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Retrospectiva 2016: Melhores discos nacionais
Escuta Aí
28 dez 2016 | Por Jornalismo Júnior

O Brasil viveu um 2016 de conflitos e dicotomias. Chamar nosso cenário político de “conturbado” parece até eufemismo – e quem sabe o que ainda está por vir? Esse momento estranho de nossa história não passou em branco na música; e nos seguintes 10 discos que se destacaram, pode-se encontrar substrato à beça pra refletir, criticar e se movimentar (Sabotage, Francisco El Hombre, Medulla, BaianaSystem). Mas se você já tá faz tempo em clima de festa, e quer mais deixar as birras de 2016 pra trás, aqui também há diversão e escapismo (Céu, O Terno). Mesmo com os traumas acumulados ao longo do ano, nada mais justo do que tomar um momento para relembrar e celebrar a música que nos carregou nos momentos difíceis.

10. Supercombo – Rogério

supercombo

 

Para quem acha que o rock nacional está morto e enterrado há um bom tempo, o Supercombo vem mostrando que ainda existe espaço para guitarras na música brasileira em pleno 2016. Rogério, o quarto disco da banda, dá continuidade ao bom trabalho que eles têm feito até então, trazendo elementos de outros gêneros musicais, como o rap, e apostando forte em letras com as quais a identificação é instantânea. Elas contemplam agonias e vivências de jovens adultos, mostrando o lado nem tão bom assim que está presente em todos nós e são ótimas para cantar junto a plenos pulmões. Com refrões cativantes, como em Bonsai (“prefiro a minha cama, botar o meu pijama e só sintonizar a mente”) e em Monstros (“também queria ser imaginário, aparecer só quando necessário, sem pesar na consciência”), participações especiais, como a de Lucas Silveira, da Fresno, e bons vocais de Leo Ramos, Supercombo se afirma como uma banda cada vez mais relevante dentro do cenário nacional.

https://open.spotify.com/track/3bGuxNAgPXwEXV3odTDoXX

9. Baleia – Atlas

baleia

 

Atlas, na mitologia grega, é um titã que foi condenado a carregar sozinho o peso do mundo nos ombros. É uma boa metáfora para os tempos em que vivemos e também para o disco do coletivo carioca Baleia. Diferentemente do primeiro disco, Quebra Mar, que nos ofereceu músicas mais leves, perfeitas para trilha sonora de momentos felizes, como Casa, Atlas apresenta-se de maneira mais densa, pesada, mas não de menor qualidade. Todas as canções estão interligadas, seja sonoramente, seja pela temática urbana  e combatente que perpassa, de maneiras diferentes, as letras de alta qualidade do álbum. Até mesmo faixas que começam solares, como Estrangeiro, têm um fundo de crítica, de isolamento. Violinos, percussão, piano e arranjos conceituais dão as caras e levam a comparações com o gigante inglês Radiohead. Não é um disco fácil, assim como os últimos anos não foram fáceis, mas talvez seja o disco que precisamos agora.

https://open.spotify.com/track/07w6jUuuZOjYpytwkaHcLK

8. Francisco El Hombre – Soltasbruxa

soltasbruxa

Soltasbruxa não existe num vácuo. 2016 foi um ano de conturbação política, o que inspirou muitos artistas nacionais e internacionais a produzir música que reagisse a isso – tá, isso é óbvio. Mas na música de Francisco El Hombre, não há rodeios, metáforas, disfarces: Tome a mais-direta-impossível Bolso Nada, que, em menção direta ao deputado Bolsonaro, grita: “Esse cara escroto! Mucho escroto!”. Ou em Tá Com Dólar, Tá Com Deus, um samba de protesto que tem no refrão essa realização: “O dólar vale mais que eu, eita, fudeu!”. São críticas transparentes e muito bem humoradas, que combinam perfeitamente com os ritmos latino-brasileiros explorados pela banda. Não é que o grupo não seja capaz de sutilezas – em Sincero, só um violão e uma voz em espanhol guiam os questionamentos por metade da canção; e Triste, Louca ou Má, em sua rejeição de estigmas do patriarcado (“Um homem não te define, sua casa não te define, sua carne não te define”) retém sensibilidade arrepiante. No entanto, quase nunca se perde de vista esta linha-direta com a realidade, e é daí que a banda extrai seus momentos mais potentes.

