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Visões sobre os testes de personalidade

Psicólogos e usuários discutem como sites avaliam seu perfil

JPRESS
13 jan 2020 | Por Guilherme Bolzan

Navegando hoje pela internet, encontramos muitos testes de personalidade. Eles estão disponíveis em todos os tipos de sites, desde os mais estruturados e longos até os mais simples e velozes. A maioria deles consiste em um questionário de muitas etapas em que o usuário deve escolher uma opção. Depois de terminá-lo, o teste fornece uma classificação da personalidade, de acordo com as respostas dadas, muitas vezes acompanhado de conselhos, dicas de comportamento e relacionamento ou até mesmo, em alguns casos, providências futuras.

A qualidade dos testes também varia muito, desde os feitos por profissionais da área até os mais simples. Segundo Adriana Dinamarco, mestre em Psicologia pela USP, “os testes de um entusiasta são apenas isso: quem os aplica não tem um conhecimento; já os testes psicológicos têm fundamentos científicos, aplicação, mensuração”. Eles, em sua concepção, são ferramentas para psicólogos analisarem seus pacientes e ajudarem no seu trabalho. Sua principal aplicação, nesse campo, é orientação profissional, ajudando os indivíduos a conhecerem mais um pouco de sua personalidade e quais carreiras poderia estar mais interessado.

Porém, com a ascensão das redes sociais nos últimos dez anos, a situação foi mudando. Ao invés de serem apenas ferramentas para profissionais habilitados fazerem seu trabalho, muitos sites retiraram elementos desta teoria para constituir os quizes que vemos hoje. Segundo Dinamarco, “é só um recorte de um grande teste ou de algo que deveria ser feito com a ajuda de um profissional, alguém que estudou pra isso” – necessidade também prevista na Lei Federal no. 4.119, 1962, artigo 13, §1º. Sem a responsabilidade profissional com o usuário (não mais paciente), eles servem como uma fonte de entretenimento, divertindo os usuários ao saberem se eles são “macarrão, lasanha ou pizza” .

“Sinceramente, eu falaria que a confiabilidade é nenhuma. Mesmo porque é um teste que te dá uma resposta praticamente estruturada, não existe o interlocutor que vai te explicar item a item”, diz a psicóloga. Isso é perceptível já que esses testes, feitos sem o devido acompanhamento de um psicólogo, podem resultar em diferentes resultados cada vez que o usuário os faz. Para Dinamarco,  mesmo aqueles feitos com acompanhamento, não devem ser tomados como sentença definitiva: “os resultados dos testes dificilmente são imutáveis, ou nunca são imutáveis. Mesmo porque nós somos seres humanos e mudamos na trajetória da nossa vida”.

Mesmo com as desvantagens destacadas pela psicóloga, ela ainda sim afirma que esses ainda podem ser úteis, de modo que “é interessante o usuário da internet buscar o autoconhecimento, a pessoa não deve ter medo de fazê-los, mas entender que é o começo e não deve ficar só em testes na internet”.

Hoje, testes mais completos, com resultados mais próximos das teorias de que eles derivam, podem ser encontrados online. Talvez o mais popular deles seja o 16personalities. Este vai muito além dos quizes e, oferece largos serviços de aconselhamento; sempre, é claro, por um preço (pacotes de 30 a 160 dólares). A grande maioria destes testes mais apurados – inclusive o 16personalities – se diz baseada na metodologia MBTI – Myers Briggs Type Indicator. Segundo Emylly Alves, estudante de Jornalismo que realizou o teste através dessa metodologia, o resultado não foi totalmente preciso: “Eu não diria que me identifiquei com todas as características da personalidade que eles descreveram, mas no geral eu acho que concordo com os pontos mais importantes”.

Esse método para realizar testes de personalidade é uma estruturação de teoria do importante psicólogo Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica. De acordo com o artigo Estrutura interna do Myers Briggs Type Indicator (MBTI): evidência de validade, sua teoria é bastante extensa e possui vários desdobramentos, mas acredita que os seres humanos se fazem singulares derivando de uma base, comum à toda humanidade. Essas diferenças são geradas principalmente pela interação com o mundo externo, por suas experiências. Porém, para realizar as análises e um aconselhamento da psicologia, nem sempre é possível considerar todas as singularidades de um indivíduo, e isso nem sempre é necessário, uma vez que as pessoas tendem a se enquadrar em certas categorias e buscam se espelhar em outras pessoas para seu comportamento consciente.

Dessa forma, vão surgindo tipos de personalidade, marcas no comportamento em que as pessoas podem ser enquadradas. Jung formula que existem basicamente dois modelos comportamentais dos quais as pessoas variam: o introvertido e o extrovertido. O primeiro orienta sua energia psíquica para o ambiente interno, voltando para ele também suas experiências e a maior parte dos pensamentos; o segundo, tende a fazer o oposto, ao direcionar esses fatores para o ambiente externo.

Essa divisão hoje é bastante conhecida. Introvertidos tendem a se comportar de maneira mais reservada, voltando-se principalmente para pequenos grupos, enquanto extrovertidos tendem a estar mais confortáveis em grandes grupos. Estas são apenas tendências, não há realmente uma regra para o comportamento; não quer dizer que, em muitos casos, extrovertidos ajam de maneira introvertida e vice-versa.

