Por Thaís Santana (thais2003sc@usp.br)
As animações japonesas têm se tornado cada vez mais lucrativas no comércio global e Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba (2019-2025) se destaca pela sua popularidade de público e crítica.
O anime também se diferencia de outros do mesmo gênero pela perspectiva feminina apresentada na história. A obra conta com a autoria de uma mulher que desafia estereótipos e traz uma reflexão sobre o sexismo representado nos animes, categoria predominantemente masculina.
Shounen e o machismo na cultura japonesa
Esses desenhos animados são, no geral, adaptações de mangás (histórias em quadrinhos japonesas) que possuem divisão por faixa etária e gênero, como é o caso do shounen, uma categoria direcionada para meninos de 12 a 18 anos.
Nessas histórias, há o desenvolvimento físico e mental de um protagonista masculino que passa por diversas dificuldades até alcançar seu objetivo. Para as personagens femininas, a representação consiste em um tipo de mulher ideal — de acordo com os valores patriarcais do Japão — e em um objeto de desejo.

[Imagem: Reprodução/Youtube]
A Jornalismo Júnior entrevistou a cineasta Camila Rangel para comentar o assunto. Formada pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) do Rio de Janeiro, Camila escreveu como parte de seu TCC o artigo “Representação feminina em animes shounen: Análise da personagem Sakura em Naruto/ Naruto Shippuden”, no qual ela analisa as origens da figura feminina idealizada e a razão dela aparecer nessa categoria de animação.
“O Japão é um grande patriarcado também, como é aqui, no Ocidente. Eles têm muitas questões de valores morais e se baseiam muito nisso”, explica a especialista. Em seu estudo, ela observa que o sistema familiar do país preserva uma ordem de hierarquia entre gênero e idade, em que as mulheres subordinam seus interesses aos homens mais velhos. Para os japoneses, a figura feminina como submissa é priorizada na transmissão midiática. “Essas animações foram reforçando, ao longo dos anos, essa representação que vem do passado patriarcal”, afirma Camila. Tanto para o público quanto para os escritores, a ideia de uma mulher cativante é muito afetada por esse histórico, e é refletida em histórias do gênero shounen.
Demon Slayer
O anime Demon Slayer foi adaptado pelo estúdio Ufotable e teve a primeira temporada lançada em 2019. Naquela época, a obra se destacou pela qualidade da animação, trilha sonora e cenas de batalha. O filme Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba – O filme: O trem infinito (Kimetsu no Yaiba Mugen Ressha-hen, 2020) deu continuidade à história e arrecadou nos cinemas cerca de 400 milhões de dólares ao redor do mundo.
Atualmente, o anime espera pelo lançamento de sua quinta e última temporada, que será lançada como uma trilogia de filmes distribuída pela Crunchyroll e Sony Pictures Entertainment fora do Japão. No Brasil, o anime está disponível nas plataformas Netflix, Crunchyroll e Funimation e possui um público internacional fiel.
A história se passa no Japão Taisho e segue o garoto Tanjiro Kamado, que teve sua família ser massacrada por demônios, e sua irmã Nezuko, transformada em um deles. Após o trágico evento, o protagonista entra para um esquadrão de matadores de demônios para buscar uma forma de curar Nezuko e vingar sua família.

