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Retrospectiva 2017: melhores álbuns nacionais
Escuta Aí
01 jan 2018 | Por Jornalismo Júnior

2017 foi um ano de fortes mensagens para a música brasileira: seja pela imponência das letras ou a densidade do seu conteúdo, os artistas fizeram fortes manifestações no último ano, tudo isso acompanhado de uma produção que coloca a música nacional em outro patamar. Confira abaixo os dez melhores do Sala 33, sem uma ordem específica.

Recomeçar – Tim Bernardes

O primeiro disco solo de Tim Bernardes, vocalista d’O Terno, é incrível como as últimas produções que o grupo vinha apresentando ao longo dos anos. A surpresa da produção após o “Melhor do que parece” pelo curto espaço de tempo entre um álbum e outro é muito agradável, principalmente pela qualidade musical incrível que o menino de 26 anos entrega ao ouvinte. O álbum é grandioso como qualquer coisa que ele faz, diversos arranjos que dialogam muito bem entre sí. A dinâmica do CD também com o tom do álbum, que é melancólico e, principalmente, muito bonito. Os detalhes enriquecem muito as composições, demonstrando a preocupação com a qual a produção foi feita. A sensação para os próximos anos é a expectativa para os futuros trabalhos de Tim e do grupo O Terno.

magnetite – Scalene

“magnetite” é o terceiro álbum do grupo de Brasília, Scalene. A banda vem construindo um caminho sólido ao longo dos anos, com uma sonoridade própria muito clara. O novo trabalho do grupo é um passo à frente dos antigos, mais limpo, contido, denso e certeiro. Se o “Éter” era um álbum muito completo, “magnetite” consegue ser maior. As composições, que sempre foram um dos pontos altos da banda, tornaram-se muito mais interessantes no novo trabalho, as vozes são um dos principais elementos desse novo CD, dialogando muito bem com o instrumental que foge do ordinário. Aliás, as frases de guitarra são impressionantes e muito diferentes do que o ouvinte de Scalene está acostumado. Um álbum complexo, busca propor diferentes sensações enquanto se escuta, mantendo o nível do bom e velho Rock’n Roll.

Unlikely – Far From Alaska

O segundo disco do Far From Alaska chegou e preencheu às expectativas criadas após o sucesso de modeHuman. A banda conseguiu agregar diferentes estilos ao seu som, e, mesmo assim, manter as características sonoras pelas quais foram reconhecidos em seus trabalhos anteriores. O sala 33 já resenhou o disco e você pode conferir o texto aqui.

Lá Vem a Morte – Boogarins

O grupo goianiense está de volta com mais um álbum de estúdio, “Lá vem a Morte” foi lançado de surpresa nos Estados Unidos. O álbum é uma tentativa da banda em explorar novos caminhos da psicodelia, experimentando as fronteiras do estilo e propondo novos sons pouco convencionais. O CD, apesar de curto com apenas oito faixas, apresenta um novo lado da banda e possíveis caminhos a serem explorados a partir de agora. Com a presença massiva de sons eletrônicos e sintetizadores, além de um timbre novo para as cordas, Boogarins conta a obra sem intervalos, sendo uma grande experiência até o seu final. O hype criado em cima do grupo após “As Plantas que Curam” é real, e as novas composições mostram que continuar se reinventando é uma obrigação para a música atualmente.

A Gente Mora No Agora – Paulo Miklos

Após se aventurar no mundo cênico por um tempo, Paulo Miklos nos apresentou um novo projeto musical, dessa vez o nome da obra é “A Gente Mora No Agora”. O ex-vocalista do Titãs mostra um trabalho incrível nesse novo disco, que pode ser uma das coisas mais bonitas deste ano de 2017. Miklos traz diversos artistas para colaborar com o trabalho, que casam muito bem com as músicas, colaborando com as composições do CD. Cada faixa é uma aula sobre composição, e como casar cada arranjo. O andamento das músicas ditam o ritmo do CD inteiro, que tem a mesma semântica com a mensagem que o trabalho propõe. “A Gente Mora no Agora” é um título que sintetiza muito  bem todas as mensagens que o músico quer passar, não apenas com as poesias mas também musicalmente.