Para aprofundar a divisão, Jung une essa divisão inicial ao que chama de atitudes da consciência. A sua classificação se apoia principalmente no modo como as pessoas se comportam diante dos outros, a parcela consciente de seu comportamento. Desse modo, as atitudes da consciência mostram como a pessoas se portam diante do mundo. A primeira delas é a Percepção – o modo como informações sobre o mundo são coletadas. Ela pode ser por Sensação (usa os sentidos para coletar as informações) ou por Intuição (coleta informações construindo raciocínios explicativos e tirando conclusões). A segunda é o Julgamento (o modo como as informações coletadas são processadas; como lidamos com elas para tomar decisões), que pode ser por Pensamento ou Sentimento, ambos bastante auto explicativos. 

A partir dessas divisões, as pessoas podem ser classificadas em oito tipos de personalidade: introvertido/extrovertido (quanto ao comportamento), sensação/intuição (quanto a Percepção) e pensamento/sentimento (quanto ao Julgamento). Cada pessoa possui uma tendência entre extroversão e introversão e também é enquadrada em apenas um dos seguintes: sensação, intuição, pensamento e sentimento, resultando nas oito combinações possíveis.

Na primeira metade do século XX, Katharine Cook Briggs pesquisava sobre os tipos de personalidades por interesse próprio, observando em membros de sua família e biografias que lia. Com base nesse trabalho, criou uma classificação: pensante, espontâneo, executivo e social. Porém, com a publicação dos trabalhos de Jung sobre tipos de personalidade em 1923, ela decidiu expandir sua pesquisa, agora integrando-a com a teoria junguiana. Sua filha Isabel Briggs Myers também se uniu aos estudos e juntas elas criaram o MBTI.

Apesar de ser baseado na teoria de Jung, o MBTI se diferencia em aspectos importantes. O principal deles é a inclusão de mais um eixo, a Orientação, que já estava presente nos trabalhos de Jung, mas não fora muito desenvolvido. Dentro da Orientação, a pessoa pode ser Julgadora, um modo metódico, estruturado e organizado de planejar o dia a dia; ou Perceptiva, uma maneira mais flexível e aberta a novos estímulos. Além da inclusão deste eixo, as pesquisadoras reorganizaram as categorias anteriores estruturando-as para permitir uma melhor classificação. Agora, os conceitos de Jung eram divididos em 4 eixos: Disposição (introvertido ou extrovertido), Percepção (sensação ou intuição), Julgamento (pensamento ou sentimento) e Orientação (julgadores ou perceptivos). Cada indivíduo é classificado em cada uma das opções para cada um dos eixos, resultando 16 tipos de personalidade possíveis, indicados sempre por letras:

I – introvertido; E – extrovertido

N – intuição; S – sensação

T – pensamento; S – sentimento

P – perceptivo; J – julgador

A metodologia proposta é uma tipologia, buscando classificar as pessoas em tipos. Apesar das diversas categorias, uma das maiores críticas feitas é a tendência binária do teste. Dentro de cada eixo só há duas opções para classificação, dessa forma, no caso de alguém que tem tendências muito parecidas para os dois lados, a classificação pode não funcionar tão bem.

Ainda segundo este artigo, há diversos estudos sendo feitos sobre testes de personalidade, certamente não é um assunto encerrado. Segundo a doutora Marcela Mansur-Alves, professora de Psicologia da UFMG, “instrumentos que trabalham com tipos psicológicos têm a vantagem de combinar dimensões em categorias, possibilitando uma fácil compreensão para leigos e profissionais”. Porém, também faz uma ressalva: “os estudos dos tipos reduzem a variedade psicológica, logo devem ter amplos testes empíricos”. Nessa linha,  Emylly Alves afirma que o teste feito na internet parece ter sido feito com orientação científica, mas “no fim ele acaba por parecer um teste do BuzzFeed”, fornecendo “não necessariamente conselhos, mas uma descrição de uma personalidade que o site identificou de acordo com minhas respostas.

O MBTI não é exatamente um teste e sim uma tipologia. Ele não especifica como as pessoas devem ser classificadas, apenas indica os tipos possíveis. Dessa forma, cabe ao psicólogo fazer a análise através de questionários, entrevistas e da sua observação do paciente. Somente considerando a complexidade das personalidades em uma análise individual e detalhada que é possível fornecer aconselhamento profissional ou pessoal. Para Mansur-Alves, “a avaliação da personalidade tem grande importância em uma variedade enorme de contextos, tais como clínica, saúde mental, hospitalares, organizacional, trânsito, forense e acadêmico”.

Segundo Adriana Dinamarco, o problema surge quando a tipologia MBTI é utilizada para criar os questionários desses sites. Apesar da teoria que o baseia ser sólida, o caminho que conduz os usuários do site até o resultado nem sempre é. “A confiabilidade é zero, não acredite no que está vendo ali”, afirma. Em seguida, argumenta que autoconhecimento é algo positivo, mas é preciso garantir que esse desejo por saber mais de si mesmo não extrapole os limites do razoável, seguindo mais os resultados de um teste do que sua própria consciência. Um dos exemplos positivos desses testes é destacado por Emylly Alves: “Achei interessante porque eu acabei pensando em aspectos pessoais e da minha personalidade que eu nunca tinha parado para refletir”. Justamente por causa da amplitude das perguntas que buscam classificar, “a pessoa acaba pensando se concorda ou não com certas afirmações sobre sua personalidade que você nunca tinha feito uma auto reflexão antes”. Por fim, Adriana Dinamarco aponta que “é interessante o usuário da internet buscar o autoconhecimento, mas é o início. A pessoa não deve ter medo de fazer os testes, e sim entender que são o começo de se autoconhecer; não deve ficar só em testes na internet”.

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