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Zózimo Bulbul, o pioneiro do cinema negro brasileiro
CINÉFILOS
18 nov 2018 | Por Jornalismo Júnior

Quando comparado ao cinema feito em países do “primeiro mundo”, as produções brasileiras sempre tiveram como característica uma representatividade um pouco maior da população negra. Em meados do século 20, enquanto em Hollywood alguns filmes ainda utilizavam o recurso de blackface para retratar personagens negros, no Brasil, o comediante Grande Otelo estrelava produções de grande sucesso, e já na década de 40 era um dos atores brasileiros mais reconhecidos, inclusive internacionalmente.

Nas décadas seguintes, o movimento do Cinema Novo com recorrência trazia Antonio Pitanga, Luiza Maranhão e outros atores negros para interpretar personagens importantes em filmes que abordavam temas como a cultura afrobrasileira e a vida na periferia das grandes cidades.

Apesar disso, como hoje sabemos, a ideia de que a questão racial é bem resolvida no Brasil nunca passou de disfarce para esconder debaixo do tapete pontos complexos e delicados sobre como o racismo se manifesta em nossa sociedade. Ainda que houvesse certa representatividade nas telas, isto sempre foi feito sob o olhar de autores homens e brancos, que eram – e ainda são – a grande maioria dos diretores de filmes.

Zózimo Bulbul foi um dos poucos a contornar essa diferença, tornando-se um dos ícones do nosso audiovisual. Mesmo assim, seu nome quase não é lembrado mesmo entre os conhecedores e fãs de cinema, sinal de que pouco tem sido feito ao longo dos anos para que sua obra seja reconhecida.

Os primeiros anos

Zózimo Bulbul nasceu Jorge da Silva, em 21 de setembro de 1937, no Rio de Janeiro. Zózimo era apelido de infância, e Bulbul, palavra de origem africana, foi incorporado ao nome artístico mais tarde como forma de manifestação política, semelhante ao que fizeram Muhammad Ali e Malcolm X. A prática era comum entre o movimento black power nos anos 60 e 70, e tinha como objetivo fazer menção a uma ancestralidade perdida quando os negros foram levados de seus países como escravos.

Desde pequeno, Zózimo tinha uma relação especial com o cinema. Em entrevista que integra o minidocumentário do site Cultne em sua homenagem, ele destaca o impacto que teve ao assistir Orfeu Negro (1959) quando jovem. A obra é baseada na peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, e, apesar de dirigido pelo francês Marcel Camus, foi gravada no Rio de Janeiro e com atores brasileiros. Para Zózimo, o filme foi responsável por colocar o Brasil no mapa cultural do mundo, ao ganhar prêmios internacionais importantes como a Palma de Ouro em Cannes. Isto serviu de incentivo para que jovens como ele, politicamente engajados e envolvidos com o cinema, investissem para fazer filmes que mostrassem ao mundo o que o Brasil tinha a oferecer.

Zózimo Bulbul

Orfeu Negro, de Marcel Camus, foi um dos filmes que despertou o interesse de Zózimo pelo cinema (Imagem: Reprodução)

Em 1959, Zózimo entrou para a Faculdade de Belas Artes, onde estudou desenho, pintura e cenografia. Lá, passou a se envolver com o movimento estudantil, entrando para o Partido Comunista do Brasil e participando do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC-UNE). Foi assim que entrou em contato com os diretores do Cinema Novo e ganhou seu primeiro trabalho como ator em um filme: Cinco Vezes Favela (1962), produzido pelo CPC. Depois disso, passou a trabalhar frequentemente com outros diretores do movimento, como Cacá Diegues, em Ganga Zumba (1963), e Glauber Rocha, em Terra em Transe (1967).

Ao mesmo tempo, o ator trilhava uma carreira no teatro, onde foi ganhando reconhecimento da crítica especializada, e também na TV, que o tornou conhecido por ser o primeiro negro a protagonizar uma novela brasileira, Vidas em Conflito (1969), da TV Excelsior. Todas essas experiências contribuíram para a formação de Zózimo como artista, mas foi o filme Compasso de Espera (1973), de Antunes Filho, que o inspirou a tomar o lugar atrás das câmeras e a se expressar também como cineasta.

De ator a diretor: Alma no Olho

No final dos anos 60, Zózimo foi convidado pelo diretor de teatro Antunes Filho para estrelar sua primeira produção cinematográfica. Interessado nos debates sobre as relações raciais do Brasil naquela época, Antunes decidiu retratá-las em seu filme, e assim surgiu Compasso de Espera. Zózimo, além de interpretar o protagonista, ajudou também a escrever o roteiro, no qual colocou parte de suas experiências pessoais.

A trama conta a história de Jorge, um jovem negro bem-sucedido, que trabalha numa agência de publicidade e é aspirante a poeta. Além das dificuldades que já enfrenta no dia a dia por causa da cor de sua pele, a vida de Jorge fica ainda mais complicada quando ele se apaixona por Cristina (Renée de Vielmond), uma jovem branca e filha de família tradicional paulistana.

Zózimo Bulbul

Renée de Vielmond e Zózimo Bulbul em Compasso de Espera (Imagem: Reprodução)

Compasso de Espera é inovador de diversas maneiras, sendo a principal delas a iniciativa de abordar a questão racial a partir de uma perspectiva quase impensável para a época. Segundo artigo de Noel dos Santos Carvalho para a revista Crioula, “foi o primeiro,  e talvez o único filme  cujos realizadores reivindicaram  a influência dos estudos sobre  as relações raciais no Brasil feitos  por Florestan Fernandes e Roger Bastide  nos anos 1950, e que apontaram para a  existência de preconceito racial”.