A obra aborda temáticas do shounen como importância da amizade, superação e a luta entre o bem e o mal e é desenvolvida ao longo de arcos, cada um apresentando novos desafios e vilões. Apesar de trazer a clássica fórmula da categoria, Demon Slayer inova em questões da representatividade feminina.
“As animações japonesas se popularizaram muito para o Ocidente. Então, eles não estão mais tentando agradar só um olhar oriental, porque o Ocidente também assiste e consome essa cultura pop japonesa”, considera Camila Rangel. Outra explicação para essas características se dá pela pessoa que deu vida ao anime: a mangaká Koyoharu Gotouge.
Gotouge mantém o seu verdadeiro nome e gênero em segredo para viver no anonimato, uma prática comum entre as autoras de shounen para que a audiência não diminua por julgamentos. Um funcionário que trabalhou com a mangaká revelou que ela é uma mulher, e desde então, nenhuma outra fonte ou a própria desmentiu. Durante o processo de criação do mangá de Demon Slayer, Gotouge tinha ideias mais profundas e adultas para a história, mas que foram barradas pelo estúdio. Muito dessa maturidade da criadora, no entanto, é vista na obra, por meio da complexidade inesperada das personagens mulheres. Esse tipo de cuidado é visto em escritoras que buscam trazer um olhar feminino para sua história.
O female gaze
O conceito de female gaze refere-se a uma perspectiva narrativa que foca na visão e na experiência das mulheres — na arte, no cinema e na literatura. Essa abordagem é importante para representá-las na mídia de forma mais positiva e que promova identificação com o público feminino. Segundo a cineasta Camila, o crescimento da perspectiva feminina em obras como Demon Slayer tem a ver com a inclusão de gênero no público e na produção. “Eu acho que isso cresceu por conta das mulheres trabalharem mais nessa área. Escreverem, serem mangakás. E também as mulheres consumirem mais, há mais espectadoras”, afirma.
A influenciadora digital Luísa Bayão, que produz conteúdos sobre animes e cultura geek, concedeu sua opinião para a Jornalismo Júnior sobre como o female gaze afeta o público. De acordo com Luísa, os consumidores-alvo do shounen — jovem e masculino — estão em formação de opiniões e valores. Logo, a forma que as personagens femininas são retratadas pode impactar sua visão sobre as mulheres.
“Quando essas personagens aparecem em papéis limitados, superficiais ou sexualizados, isso tende a reforçar estereótipos e a criar uma visão mais restrita das mulheres na sociedade”, observa Luísa.
A cineasta Camila analisa que é comum que as personagens do gênero sofram muita sexualização, a partir de roupas curtas e decotadas e enquadramentos que expõem o corpo. Até mesmo no processo de adaptar o mangá, mudanças são feitas para tornar isso apelativo. Ela afirma que esse é um problema na representatividade feminina em Demon Slayer.
A influenciadora digital realça, como telespectadora, que a aparência das personagens nos shounen foge de como as mulheres são de fato. “Isso é um pouco frustrante, pois acaba criando uma pressão sobre o público feminino para que correspondam a esse padrão inatingível”, comenta.
O protagonismo das personagens femininas
Camila Rangel explica que para trazer uma personalidade que corresponda ao padrão de mulher japonesa ideal, as animações shounen desenvolvem personagens femininas como doces e submissas. Mesmo que seja uma aventura, Camila percebe que elas são ou serão um suporte para o protagonista masculino, como uma mãe e irmã, ou os protagonistas as salvarão de um perigo
As mulheres em Demon Slayer se diferenciam por terem uma contribuição relevante para a história. Nezuko, a irmã de Tanjiro, não é reduzida somente como motivação, mas também atua como parte da equipe principal em todos os arcos. Por ser um demônio poderoso, ela resgata o irmão e seus amigos nos momentos mais tensos da trama e protagoniza várias cenas de luta.

As habilidades físicas da jovem avançam ao longo da história, a ponto dela impressionar até mesmo os vilões do anime. Em momentos de dificuldade, ela tem uma evolução interna que traz a recuperação das suas forças e demonstra sua personalidade altruísta e justiceira.
As outras personagens femininas, como as pilares, categoria mais alta do esquadrão que elimina demônios, também possuem momentos de destaque nas lutas e uma visão profunda sobre sua trajetória e experiências. Luísa Bayão lembra que essas lutadoras mulheres estão em pouco número, quando comparadas à quantidade de personagens masculinos.
A pilar Shinobu Kocho é um bom exemplo de como o female gaze constrói mulheres de forma multifacetada. Shinobu não tem tanta força física para os embates com demônios, então produz um veneno que os elimina, injetado em sua espada. Essa característica enfatiza a inteligência da personagem, em vez de rebaixá-la como fraca, além de trazer notoriedade na história.

