wasn’t born urban / Toxic doesn’t agree with me / Love lured me here / Into a stagnant state / My myths, my costumes, ridiculed / Vacuum packed molecules.

Then my body memory kicks in / on this Brooklyn dancefloor / sweating with these rhythms / rotate this matrix.”

A composição melódica está intimamente associada a esse processo, com uma construção que vai crescendo e chega ao seu auge com a inserção do coral islandês de 60 peças, Hamrahlid, um pouco depois da metade. Além desse, as flautas, cordas e a parcela eletrônica se associam para produzir uma sensação de liberação intensa que se atenua até o fim da canção.

Losss talvez seja um dos momentos principais em que Björk e Arca conseguem transmitir quase que perfeitamente sua conexão artística. A cantora a descreveu como uma continuação de Pagan Poetry, do álbum “Vespertine” (2001). A utilização de harpa e sintetizadores ocorre em ambas e as duas constroem, ao longo de seu desenvolvimento, um aumento de agressividade, que é destacado pela voz exuberante e sensível da cantora em Pagan Poetry e mais evidentemente pela batida em Losss. O ritmo chega a um ponto intenso e firme perto do fim, quando a junção dos golpes do sintetizador com harpas e flautas é complementada pelas diversas camadas de vocal ao fundo. A letra aborda temas um pouco mais semelhantes aos de “Vulnicura”, destacando o enfrentamento da perda amorosa, em que a frustração é diretamente transferida à sonoridade.

Outros momentos que utilizam bem os sons são canções como Saint e Tabula Rasa. Ambas têm construções mais estáveis mas acabam sendo modelos mais seguros do que outros do álbum, não chegando a ser monótonas mas não se sustentando com a mesma facilidade que outras. Por outro lado, a mesmice chega a seu auge em canções como Paradisa, em que a utilização de uma progressão semelhante durante toda a música a tornam extremamente cansativa, podendo ter sido agregada com uma duração menor.

Um ponto alto do álbum é sua composição lírica: as letras são bem elaboradas e muito mais otimistas do que aquelas encontradas em seu antecessor, demonstrando uma nova relação da própria cantora com seus sentimentos e o mundo que os assimila. Nesse sentido, os conceitos estético, sonoro e visual do álbum se complementam com a letra para tornar o projeto em si um pouco mais coeso. “Utopia” se torna um álbum sobre vivência, sobre a conexão de uma mulher com o seu entorno de forma física, sensorial e sentimental. As experiências vão desde a contemplação da sua volta, a aceitação de uma perda, erotismo e a superação de traumas familiares. Parece uma reformulação de perspectivas esperançosa, um certo renascer.

O álbum transita por diferentes momentos, uns mais densos e pesados no meio, com uma maior leveza próxima ao fim. Ao todo, o propósito fica claro: é um deslocamento pela constituição de um alívio, a transmissão de tranquilidade ao mesmo tempo em que dialoga com o autoconhecimento e reconstrução individual após uma perda. É uma realocação de todas as peças: o amor, o sexo, a frustração, a ansiedade, o interno e o externo. Constrói-se uma relação mulher-mundo, em que a cantora parece estar muito mais ciente do que a rodeia e de si mesma, mesmo que em certos momentos sua divagação a leve para extremos que a distanciam daquele que parece ser seu objetivo e a tornam inacessível.

Por Daniel Medina
danieltmedina@gmail.com

 

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