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São Paulo Fashion Week 2019 é marcado por negligenciar vida de modelo
Guardarroupa
05 maio 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por Carolina Fioratti e Gabrielle Torquato

gabrielletorquato17@usp.br

carolinafioratti@usp.br

O São Paulo Fashion Week (SPFW), maior evento de moda do Brasil, foi palco de escândalos durante a última semana. O modelo Tales Cotta representava a marca Ocksa quando teve um mal súbito e veio a falecer ainda em cima da passarela. Apesar do ocorrido, a marca prosseguiu com o evento, o qual fez parte do último dia da semana de moda, 27 de abril.

Para entender quais medidas deveriam ser tomadas em casos semelhantes, o Observatório conversou com Luiz Alberto de Farias, professor de Relações Públicas na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). O professor acredita que quando uma pessoa da equipe passa por algo tão sério, como foi o caso de Tales, que morreu antes mesmo de chegar a uma unidade de saúde, o evento deve ser interrompido. “A organização deveria ter se colocado mais fortemente, suspendendo as atividades. Falamos aqui de uma vida humana e de uma situação mais que explícita”, comenta ele.

Luiz compara o episódio com a morte do piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna, a qual completou 25 anos no dia 1° de maio. A corrida estava sendo transmitida mundialmente, ao vivo. Senna foi atendido dentro da pista e, em seguida, resgatado de helicóptero. “Difícil crer que ainda tivesse vida diante do tipo de choque que sofreu. Mesmo assim, e tendo um outro piloto morrido na mesma pista um dia antes, tudo seguiu até o fim da corrida”, disse o pesquisador, referindo-se ao piloto austríaco Roland Ratzenberger.

Em relação à estrutura do evento, Luiz crê que poderia ter sido melhor planejada. Mesmo tendo um rápido atendimento por parte dos bombeiros civis e também ter sido logo transportado para um posto de saúde próximo, os serviços do SPFW foram insuficientes.

O procedimento em casos como os citados acima mostra um descaso das equipes organizadoras em relação aos fatos. Nesta situação, o público viu essa atitude como negligente, o que gerou uma visão negativa para a marca, além de protestos nas redes sociais e no próprio SPFW.

Durante seu período de apresentação, o rapper Rico Dalasam manifestou-se contrário à permanência das pessoas no espaço. “Não era para ninguém estar aqui. O garoto acabou de morrer e vocês estão aqui como se a vida não valesse nada”. Apesar de criticar o público presente, sua fala foi recebida por aplausos.

“A ideia do ‘the show must go on’ (‘o show deve continuar’) pode ser muito perigosa, afinal o caso do modelo, imediatamente, foi colocado para ‘debaixo do tapete”, diz o professor. O quadro teve grande repercussão internacional e foi recebido de maneira negativa. Luiz conta que na Espanha, local em que estava quando cedeu a entrevista, pessoas de todos os perfis o procuram para conversar sobre o acontecimento. “[As pessoas] se mostram chocadas com a morte e ainda mais com a atitude desinteressada do evento”.

Luiz Alberto comenta sobre o cuidado que se deve ter ao falar sobre o caso, já que preconceitos e pós-verdades podem surgir. Modelos são estigmatizados pelo público geral e, diversas vezes, a realidade não condiz com o discurso passado. Em entrevista à imprensa, a mãe de Tales confirmou que o modelo era saudável e não sofria de epilepsia, como foi noticiado por alguns veículos. “É importante que a imprensa seja cuidadosa e que as pessoas respeitem um momento tão triste para a família. E que o SPFW aprenda com esse grave erro que o ser humano deve vir acima de tudo”, finaliza o pesquisador.

A organização do evento emitiu uma nota de esclarecimento sobre o caso. Confira a seguir:

“Esclarecimento

O modelo Tales Cotta teve um mal súbito no desfile da Ocksa e foi prontamente atendido pelos socorristas. Foi levado ao hospital com vida, sem indicação que viria a falecer.

O evento foi informado do falecimento às 18:50.

Com esta notícia, a organização se reuniu com as marcas, diretores de desfiles, stylists e modelos que tinham desfiles na programação, e foi dada a opção de cancelar os mesmos. Mesmo abalados, todos decidiram manter os desfiles. Foi decidido também pelo minuto de silêncio na abertura de cada um.

Lamentamos profundamente a morte de Tales, e mais uma vez prestamos nossas condolências à família. Estamos prestando toda assistência necessária neste triste momento.”

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