Mesmo no vanguardista Cinema Novo, os personagens negros eram comumente representados sob a luz de estereótipos, de maneira exótica, quase folclórica. Jorge, entretanto, faz parte da elite intelectual brasileira, e conforme avança seu relacionamento com Cristina, passa por questionamentos existenciais até então exclusivos de personagens brancos.

A produção foi finalizada em 1970, mas barrada pela censura da ditadura militar. Somente após grande insistência, os realizadores conseguiram permissão para que o lançamento acontecesse, o que só ocorreu em 1973. No mesmo ano, Zózimo realizou seu primeiro filme, o curta metragem Alma no Olho, que produziu, roteirizou e dirigiu.

Conforme o diretor conta em entrevista no programa 3a1, da TV Brasil, o filme foi feito com o que restou de Compasso de Espera, tanto no sentido literal, já que ele usou rolos que sobraram do longa de Antunes Filho, quanto no sentido metafórico, uma vez que a experiência vivida durante a produção ajudou a inspirar as ideias para fazer o curta.

Zózimo Bulbul

Zózimo Bulbul em cena de Alma no Olho (Imagem: Reprodução)

Alma no Olho é ousado tanto estética quanto politicamente. Inspirado no livro Alma no Exílio (Soul on Ice), do ativista dos Panteras Negras, Eldridge Cleaver, pode ser interpretado como uma alegoria da história do negro na América. Sem qualquer diálogo, embalado pela trilha sonora que mistura jazz e elementos de música africana, Zózimo aparece em cena sozinho, tendo atrás de si apenas um fundo branco.

Numa mistura de dança, teatro e cinema, são mostrados diversos elementos que remetem à diáspora africana e à escravidão. E, no fim, o personagem único é mostrado rompendo as algemas que traz nas mãos, como se a mostrar que o caminho para a libertação do povo negro é a educação, o conhecimento de sua própria história.

Como era de esperar, o filme também teve problemas com a censura. Zózimo foi questionado principalmente a respeito da simbologia que usa em cena, como os trajes de prisioneiro e as correntes. Desgastado pelo episódio, o cineasta decidiu sair do país, levando consigo uma cópia que seria exibida em centros culturais nos Estados Unidos e na Europa, onde teve boa recepção. Dessa forma, antes mesmo de ser exibido publicamente no Brasil, Alma no Olho teve repercussão em outros lugares, e Zózimo deu início a sua carreira como diretor já com certo reconhecimento internacional.

Abolição?

Depois de Alma no Olho, Zózimo dirigiu Dia de Alforria (1981), mini documentário sobre o sambista Aniceto do Império. Retornou ao Brasil em 1977, e voltou a atuar tanto em filmes quanto no teatro. Ao mesmo tempo, sua militância em relação às questões raciais tornava-se cada vez mais incisiva, criticando principalmente a classe cultural que contribuía para perpetuar ideais racistas no cinema e na TV.

Zózimo Bulbul

Cartaz do filme Abolição

E é em 1988, no centenário da lei que tornou ilegal a escravidão no Brasil, que Zózimo realiza seu filme mais importante, Abolição. No documentário, com duas horas e meia de duração, o diretor retrata a história do negro no século XX com uma abordagem didática, mas sem desviar do cuidado estético nem deixar de lado o firme posicionamento político.

Misturando imagens de arquivo, entrevistas e encenações, o longa é assertivo ao denunciar que, mesmo após o famoso episódio da assinatura da Lei Áurea, a população negra brasileira continuou desamparada, e, cem anos depois, as feridas causadas por séculos de escravidão estavam longe de cicatrizadas. Se ainda é significativo afirmar isso hoje, tendo essa noção já difundida entre os estudiosos da história do Brasil, em 1988 tinha um peso ainda maior, já que substituía o clima de comemoração pelo de protesto.

Abolição teve dificuldades para ser realizado, principalmente por causa da inflação da década de 80, que encolhia ainda mais o orçamento do filme. Apesar disso, teve boa recepção da crítica: ganhou os prêmios de melhor roteiro e fotografia no Festival de Brasília, em 1988, e de melhor documentário no Festival Latino de Cinema de Nova York, em 1990.

Mais tarde Zózimo dirigiu ainda um terceiro curta, Pequena África (2002), e cinco filmes em média metragem. Em 2007, realizou um sonho antigo e fundou o Centro Afro Carioca de Cinema, onde são realizadas oficinas, debates, mostras de filmes e outras atividades com o objetivo de evidenciar e fortalecer as relações entre o cinema negro brasileiro e africano.

Zózimo morreu em janeiro de 2013, aos 75 anos, devido a um câncer no intestino. É uma pena que, tendo exercido um papel tão importante para o cinema nacional, seja ainda tão pouco conhecido. Infelizmente, ele é mais uma das personalidades que foram sistematicamente colocadas de lado na narrativa do que se considera “relevante” por causa de discriminação de diferentes origens. Nesse período em que se discute conscientização, empoderamento e correção de erros históricos, Zózimo Bulbul é sem dúvida um dos nomes que precisa ser resgatado.

Zózimo Bulbul

Zózimo Bulbul (Imagem: Simone Marinho/Agência O Globo)

por Matheus Souza
souza.matheus@usp.br

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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