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Sweet/Vicious e o uso do absurdo para retratar a misoginia
Controle Remoto
07 jun 2017 | Por Jornalismo Júnior

Está escuro e é possível ouvir grilos cantando tamanho o silêncio. Uma pessoa misteriosa inteiramente vestida de preto sobe as escadas de uma fraternidade. Ela escala a parede e invade sorrateiramente um quarto até alcançar um garoto e arremessá-lo ao chão. “Verdade ou consequência?”, pergunta ao rapaz com a voz digitalmente alterada. Indefeso, ele parece não entender que não se trata de um assalto e sim, de uma cena de heroísmo. E nessa cena, ele era o cara mau; só não se considerava um. A foto de uma garota é então mostrada a ele e um questionamento é feito: “você a conhece?”. Gaguejando, ele tenta resistir e negar, mas acaba se rendendo. “Beth, o nome dela é Beth”.

O jogo de indagações prossegue: “Está com medo? Se sente imponente? Quero que pense na Beth. Pense na música que colocou para abafar os gritos dela. Nas lágrimas nos olhos quando você a segurou, quando se forçou nela”. O garoto implora por piedade, mas não comove; apenas recebe cortes furiosos. “Se fizer com mais alguém o que fez com ela, eu voltarei”. O que se segue é a queda da máscara da vigilante para o telespectador. Ao pular a janela, ela recolhe sua mochila cor-de-rosa e retira o capuz, revelando suas volumosas mechas loiras. A partir desse instante, deixa de ser uma justiceira mordaz e passa a ser Jules Thomas, a membra meiga e perfeitamente exemplar de uma irmandade universitária.

Com esse marcante ponto de partida, a série “Sweet/Vicious”, estreada em novembro de 2016 pela MTV, apresenta sua premissa central: retratar o que é ser mulher dentro de uma universidade. Com uma atmosfera bastante estigmatizada, cheia de personagens quase caricaturais, bem semelhante ao que se vê em outras obras adolescentes produzidas e exibidas pela emissora, a série conta a história de duas garotas de personalidades divergentes que se unem para lutar contra os estupradores do campus.

Enquanto Jules é o arquétipo da garota delicada e certinha criada por um pai policial, Ophelia é um poço de grosserias e ironias. Jules é posta inicialmente como o lado ingênuo, generoso e racional da dupla; Ophelia, como o lado perspicaz, egoísta e intuitivo. Essas características opostas de ambas, apesar de serem gradualmente expandidas, criam uma espécie de dinâmica yin-yang que funciona muito bem e que é responsável por boa parte das cenas de destaque.

Ao passo que as duas vão alternando entre suas luzes e obscuridades, nota-se que não são tão diferentes quanto pareciam ser. Muito pelo contrário, a suposta oposição de perfis é o que as aproxima e que torna sua união tão simbólica. O conceito de uma garota arriscando a própria vida para salvar uma completa desconhecida é forte e remete a uma das palavras mais populares no feminismo: sororidade. A sororidade, que nada mais é do que a aliança entre duas mulheres baseada na empatia, no companheirismo e principalmente, em suas vivências como mulher, é a base não apenas da relação entre Jules e Ophelia, como também da vigilância promovida por elas na universidade.

Como consolidação do pacto firmado entre as duas, elas são colocadas em uma situação absurda: minutos após terem sido cúmplices de um crime, cantam a plenos pulmões a música Defying Gravity, tema principal do renomado musical Wicked. A definição dessa cena icônica, que é mostrada ainda no episódio de estreia, é bem o que a série busca fazer: abusar constantemente do absurdo para escancarar a realidade. As próprias habilidades de combate de Jules se encaixam na categoria do hiper-realismo, sendo necessárias para contar a história de um modo leve e irreverente e, dessa maneira, chamar a atenção do telespectador.

Por ter como público-alvo a juventude, a produção busca dar brilho e intensidade à narrativa por meio de estratégias audiovisuais — cores vibrantes, jogos de câmera dinâmicos, seleção de músicas alternativas — e textuais, fundamentadas na aura “mtvística” e na escolha de um humor ácido que circula, na maioria das vezes, graças a Ophelia. Quando se trata de um tema tão pungente e pertinente voltado para jovens, é preciso ter muita cautela ao mesclar drama e comédia. Sweet/Vicious o faz com maestria, cruzando os gêneros na dosagem certa.

Outro acerto da série, possivelmente o maior deles, é a verossimilhança ao abordar a cultura do estupro. Há sempre avisos de gatilho em episódios mais explícitos e a hiperssexualização ao retratar o abuso inexiste. Inclusive, a criadora da série, Jennifer Kaytin Robinson, escreveu um longo artigo sobre a importância do episódio em que a cena de estupro de uma das personagens principais é exibida. Segundo ela, um ex-executivo da MTV, ao ler o roteiro, teve uma quebra de expectativas porque esperava algo mais demorado e violento. Simplesmente “aconteceu e acabou”. Foi quando ela soube que havia sido certeira. “Não costuma ser barulhento (a maioria das pessoas falam sobre como se sentem paralisadas, incapazes de falar ou se mover enquanto acontece). Não é arrastado para dar o efeito dramático como nós temos visto várias e várias vezes em séries bombadas. É rápido, revira o estômago e te muda”, pontua Robinson. Não há propósitos fetichistas, nem apelo por audiência. É uma cena de estupro e é isso.