https://open.spotify.com/track/5wMrWkvLD4TnTFwclqgjo6

7. Sabotage – Sabotage


sabotage

É difícil saber do que esperar de um disco póstumo: O medo é sempre de encontrar uma coletânea de ideias incompletas, lançadas por motivações mais financeiras do que artísticas. Talvez nisso se encontre o sucesso do homônimo Sabotage, lançado treze anos após a morte do rapper. Tejo Damasceno, Rica Amabis e Daniel Ganjaman, responsáveis pela direção musical do disco, tiveram o cuidado e respeito de selecionar artistas para a finalização dos projetos de Sabotage que tinham histórico de colaboração musical com o rapper. Isso se reflete nas 11 faixas aqui apresentadas: Como Damasceno comentou em entrevista à Rolling Stone, “Tentamos manter o nível que ele sempre teve: um crivo muito alto de flow, de letra, tudo.” Registrada fica a malandragem e irreverência de Sabotage, que, com personalidade sempre carismática, passa por seus temas típicos, às vezes se gabando, às vezes tecendo críticas sociais diretamente da favela do Canão – ainda muito relevantes, mesmo com 13 ou mais anos de idade.

https://open.spotify.com/track/2XdblGYWcBnelh5Xq6yK3j

6. O Terno – Melhor Do Que Parece

oterno

A banda paulistana O Terno nasceu fazendo versões de canções dos Beatles, d’Os Mutantes e dos Kinks. Em sua produção autoral, o trio não esconde suas origens: as músicas de seu terceiro – e talvez melhor – disco, Melhor Do Que Parece, aparentam ter sido transportadas diretamente de outra época. Elas saltitam, às vezes contagiantes, às vezes mesmo deslumbrantes, em um pop fácil que lembra os anos 70. Culpa revela toda a ginga do grupo e é a faixa que mais parece com algo dos Beatles, com um refrão memorável e guitarras que vão do rítmico ao psicodélico; já Depois Que a Dor Passar começa simples e despretensiosa, antes de se enfeitar de lindos violinos e harpas. A saideira titular Melhor Do Que Parece é de uma maturidade surpreendente, e um exemplo perfeito das letras encantadoras e não raro muito bem-humoradas de Tim Bernardes. Percebe-se que O Terno anda a passos largos à caminho de um som próprio, e sem dúvida têm um futuro brilhante pela frente.

https://open.spotify.com/track/5GvNQ3SpfsB7RVyuzSmxJL

5. Medulla – Deus e o Átomo

medulla

Dez anos separam o último álbum lançado pelo Medulla e Deus e o Átomo. Nesse longo período, a banda foi capaz de explorar seu som, experimentar com elementos do rock, Hip-Hop, música eletrônica, jazz e até folk, ao mesmo tempo que amadureceu sua composição. O novo disco é reflexo dessa jornada e traz a banda do Rio de Janeiro em sua melhor forma. Ele é dividido em duas partes: a primeira, conta com faixas como A Paz, que fala sobre violência policial e o single Faça Você Mesmo, com participação de Marcelo D2. A segunda parte tem, entre outras, a faixa Átomo, que resume o conceito por trás do nome do álbum: “não posso ver mas posso sentir o que não entendemos, não posso ver mas posso sentir, nós entre Deus e o átomo”. Com letras poderosas, repletas de poesia urbana e crítica social, Medulla conseguiu fazer com que toda essa espera por música nova valesse muito a pena – os recentes shows lotados em que o público canta todas as músicas estão aí pra comprovar.