[Imagem: Reprodução/Youtube]
A personalidade de Shinobu traz uma representação da raiva feminina e subverte a imagem da mulher doce. A personagem teve uma jornada de sofrimento, porém não expressa essa raiva e mostra sempre um sorriso e uma voz calma. Isso é colocado na história como uma pressão que Shinobu põe em si mesma para ser mais levada em conta — experiência vivida por mulheres que são criticadas quando demonstram emoções como raiva ou ódio.
Female gaze: diversidade da experiência feminina
O contraste entre a personalidade das personagens também é uma forma de incluir outras representações do que é ser feminino. A pilar Mitsuri Kanroji tem a habilidade de resistência e força oito vezes superior às dos outros personagens, mas sua personalidade empática e amorosa abraça aquilo que é lido socialmente como feminino.
Ela também tem um desenvolvimento criativo: mesmo sendo uma mulher dentro do ideal físico e psicológico, foi muito rejeitada por outros homens, e entrou no esquadrão como um modo de provar que ela pode merecer o amor de alguém.

[ Imagem: Reprodução/Youtube]
Kanao Tsuyuri também é uma figura de destaque entre os personagens da idade de Tanjiro e Nezuko. Por ter sofrido abusos na infância, a garota utiliza o completo silêncio como mecanismo de defesa, o que remete à saúde mental feminina e às variadas reações diante de traumas. Ela é resgatada e treinada por duas irmãs, e essa relação demonstra como a sororidade influenciou seu desenvolvimento.
Também é interessante avaliar dois relacionamentos da história: Tamayo, uma demônio que assim como Nezuko tem sua humanidade preservada, e Yushiro, seu aprendiz. Tamayo ocupa a posição de poder na relação e tem seus dilemas e habilidades aprofundados. Yushiro, por sua vez, é totalmente devoto e respeitoso à ela e a admira por sua história.
O pilar Tengen Uzui vive um relacionamento poligâmico com três mulheres: Makio, Hinatsuru e Suma. Por mais que elas sirvam de apoio para o personagem, ele as coloca como prioridade e a história que eles tiveram juntos é contada. Entre elas, não há rivalidade feminina e cada uma possui uma personalidade distinta e marcante. Para a influenciadora Luísa, os romances nos shounen a incomodam quando são superficiais e limitam o desenvolvimento das personagens femininas e das próprias relações.
Masculinidade saudável: inseguros, sensíveis e apaixonados
Para Luísa Bayão, os personagens masculinos de Demon Slayer trazem uma variedade de personalidades e aparências, o que facilita a afinidade — inclusive para o público feminino. Alguns são caracterizados como fora do padrão esperado pelo gênero, sem que isso entre em conflito com a masculinidade deles, como é o caso de Inosuke Hashibira e Muichiro Tokito.

[Imagem: Reprodução/Youtube]
No caso da personalidade, a sensibilidade não é vista como fraqueza. Além do próprio protagonista — que é extremamente empático —, o personagem Zenitsu Agatsuma demonstra suas emoções por meio do choro. Um dos objetivos dele é se casar e sua motivação vem em momentos que ele está sob o efeito da paixão. Esses são estereótipos escolhidos para representar mulheres, o que além de subverter o papel de gênero, torna Zenitsu um exemplo de que essas características não precisam anular a relevância e profundidade de um personagem.

[Imagem: Reprodução/Youtube]
A nova onda no shounen
Camila Rangel afirma que, mesmo sob a escrita de um homem, é possível produzir um shounen que não se limite às diferenças de gênero, pois há um crescimento do público feminino que em algum momento também vai precisar ser agradado. Ela percebe essa melhora nas animações dos últimos anos.
“O sucesso de um anime não depende de seguir estereótipos, mas de uma história bem contada, com personagens carismáticos e um enredo envolvente. Esses elementos podem atrair todo tipo de público, independentemente do gênero”, finaliza Luísa Bayão.
