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Um relato da falta – a literatura sensível de “A criança no tempo”
Na Estante
04 nov 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Letícia Vieira / Jornalismo Júnior

Livros que tratam do assunto “crianças desaparecidas” são sempre polêmicos. Apesar de ser uma realidade muito comum no mundo inteiro, é difícil lidar com todas as consequências do desaparecimento, especialmente quando nos deparamos com a literatura sensível de Ian McEwan. Até o último suspiro do livro, há a esperança de que Kate não desapareceu, apenas está perdida. Esperança esta que compartilhamos com o protagonista.

Stephen Lewis é, ironicamente, um escritor de livros infantis. Bem-sucedido graças ao best seller “Limonada”, sua vida caminha nos eixos. A esposa Julie é uma musicista aclamada e a filha de três anos, Kate, é a alegria de suas vidas. Até uma ida ao supermercado.

“Ele segurava a mão da filha. Ela usava um cachecol de lã vermelha tricotada pela mãe dele e carregava junto ao peito um burrico bem gasto. Caminhavam para a entrada. Era um sábado, havia muita gente em volta. Ele segurou sua mão com firmeza”.

A criança no tempo (Companhia das Letras, 2018) é um retrato de um pai de uma criança invisível, como o próprio narrador onisciente explicita:

“O crescimento de Kate tinha se transformado na própria essência do tempo. Seu crescimento espectral, o produto de uma tristeza obsessiva, era não apenas inevitável – nada era capaz de fazer parar o relógio fibroso – mas necessário. Sem a fantasia de sua continuada existência, ele estava perdido, o tempo pararia. Era pai de uma criança invisível.”

Ao longo de toda a narrativa, que se desenvolve de forma lenta, convivemos com a monotonia e a tristeza de Stephen. Ao descrever o típico clima londrino, de chuva e céu acinzentado, McEwan parece não somente fazer uma descrição do ambiente, mas do próprio estado de espírito do protagonista. Separado – porém não divorciado – da mulher, ele se recusa a sair do apartamento em que os dois moravam, com a esperança de que um dia sua filha achará o caminho de volta para casa:

“Vieram-lhe imagens de um melodrama dickenseniano em que sua tiritante filha de três anos abria caminho na neve para chegar em casa, mas então a encontrava trancada e deserta. Deveriam deixar um bilhete na porta para ela?, perguntou a Thelma quando ela voltou. Em vez de argumentar que Kate não sabia ler e não iria mais voltar, Thelma subiu de novo a escada e pregou seu endereço e telefone na porta da frente do apartamento.”

Membro de um subcomitê voltado para escrita e leitura na infância, Stephen é um autor de um sucesso só, provavelmente porque escrever livros infantis perdeu todo o sentido após a grande tragédia de sua vida. Mesmo com um cargo de certo prestígio, podendo conviver com a cúpula parlamentar da Inglaterra, o protagonista não tem motivação para o trabalho, usando o tempo das discussões para divagar sobre acontecimentos passados.

Tais divagações são a parte mais filosófica do livro e exigem do leitor um certo nível de abstração. Por vezes, há uma certa confusão, pois o personagem evoca memórias e faz reflexões e, depois, volta à realidade.  

Seu antigo editor e amigo próximo, Charles Darke, se constitui, inicialmente, como o personagem que mantém a vida de Lewis em pé. A esposa de Darke, Thelma, é também uma personagem de extrema relevância nesse quesito. Até um certo ponto da narrativa, o casal é visto de forma simplista: ricos, influentes, bem-sucedidos. Os desdobramentos desse núcleo, no entanto, são os mais surpreendentes do livro e chocam o leitor nas páginas finais.

Outro aspecto interessante a se destacar é o recorte histórico do livro, publicado pela primeira vez em 1987. Algumas características da Guerra Fria podem ser notadas, como no momento em que o primeiro-ministro visita a casa de Stephen a fim de fazer um pedido:

“Não posso ir a lugar nenhum sozinho. Além dos seguranças, tenho que levar a linha de emergência nuclear, e isso significa pelo menos três engenheiros. E um motorista extra. E alguém do Estado-Maior.”

As referências históricas, no entanto, não são tão exploradas como poderiam ter sido – o cargo militar do pai de Stephen, a constante mudança da família e o relacionamento dos pais no tempo  da guerra -, talvez pelo objetivo do autor. Porque, acima de tudo, a obra é sobre o tempo. As divagações de Stephen, seu relacionamento com os outros personagens – os pais, a esposa, Charles – e sua tristeza se baseiam no tempo. Reflexões como as retratadas abaixo são uma constante, transportando o leitor para a atmosfera perturbada do protagonista:

“Marchava através de um vazio. Toda a sensação de progresso, e portanto de tempo, havia desaparecido […] A falta de pressa e a ausência de qualquer senso real de destino lhe caíam bem.”

Por fim, pode-se dizer que “A criança no tempo” é uma narrativa poderosa também sobre perda. O autor permite que vivamos o sofrimento de Lewis conjuntamente, toda a sua agonia e ainda assim, sua esperança. Ao ler as últimas palavras do livro, apesar do final surpreendente, sentimos um incômodo – daqueles que só a boa Literatura pode proporcionar.

Por Maria Eduarda Nogueira
mariaeduardanogueira@usp.br

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