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Viagem no tempo: sistemas diferentes, histórias diferentes
CINÉFILOS
04 ago 2020 | Por Sebastião Moura (sebastiaomoura42@usp.br)

Viagem no tempo é um dos conceitos mais consagrados da ficção científica e da fantasia, tendo sido utilizado por inúmeras pessoas para contar diversos tipos de histórias. Mas a mecânica de como ela funciona varia de acordo com as escolhas do autor e essa escolha influencia fortemente não só em como a história é contada, mas também que tipo de história ela é.

Nessa pauta, o Cinéfilos irá explorar um pouco desses impactos de sistemas de viagem no tempo diferentes na escrita criativa. Em termos gerais, existem dois tipos de viagem no tempo na ficção: possibilista e determinista.

A viagem possibilista é aquela na qual é possível mudar os acontecimentos do passado e criar novas linhas temporais. É, de longe, a mais comum. Aparece em De Volta para o  Futuro (Back to the Future, 1985), Efeito Borboleta (The Butterfly Effect, 2004) , Sr. Ninguém (Mr. Nobody, 2009), Feitiço do Tempo (Groundhog Day, 1993), Questão de Tempo (About Time, 2013) e diversos outros.

A viagem determinista é aquela na qual todas as mudanças já foram feitas e fazem parte da linha temporal original. Um personagem é salvo por uma figura misteriosa e, algum tempo depois, viaja para o passado e descobre que ele é a figura misteriosa e que salvou a si mesmo. Pode acontecer também dele resolver um problema utilizando uma informação que recebe de uma versão futura de si mesmo. É a utilizada em O Exterminador do Futuro (The Terminator, 1984), Interestelar (Interstellar, 2014), A Chegada (Arrival, 2016) e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter and the Prisoner of Azkaban, 2004).

Um dos possíveis motivos desse segundo modelo ser muito menos recorrente é que as narrativas deste tipo funcionam em uma lógica de causalidade muito diferente daquela à qual estamos acostumados.

No mundo real, eventos acontecem e têm consequências. Primeiro vem a causa e depois o efeito. Mas, num universo que funcione de forma determinista e no qual seja possível viajar através do tempo, a causa e o efeito em uma sequência de acontecimentos podem ser a mesma coisa.

Por exemplo, em A Chegada, Louise Banks (Amy Adams) consegue convencer o general da China a voltar a colaborar com os outros países. Ela faz com que ele  compartilhe sua parte da mensagem alienígena ao ligar para ele e recitar as últimas palavras de sua esposa. O jeito como ela consegue saber disso é por meio de uma visão que tem de seu futuro, em que, após todo o conflito ter sido resolvido, os dois se encontram e conversam sobre o que ela disse.

Louise se comunicando com os heptapods em A Chegada [Imagem: Reprodução/IMDB]

Essa informação viaja no tempo e, essencialmente, não possui origem. A causa é o mesmo que o efeito. Louise sabe das palavras por que ela sabe das palavras, simplesmente.

Algo semelhante acontece em O Exterminador do Futuro, duas vezes. No primeiro filme, com o nascimento de John Connor. Ao mandar Kyle Reese (Michael Biehn), seu pai, para o passado para proteger Sarah Connor (Linda Hamilton), sua mãe, John se torna o motivo de seus pais se conhecerem, logo, causador de sua própria existência. No segundo longa, O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final (Terminator 2: Judgment Day, 1991), com a origem da Skynet, que só pode ser criada graças aos resquícios do T-800 que havia sido mandado pela Skynet do futuro para matar o John Connor do passado. A Skynet só pode existir a partir do T-800, que só existe a partir da Skynet. O objeto não possui origem, pois ele é sua própria origem.

Miles Dyson (Joe Morton) olhando para o braço do T-800 em O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final [Imagem: Reprodução/IMDB]

Alguém minimamente familiarizado com o tema pode conhecer o paradoxo do avô: se alguém volta no tempo e mata o próprio avô, como essa pessoa pode existir no futuro? E se ela deixa de existir, quem matou o avô? E se ninguém matou o avô, por que ela deixa de existir?

Esse tipo de sistema é repleto dessas situações, em que as coisas não fazem realmente sentido para a lógica convencional da física clássica com a qual a maior parte das pessoas está acostumada. Uma viagem do tempo determinista é, por natureza, paradoxal.

Diferente da possibilista, em que, para todos os efeitos, as mudanças no passado criam universos alternativos com outros históricos e dessa forma, são compreendidos pela nossa cabeça de uma forma bem intuitivamente linear, a mecânica determinista não é muito compatível com o encadeamento de eventos que constituem uma trama.

É por isso que o número de viagens vistas durante a trama de mídia com esse tipo de mecânica é geralmente limitado, para que esse tipo de paradoxo não se repita. Pela mesma razão, é incomum que ele apareça de forma recorrente em formatos como seriados, que possuem uma duração muito maior que a de filmes e, consequentemente, tendem a envolver um número maior de viagem.

