Este filme faz parte da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.
De acordo com relatório da UNICEF existem, atualmente 28 milhões de crianças (até 18 anos) refugiadas fugindo de conflitos e guerras. Sendo que 45% são da Síria e do Afeganistão. De cada 200 crianças no mundo, uma é refugiada. Mas quem são essas “umas” crianças que foram obrigadas a migrar, a deixar suas casas, seus brinquedos, seus amigos, suas escolas? Quem são as crianças cujas infâncias desvaneceram ?
Com uma câmera na mão, 8 crianças e adolescentes puderam dar voz e corpo aos dados e números que nos chocam diariamente. O diretor curdo Bahman Ghobaldi, o primeiro cineasta a fazer um filme em curdo, Tempo de Cavalos Bêbados (A Time for Drunken Horses, 2000), conta em entrevista para o site Offscreen, que o termo fronteira sempre foi o personagem principal desde as suas histórias de infância. Nunca entendeu por que a etnia curda, com 4 milhões de habitantes, está separada, segregada no Irã, na Turquia, na Síria e no Iraque. “Na minha opinião, as fronteiras são o flagelo das pessoas no Oriente Médio hoje”, afirma o diretor.
Então, durante 7 meses, Bahaman deu aulas de cinematografia e narrativa nos campos de refugiados de Kobani e Shingal, localizados no norte da Síria e do Iraque, resultando no documentário de 73 minutos, A Vida na Fronteira (Life on the Border, 2015). Com 25 câmeras doadas pelo diretor, o campo virou um set de filmagem por alguns meses para dar vida aos 8 contos, misturando documentação no momento real e representações da realidade. Embora a qualidade das encenações seja baixa, estas mostram contraditoriamente toda a sua beleza, apenas na tentativa, no ato de fazer cinema.
Com a câmera de cabeça para baixo, um menino de terno cinza e calça de moletom se apresenta como Hazem Khodel, iniciando o primeiro conto: Shangar’s Beloved. Sem os pais, levados pelo Daesh, Hazem mora com a avó e irmã em uma das milhares de barracas espalhadas pelo campo. Durante a narrativa, vemos no menino de 13 anos, um homem adulto, responsável por cuidar da avó e da irmã doente, buscar remédio e água, lavar a roupa, mas a tarefa mais difícil, que ele tenta incessantemente, é fazer sua irmã mais nova feliz. Depois que voltou do sequestro do ISIS, só encara os objetos, alheia a tudo.
Basmeh Soleiman abre o tripé, enquadra e foca a câmera, passos de quem um dia sonha ser diretora de cinema. No seu conto, In Search of the Truth, Basmeh não quer apenas contar sua a história, parte em busca de outros relatos. Em uma cena dentro de uma das tendas, vemos várias mulheres sentadas em círculo, compartilhando suas experiências, de modo que a mesma união que nos fortalece aqui com coletivos feministas, também as encorajam lá. A violência contra mulheres é espantosa, cerca de 5 mil foram sequestradas e vendidas como escravas sexuais para membros do Daesh. Sua irmã, provavelmente está entre elas. Separadas durante a fuga, Basmeh não sabe sobre a situação dela, assim como milhares de famílias no campo. Uma das senhoras entoa um canto lírico, traduzindo a dor de todas elas – “Shingal (Sinjar) é uma ruína/ Cada respiro é difícil para nós”- crianças, mães e a própria diretora choram, desamparadas pela saudade.