O que também é bem desenvolvido na trama dentro da cultura do estupro é o falocentrismo — noção velada da superioridade masculina — e sua interferência nas relações entre as mulheres, mesmo em suas manifestações mais sutis. Em um dos episódios, a melhor amiga de Jules, Kennedy, a aborda furiosa por não ter recebido uma mensagem no dia anterior. Jules então inicia uma desculpa que só se torna aceitável aos olhos de Kennedy quando menciona que estava em um encontro com um garoto. É essa mesma amiga que caminha pelo corredores com sua chamativa blusa “The future is female” disseminando preceitos feministas, e que, mais tarde, acaba por ilustrar a dificuldade que as mulheres têm em confiar umas nas outras devido à manipulação a que são desde cedo submetidas.

Apesar da temática densa, Sweet/Vicious está bem longe de ser cansativa; pelo contrário, a junção de seus elementos a torna cativante e facilmente “maratonável”. Não é apenas uma dramédia sobre cultura do estupro. A série possui o ritmo envolvente característico de histórias de super-herói, cuja construção se deve muito pela química entre as protagonistas. Existe nas cenas em que elas atuam como vigilantes certa delícia incompleta. É revigorante assistir Jules e Ophelia colocando em prática suas habilidades surreais, mas ao passo que nada de significativo acontece com os agressores e que as falhas concepções de consentimento e hierarquia incutidas no imaginário masculino são expostas como problemas estruturais, a insuficiência catártica é percebida, tanto na realidade da série como para o telespectador, levando ambas ao abismo de suas emoções.

Logo elas vão se dando conta de que não são Batman e Robin, como Ophelia gosta de as apelidar, mas apenas garotas tentando salvar garotas — tanto as outras quanto elas mesmas. Diante disso, as personagens são, ao longo dos 10 episódios, mais e mais destrinchadas. Especialmente Jules, que usa o “cargo” das duas como desculpa para se esconder cada vez mais dentro de si mesma e das feridas secretas que carrega. É um processo de cura, não necessariamente de vingança, mas como essa é doce e viciosa, conforme alude o próprio nome da série, acaba se tornando difícil se livrar disso. Aos poucos, Jules finalmente entende o que não foi capaz de entender somente com as paredes rabiscadas dos banheiros da faculdade ou com os relatos em seus grupos de apoio: ela não está sozinha.

Rejeição e cancelamento precoce

Embora tenha sido aclamada pela crítica, a série foi extremamente mal divulgada e alcançou níveis baixíssimos de audiência. Segundo a Nielsen Company, empresa que no Brasil age junto com o IBOPE para medir estatísticas, o último episódio tinha aproximadamente 184 mil telespectadores.

Além disso, houve um enorme movimento de rejeição da série, especialmente nas redes sociais. Um dos vídeos de divulgação de Sweet/Vicious, intitulado “Darlington”, possui quase 13 mil e quinhentos dislikes. Nos comentários, há inúmeras declarações ofensivas e acusações de “misandria” por parte da série. “Eu adoraria ver uma versão de troca de gêneros disso!”, declarou alguém com o ego ferido. Será que a mente dele explodiria ao saber que a sociedade é pautada nessa inversão?

Frente a essa recepção negativa, a MTV anunciou, no fim de abril, o cancelamento de Sweet/Vicious, que foi recebido pelos fãs com muito pesar. A originalidade temática da série conquistou um público que, embora seja pequeno, é fiel e emocionalmente conectado à trama. A audiência não é larga, mas é profunda. Fabiana Diaz, fã e ativista pelos sobreviventes do estupro, publicou um desabafo a respeito. “Pela primeira vez, minha identidade como sobrevivente estava sendo explorada em vez de ser usada para o ‘desenvolvimento de personagens’ ou para atrair audiência. Era cru e real e reconfortante saber que nossas histórias eram importantes e valiam a pena ser contadas, e essa série fez isso. Então MTV, eu quero que você saiba o porquê desse cancelamento soar pessoal: porque é”.

Apesar disso, a criadora prometeu continuar lutando para encontrar um novo lar para a série. Já existe, inclusive, uma campanha que busca vender Sweet/Vicious para outro canal. “Em tempos em que tudo parece ser uma batalha íngreme para alcançar o que é justo e certo eu estou pronta pra colocar minhas botas de caminhada e continuar a escalar. Eu espero que vocês caminhem comigo”, declarou Jennifer em uma nota publicada no twitter.

O programa é, acima de tudo, corajoso e firme em seu posicionamento. É uma história que consegue ser hilária e, ao mesmo tempo, comovente. Uma história que bate de frente com a cultura do estupro a ponto de incomodar e gerar uma onda de reações raivosas. Em um momento em que estudantes de medicina são absolvidos mesmo tendo 8 acusações de violência sexual contra alunas, não há nada mais válido e pontual que isso.

Cancelada ou não, Sweet/Vicious resiste.

Por Anny Oliveira
acoliveiramartins@usp.br

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