Pajubá – Linn da Quebrada

Linn da Quebrada vem fazendo barulho desde 2016, com o lançamento de “Enviadescer”, uma explosão de ‘bixaria’ que definiu o padrão contestador que marcaria toda sua obra. Direta e destemida, Linn chegou a dizer: “Eu não faço música para ser cantora, faço música para ser ouvida”. Assim, seu primeiro álbum de estúdio, financiado com uma vakinha online e lançado independentemente, é uma reafirmação direta de tudo aquilo que já vinha mostrando, dando voz e representação a corpos e mentes rejeitados historicamente pela sociedade brasileira. Esse trabalho foi feito, ainda, com o auxílio do funk em alguns momentos, uma batida popular e que também simboliza a imponência de uma grande parcela da população. Letras fortemente críticas e expressivas e uma produção eletrônica diversa com toques de percussão sutis e até experimentais em certo momento, ajudam a construir um álbum denso e, mais do que isso, importante e necessário para o contexto atual. Linn coloca em evidência de forma forte e, por vezes, cômica a realidade travesti negra da periferia assim como enaltece essa diversidade e não segura na contestação crua.

Letrux – Letrux em Noite de Climão

Letrux em Noite de Climão” foi uma surpresa. Não apenas como consolidação artística solo de Letícia Novaes mas também pelo fato de haver construído um álbum que fala tão diretamente com as mentes e sentimentalidade esparsas e, muitas vezes, sem muita clareza de quem escuta sua música. Composição lírica que dialoga com o amor, a forma de ver os relacionamentos sentimentais e encará-los, favorecidas por uma instrumentação limpa, polida e instigante, “Letrux em Noite de Climão” é um sinal de identificação, que instiga a suar a efervescência dos sentimentos na pista de dança em muitos momentos. Letrux combina o melhor da sonoridade alternativa brasileira da atualidade, associada a elementos que remetem a composições de anos atrás, mas mantendo uma sensação de novidade. Afasta a mundanidade e chama pela emoção.

As Bahias e a Cozinha Mineira – Bixa

Em seu primeiro álbum, As Bahias e a Cozinha Mineira se consolidaram como um nome promissor na música brasileira contemporânea. A banda se formou na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e desafiou qualquer noção normativa com as mensagens contundentes e muito bem estruturadas de “Mulher”. Inspiradas nos clássicos do MPB, a produção era impecável, com sons clássicos e instrumentalização rica associada às poderosas vozes que lhes davam o toque final, ainda mais quando analisadas pela mensagem transmitida: canções de quebra e reafirmação social da mulher e suas diferentes percepções. No álbum “Bixa”, as influências de Gal ou Caetano ainda estão vivas, mas mescladas com uma estrutura muito mais pop: não no sentido de pré-fabricado ou necessariamente acessível, mas com ritmos recentes, frescos e populares, que retomam sons da atualidade tanto quanto se influenciam pelos antigos. Por isso, dando continuidade ao iniciado em “Mulher”, “Bixa” representa uma identificação mais efetiva para a banda como grupo coeso e abre grandes perspectivas. Sua Tez, a última faixa, é uma prova mais concreta desse novo som: instrumentos de sopro com refrão repetitivo e pegajoso, é uma canção forte que dialoga com a persistência da limitação dos desejos na sociedade. É uma representação do potencial do grupo e da sua diversidade.

Criolo – Espiral de Ilusão

Criolo sempre foi conhecido pela sua incorporação de diferentes elementos e gêneros musicais em suas composições, configurando uma discografia diversa. Em “Convoque seu Buda”, já dava indícios do que estava por vir ao adicionar elementos do samba em músicas. “Espiral da Ilusão”, porém, não é apenas uma incorporação ou um resultado de influência, e sim a própria utilização do gênero em sua totalidade. Até a instrumentação é composta da forma mais orgânica e tradicional possível. Ao mesmo tempo, explora o gênero tipicamente brasileiro analisando os aspectos sentimentais, românticos e tristes, a cultura brasileira no geral, além de abordar criticamente essa cultura e a sociedade que dela se desprende. O ponto mais importante da obra é a sua pluralidade, juntando contextos diferentes em uma noção única de Brasil.

Rincon Sapiência – Galanga Livre

“Galanga Livre” inspira-se na história de Chico-Rei, personagem de Ambrósio, conto que relata a história de Galanga, escravo que busca luta por liberdade e chega a matar um senhor de engenho. A história é a base para o transcorrer pelo álbum abordando questões relacionadas à vivência da população negra no Brasil atual e sua conexão com o de ontem. Aborda a liberdade, o dia-a-dia, o preconceito e o amor, auxiliado por rimas potentes e incisivas, utilizando elementos afro-brasileiros para sua composição sonora, criando uma obra crítica e pungente, dialogando com questões essenciais no Brasil atual. A estruturação utilizando interlúdios e baseando-se no conto lendário são elementos que enaltecem tudo o que é relatado, e logo desde a introdução (Intro) e Crime Bárbaro, primeiras duas faixas, Rincon é extremamente ágil e diverso.

Por Daniel Medina e Pedro Gabriel
danieltmedina@gmail.com | peedrog98@usp.br

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