https://open.spotify.com/track/6ijyQWcvw48mHxjLlY4BNi

4. Metá Metá – MM3

mm3

Tentar encaixar o som de Metá Metá em qualquer um gênero parece redutivo. A banda resiste à categorização, misturando influências do jazz com ritmos afro-brasileiros e uma boa pitada de rock. Em MM3, eles aparecem com um ânimo efervescente. As músicas pulsam com o saxofone de Thiago França – colaborador importante no álbum inesquecível de Elza Soares do ano passado, A Mulher do Fim do Mundo –,e a voz poderosa de Juçara Marçal prova ser elástica, se esticando do sussurro a gritos descontrolados que levam as canções ao frenesi. As letras contribuem para a grandiosidade do disco, pintando cenas fantásticas na mente do ouvinte: Do “carnaval onírico” da abertura Três Amigos aos berros de “velhos olhos desleais, impérios imortais” em Imagem do Amor. MM3 traz os integrantes de Metá Metá flexionando os músculos e mostrando os dentes, apontando o quão dinâmica e intensa a música nacional pode ser.

https://open.spotify.com/track/5gHR5A5E8r2g1k6noRldCW

3. BaianaSystem – Duas Cidades


baianasystem

Duas Cidades é uma imersão na Bahia. Mesmo quem nunca esteve no estado, vai ser capaz de sentir-se inserido no local com as 12 faixas do mais recente trabalho do coletivo BaianaSystem. Um disco que é quase impossível de ouvir parado ou de ouvir apenas uma vez. Juntando reggae, axé, samba, frevo, dub, samba, ritmos tradicionais negros e outros gêneros, o grupo constrói sua identidade. Cantando magistralmente temas como desigualdade social (“cidade alta, cidade baixa, em que cidade você se encaixa?”) e a busca voraz pelo lucro (“tire as construções da minha praia, não consigo respirar”), é surpreendente o fato do BaianaSystem ser tão subestimado no cenário musical brasileiro e ter quase nenhum espaço na mídia, principalmente se considerarmos os veículos tradicionais. Mas eles não serão mais silenciados. Duas Cidades vem para provar que a cultura tradicional, popular e de rua do Brasil resistirá.

https://open.spotify.com/track/5VjyvjotqBBwknYvYKGayj

2. Carne Doce – Princesa

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É difícil ser ousado, experimental e psicodélico sem ser pretensioso. Mas o Carne Doce é bem-sucedido nessa missão, unindo, ainda, poesia feminista e de protesto nessa mistura. O resultado é Princesa, uma grata surpresa e um dos melhores discos não só de 2016, mas dos lançados no Brasil há um bom tempo. A banda se reinventa a cada música e toca nas feridas da sociedade patriarcal e conservadora, principalmente em Falo e Artemísia. Mesmo quando aborda temas mais “inocentes”, como memórias da infância e solidão, o faz de maneira sincera, delicada e fugindo de clichês. O discoconsegue casar todas – e mais algumas – as características tão aclamadas do indie gringo com elementos da realidade brasileira e mostra por que a banda é uma das grandes apostas do rock alternativo do país.

https://open.spotify.com/track/6ujzzzC6WsIpgLmouNywcw

1. Céu – Tropix

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Céu retornou em seu quarto disco um pouquinho diferente: suas influências da bossa-nova e do samba agora se misturavam com sabores mais estrangeiros. Seu som, ainda sedutor e marcadamente brasileiro, surge sintético. Seja nas luzes de discoteca no refrão de Perfume do Invisível, ou nas batidas eletrônicas de Amor Pixelado, o digital não veio para ocultar seus talentos como cantora-compositora – pelo contrário. O novo estilo encontrado em Tropix apenas cria uma nova dimensão à sua música: mais dançante e acessível a alguns públicos, no entanto, sempre sutil. Céu tece a nova paleta de sons à sua música de modo a reter seu toque humano, e não nos deixa esquecer suas origens: “litoral, latino-americana”, canta em Varanda Suspensa.

Leia a resenha completa de Tropix do Sala 33 aqui.

https://open.spotify.com/track/31kZMqAJ4QZFQZnQEhfWL7

 Por Fredy Alexandrakis Mariana Rudzinski
fredy.alexandrakis@gmail.com | marianarudzinski71@gmail.com

 

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
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