Com imagens desfocadas de homens mantendo mulheres em cativeiro, Sami Houssein de 13 anos, acorda do que parece ser um pesadelo, se não fosse a realidade da sua irmã. Com uma TV ligada no chão da tenda, a existência de sua família é ilusória, despedaçada pela ausência da irmã. Choram diante da televisão, enquanto realizam o único ato de vitalidade, cortar pedaços do pão sírio e molhar no iogurte, o que intitula seu conto, Bread and Yogurt. Essa rotina flagelada só é interrompida quando o diretor passa avisando que vai exibir um filme. Crianças saem correndo de suas tendas para assistir Sniper Americano (American Sniper, 2014) – “possui lindas cenas de guerra”- afirma o diretor. No entanto, no momento de maior tensão do filme, acaba a energia do gerador. A menina de 14 anos, Ronahi Ezaddin vai buscar mais gasolina em outra tenda quando um senhor a questiona da utilidade. “Cinema! Que Cinema?! Nós somos o cinema!”
Na montagem, irônica e irreverente, Our Film is Better, a diretora Ronahi destaca a hipocrisia dos blockbusters de reproduzirem guerras no cinema, quandos eles estão ali vivenciando uma. Assim, quando uma bomba estoura, as crianças saem da tenda e sentam em um gramado, assistindo aos bombardeios e com as mãos no rosto entoando: “Deus, por favor não na minha casa, não na do meu vizinho”. Em outro conto, Sky and Meditation, o diretor Delovan Kekha também tem o céu como protagonista, mas dessa vez não olha as bombas caindo, mas anseia para que medicamentos despenquem dos céus e curem seu pai, adoentado.
Diar Omar, também percorre todo o campo em busca de um par de óculos para seu pai. Carbonizados, seus pais estão impossibilitados de se mexer, completamente enfaixados, após sua casa pegar fogo com bombardeio do Daesh, assim Omar passou a ser o elo dos seus pais com a sociedade. A procura pelos óculos pode ser interpretada como uma metáfora do anseio de achar outras lentes, que não sejam as da sobrevivência em um campo de refugiados.
Após a reconquista de Kobani pelas tropas curdas, Mahomadi Ahmadi e sua irmã, duas crianças voltam à cidade em busca do seu pai que ficou como mártir, no conto intitulado Toward Home. Auxiliados por dois jovens soldados, uma mulher e um homem, eles percorrem escombros até chegar à pilha de destroços do que um dia foi sua casa. Na cena mais impactante do filme, a irmã de Mahomadi vê o seu bichinho de pelúcia entre os destroços e corre para pegá-lo, quando avista seu pai o segurando, morto. Assistir à realidade de crianças traumatizadas na tela de um cinema é como nos despir da nossa própria pele, do nosso egoísmo e narcisismo pungente.
No último conto do filme, Serenade of Mountain, a música surge como a outra manifestação cultural capaz de transgredir a realidade vigente, um instrumento de denûncia e enraizamento da memória dispersa nos noticiários de televisão. Zohur Saied diretora da narrativa, é também a voz mais bonita do campo, por quem o músico procurou em todas as tendas para cantar com ele. Ao encontrá-la, Zohur afirma que prometeu nunca mais cantar depois da morte do seu pai, como se toda a arte perdesse o sentido diante da guerra. Na cena final, no entanto, vemos os dois caminhando rumo às montanhas do Sinjar, e uma voz linda cantando ao fundo: “Again, my voice travelled the world / Don’t forget me”.
Para o diretor Bahman Ghobadi, seus filmes não são sobre crianças – “nós curdos, pulamos a infância, nascemos com uns vinte anos, sofremos como europeus nos seus trinta, quarenta anos”- afirma. Durante os créditos finais de A Vida na Fronteira vemos os bastidores de filmagem dos jovens diretores, aprendendo que a parte mais importante de um filme é o cenário que conta uma história ou as múltiplas histórias dos refugiados na montanha do Shingal (Sinjar). “Meu filme é sobre pessoas com corpos pequenos, mas grandes espíritos”, ressalta o diretor. Esses jovens diretores, impossibilitados de assistirem à exibição de seus filmes no Festival de Berlim, já que não há nenhum ônibus do Curdistão para Berlim, deixaram sua mensagem em uma carta para a primeira ministra da Alemanha: “Mande câmeras e não armas”.
por Giovanna Querido
gioquerido@gmail.com