De forma contrastante com ficções de viagem no tempo possibilistas, em que são comuns várias viagens e linhas do tempo, nos exemplos com a dinâmica determinista, existe em média apenas um punhado de viagens (em que alguém vai para o passado e participa dos eventos, fazendo com que aconteçam do jeito que já haviam acontecido) que de fato influenciam o enredo.

É extremamente raro, quase inexistente, um filme em que acontece mais de um paradoxo dessa natureza, os chamados paradoxos de bootstrap (a situação do indivíduo matando o próprio avô, por exemplo). Em todos os casos citados anteriormente, há apenas um.

Se esse tipo de loop causal se repete várias vezes na trama, ela acaba sendo infectada de tal forma por essa lógica paradoxal, que se torna algo irreconhecível à maneira como entendemos o conceito de continuidade.

Mas a melhor forma de demonstrar o que motiva uma regra é examinar a exceção. Por isso, a série Dark (2017) será analisada para contexto.

Jonas Kanhwald (Louis Hofmann) em frente à caverna em torno da qual a história de Dark se desenvolve [Imagem: Reprodução/IMDB]

Dark é uma série de suspense alemã original da Netflix que estreou em 2017. O enredo começa com o desaparecimento de duas crianças que desenterram casos semelhantes acontecidos 33 anos antes e que envolvem quatro famílias que, ao longo das três temporadas, são acompanhadas em cinco épocas e mais de seis gerações.

Na metade da primeira temporada, é revelado que o garoto que desaparece em 2019, e acaba aparecendo em 1986, por meio de uma fenda temporal dentro de uma caverna, é pai de um de seus amigos em seu tempo original, o protagonista do seriado. A partir daí, a trama se torna um pesadelo de paradoxos.

Dark quebra a regra não dita da viagem no tempo determinista de limitar o número de viagens e constrói seu enredo ao redor de um número enorme delas. E o resultado é, na verdade, bem previsível. Exagerar no uso do loop causal faz com que o roteiro acabe em um beco sem saída, repetindo o mesmo truque indefinidamente ao longo de vinte horas.

Por que esse personagem vira um assassino? Porque alguém volta no passado para tentar matar ele e impedir que as vítimas dele morram e acaba deixando ele traumatizado, o que o motiva a participar dessa ordem de assassinos viajantes do tempo. Por que esses dois personagens têm um romance? Porque a versão do futuro de um deles, que já viveu o romance, volta no tempo e beija a outra pela primeira vez (na perspectiva dela). Por que a fenda temporal existe? Porque alguém a cria por acidente ao tentar destruí-la.

Se esse parágrafo parece repetitivo, é esse o ponto. Essa é a sensação de assistir a série. 90% de tudo que é explicado em Dark é explicado por um loop em que a causa do evento é na verdade ele mesmo. Para todo “por quê?”, a resposta é sempre “porque sim”.

[Imagem: @drontocore/Instagram]

Os roteiristas trancam os personagens nesse mundo em que eles são roubados de qualquer livre arbítrio e, por mais que tentem, nunca conseguem de fato escolher o que fazem.

Apesar de, na terceira temporada, ser introduzido um método de viagem possibilista e, no último episódio, os protagonistas finalmente escaparem desse mundo sem escolhas e mudarem a linha do tempo, a parte mais substancial da experiência narrativa de Dark ainda são essas quase 30 horas de ciclos repetitivos.

Muita gente parece, durante o processo de assistir as primeiras temporadas, fazer teorias sobre Dark e ficar surpresa quando a série age de forma inusitada. É difícil prever o que vai acontecer quando a audiência não têm realmente nada concreto em que basear suas especulações, já que os fatos não são conduzidos por ações feitas baseadas nas motivações dos personagens.

Quanto mais eles se envolvem com a parte central do enredo, mais eles perdem suas motivações particulares e se tornam movidos unicamente pela obrigação de cumprir seu papel de fazer o que já fizeram, meramente por que é a maneira como as coisas sempre devem acontecer. Porque sim. E isso pode até ser uma resposta que tecnicamente faz sentido, mas não significa que seja satisfatória. O que, se falando de entretenimento, chega a ser mais importante.

Recentemente, Dark foi eleita a série mais popular da Netflix em uma enquete do Rotten Tomatoes (agregador de críticas de cinema e televisão), com mais de 100 mil votos. Com esse resultado, é perceptível que, muitas pessoas gostam dela, e existe uma boa dose de motivos para tanto. A direção e produção são bastante competentes e o elenco entrega performances excelentes.

O roteiro é, certamente, algo totalmente diferente do padrão estabelecido no gênero. O resultado dessa particularidade pode ser pouco admirável, mas é, com certeza, algo interessante que vai marcar a história da ficção científica.

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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